Vidal Assis defende a delicadeza em 'Negro Samba Lírico'

Vidal Assis defende a delicadeza em ‘Negro Samba Lírico’ – 30/12/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

“Preto Samba Lírico” —sentença que batiza o segundo álbum de Vidal Assis, devotado à obra de seu parceiro e rabi Elton Medeiros— define uma linhagem que o cantor identificou na história da música brasileira.

Um samba frágil, consolidado por compositores uma vez que Elton, morto em 2019, e Cartola, seguido por pupilos uma vez que Paulinho da Viola —que participa do disco, assim uma vez que seus colegas de geração Chico Buarque, Cristóvão Bastos, João Bosco, além dos mais jovens Ayrton Montarroyos e Beatriz Rabello.

O noção, que ele começava a riscar, ganhou materialidade numa conversa de Vidal com Hermínio Bello de Roble, seu companheiro e também cultor do samba lírico. “Ele me mostrou um aro que estava usando: ‘Foi o Cartola que me deu’. E o aro trazia a imagem de uma lira. Era o que eu precisava ouvir”, lembra o cantor.

“Fiquei pensando que esse lirismo que tem Cartola uma vez que pioneiro, segue em Paulinho, chega em Arlindo Cruz, Luiz Carlos da Vila, Mauro Diniz e mesmo no pagode dos anos 1990, em canções uma vez que ‘Farol das estrelas’, do Belo.”

Em seu nome, “Preto Samba Lírico” carrega, para além do lirismo, a negritude. Professor de biologia, Vidal mergulhou no tema de maneira sistemática a partir do doutorado, quando estudou a subjetividade de pessoas negras, mais especificamente professores e professoras.

“Minha pergunta médio era: no que esses professores se agarravam para se manter vivos e atuantes dentro de um sistema racializado uma vez que o nosso?”, conta Vidal. “Entendi que eles se agarravam nas memórias que tinham de outros professores e professoras negras que tiveram. Esse estudo me colocou em contato com autoras e autores fundamentais, uma vez que bell hooks, Frantz Fanon, Lélia Gonzalez, Grada Kilomba, Silvio Almeida, Sueli Carneiro. Entendi que essa noção de lirismo tem uma cor. Cartola, que foi o patrono dessa linhagem, foi um preto que nasceu em 1908, colado no pós-Extinção.”

A reflexão atravessa o disco uma vez que um eixo sombrio. Vidal afirma que o lirismo, para um artista preto, não é um luxo —é um gesto político. “O preto estar no lugar da delicadeza é alguma coisa revolucionário”, afirma. “Num país que nos associa o tempo todo ao trabalho pesado, à força, à violência, onde o preto foi historicamente desumanizado, animalizado, poder declarar a sutileza e o afeto é expor que o paixão, o zelo, o sonho não são territórios proibidos para nós”.

Essa visão aparece de modo explícito na participação da deputada federalista Talíria Petrone, do PSOL do Rio de Janeiro, no clipe de “Mascarada”. “Chamei Talíria não para falar da luta que ela exerce no Congresso, mas uma vez que uma mulher negra pra simbolizar comigo uma cena de paixão e delicadeza”, diz Vidal.

“Isso reforça o compromisso do ‘Preto Samba Lírico’ em colocar o preto nesse lugar. E mais, ao invocar uma mulher negra, eu também penso que o samba, inclusive essa linhagem, por mais que seja sensível, ainda deve muito em relação à isenção de gênero.”

O repertório do álbum articula, portanto, delicadeza e tensões históricas. Em meio a clássicos de Elton —uma vez que “O Sol Nascerá”, “Onde a Dor Não Tem Razão”, “Mascarada”, “Moemá Morenou”—, surgem inéditas que ampliam a conversa. “Um Paixão Único”, parceria do compositor com Vidal e Ronaldo Bastos, devolve ao lirismo sua limpidez mais direta.

Em “Colhendo Imagens”, de Elton e Vidal, o pupilo faz uma referência sutil à perda progressiva de visão do rabi nos últimos anos, nos versos “mas é na noite também que ainda pranto por ela/ dissolvendo as imagens que um dia eu guardei no olhar”. A dupla assina ainda “Iluminada” e, com Cristóvão Bastos, “Dança dos Amores”.

A clássica “Maioria sem Nenhum”, samba de Mauro Duarte e Elton, também ganha alguma coisa de inédita. Vidal insere no meio da melodia um rap de sua autoria, escrito para o disco, onde diz: “Defendo a lógica da ação afirmativa/ a taxação real dos super-abastados/ e o termo da graduação 6×1 tão exaustiva”.

“Os versos de ‘Maioria sem Nenhum’ são muito bonitos, o lirismo está ali também”, diz Vidal. “Mas há um olhar mais incisivo para o contexto socio-histórico em que a maioria da população brasileira está inserida. Sou prosélito da teoria de que presente, pretérito e porvir estão muito misturados. Não vejo esse samba dissociado do que Emicida, Bia Ferreira ou Mano Brown escrevem.”

Na base instrumental, o Trio Julio —Marlon, Magno e Maycon— firma o pavimento sobre o qual o lirismo caminha. Os três trabalham há anos explorando a zona de encontro entre tradição e refinamento, mas neste disco parecem inferir outro intensidade de concisão. O violão, o cavaquinho e a percussão se encaixam no quina de Vidal.

“Fizemos os arranjos a oito mãos. Eu chegava com ideias iniciais, as harmonias, e eles traziam a informação deles, da escola do pranto, que tem tudo a ver com Elton. Acendi a chispa, e eles jogaram querosene”, brinca o cantor.

Ao falar do disco, Vidal retorna sempre a Elton. Ele lembra, por exemplo, o dia em que, depois da sarau de 89 anos do compositor, decidiu parar com o rabi, já cego, no bar Bip Bip, tradicional reduto do samba de Copacabana.

“Estacionei em frente ao bar e deixei Elton no sege esperando. Fui invocar o Alfredo [dono do bar e amigo de Elton], mas ele não estava. Falei: ‘Poxa, que pena, queria que o Elton falasse com ele, ele está ali no sege’. Quando eu fui voltando, todos os músicos levantaram com seus instrumentos e vieram cantando ‘Pressentimento’ em cortejo detrás de mim. Eles rodearam o sege e começaram a trovar pro Elton. Olha só que coisa formosa. Foi o último presente que o Elton recebeu em vida”, conta Vidal, que no disco revive, a seu modo, a gratidão e a devoção íntima daquela noite.

Folha

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