Uma vez que alguém que fundou cinco escolas de samba ainda não tinha sido homenageado em nenhum enredo no Grupo Próprio do Rio de Janeiro? A dívida do carnaval carioca com Heitor dos Prazeres será paga neste ano pela Vila Isabel, que levará à Marquês de Sapucaí o enredo Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África.
Além de músicas e quadros, o cantor, compositor e pintor assina também a instauração das agremiações Mangueira, Portela, Unidos da Tijuca, Vizinha Faladeira e Deixa Falar.
“Uma vez que um fundador de escola de samba, um grande pintor, grande músico, costureiro, cenógrafo ainda não tinha sido enredo?, questionou, em entrevista à Sucursal Brasil, Gabriel Haddad, que junto com Leonardo Bora, são os carnavalescos da Vila.
Haddad lembrou que Heitor já tinha sido citado algumas vezes em outras escolas e foi enredo no grupo chamado de chegada, mas no Grupo Próprio, ainda não.
“São diversos caminhos, porque só essa atuação múltipla do Heitor já revela muitos Heitores, e a gente foi percebendo isso, um artista, um sambista, uma pessoa, uma entidade. Por isso, o enredo segue estas transformações” revelou Leonardo Bora à Sucursal Brasil.
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Sonhos
A teoria dos carnavalescos foi trazer os diversos sonhos do Heitor porquê se a Vila os estivesse sonhando. A risca temática dividiu os setores a partir dos nomes que o artista teve na vida, o menino Lino, o Ogã Alabê-Nilu, o Mano Heitor do Conversa, o afro-rei Pierrot e o grande final da vida de Heitor, quando foi considerado emissário por toda a sociedade e representou o Brasil no Primeiro Festival Mundial de Artes Negras, realizado em Dakar.
A pesquisa que Bora e Haddad desenvolveram para uma exposição sobre o artista no CCBB RJ em 2023 gerou nos dois o libido de fazer nascente enredo. Eles destacam que, nesse trabalho, se depararam com o pensamento de Heitor de que samba é macumba, e macumba é samba, porquê indica o samba-enredo do carnaval 2026.
Os dois chegaram neste ano à escola, com a responsabilidade de propor o enredo, e encontraram o pesquisador Vinícius Natal, com quem já tinham trabalhado e que também tinha vontade de homenagear Heitor dos Prazeres.
“Foi uma sinergia boa que aconteceu entre a gente, o Vini e a própria escola. Todo mundo topou o enredo e começamos a edificar tudo”, contou Haddad.
Os carnavalescos veem porquê uma responsabilidade muito grande encarar a difícil tarefa de concentrar em exclusivamente um desfile toda a obra de Heitor dos Prazeres.
Leonardo Bora disse que a teoria foi debutar a costurar essas relações do enredo e da história do homenageado com a própria clube sua comunidade. Martinho da Vila, por exemplo, gravou Pierrô Enamorado, que é uma elaboração de Heitor dos Prazeres com Noel Rosa, publicado porquê o poeta da Vila.
“Só aí já tem uma conexão dupla com a Vila Isabel”, pontuou ele, que incluiu a música no desfile.”Vai ser retratada por conta dessa preço do Heitor historiógrafo do cotidiano nas suas pinturas e na sua musicalidade”.
Com nascente enredo, os carnavalescos querem também valorizar a amplitude artística de Heitor, que, porquê entendem, nem sempre teve o reconhecimento devido. Nem mesmo o termo de multiartista era usado na idade dele, o que está sendo considerado, agora, neste enredo.
“Uma das grandes contribuições desse enredo é para esse reposicionamento do Heitor dos Prazeres enquanto grande artista da história da arte brasileira, grande pintor moderno, grande representante da modernidade carioca, desse projeto modernista que tem o samba porquê carruagem superintendente”, apontou Bora.
“Essa produção extraordinária dele acabou sendo colocada em rótulos que nunca competiram a ela, de pintura naif, primitiva. São termos que, de tão enferrujados, não param de pé”, criticou.
Ogã Alabê-Nilu
A religiosidade do homenageado também estará na avenida. Heitor dos Prazeres começou a frequentar casas de candomblé ainda moço e foi no terreiro de sua madrinha, Tia Ciata, baiana considerada uma das criadoras do samba no Rio e de importante participação para o fortalecimento da cultura negra na cidade, que Heitor se tornou o Ogã Alabê-Nilu.
“É o superintendente dos tambores, aquele que toca e canta. Ele tinha, no terreiro da Tia Ciata, esse lugar mítico tão importante para a compreensão dos sambas e macumbas cariocas, uma posição de líder dos tambores. O Heitor entendia que isso que se entende por samba nasce dessa macumba do Rio de Janeiro que é uma mistura de ritmos e de geografias”, disse Bora.
E é justamente onde existia o terreiro de Tia Ciata que a Vila Isabel vai se concentrar para entrar na avenida nascente ano. É a concentração chamada de “Balança”, em referência a um prédio construído no lugar, o famoso Prédio Balança Mas Não Cai. Ali, era a Terreiro Onze, origem do samba no Rio e de manifestações de cultura da população preta. Também ali fica o busto de Zumbi dos Palmares.
“Coincidência Incrível. Exatamente onde era a antiga Terreiro Onze”, comemorou Haddad.
Recepção da comunidade
O pregão do enredo foi na Pedra do Sal, ponto de encontro para samba e celebrações da cultura negra na região conhecida porquê Pequena África. A apresentação teve recta a roda de samba e invitação a intérpretes de outras agremiações, o que agradou a comunidade da Vila, que imediatamente se envolveu com o enredo.
“O momento do pregão foi o vértice, de reencontro da comunidade com o enredo que ela se identificasse diretamente, um enredo que falasse sobre o próprio carnaval, a história do samba, que envolvesse a segmento também de todas as religiões de matrizes africanas”, afirmou Haddad.
“A comunidade recebeu da melhor maneira provável, tinha muita gente emocionada, chorando feliz de estar vivendo aquele momento ali com a Vila”, observou.
Escola popular
Leonardo Bora destacou que a Vila é considerada uma escola de rua, que gosta dessas festividades da rua, da passeio, da esquina e do cafezeiro.
Para ele, é um enredo que acaba necessariamente transitando por nascente universo, porque o Heitor também é um personagem das ruas do Rio de Janeiro, do carnaval brincado no bonde, da memória de uma cidade que pode ser tão festiva e agregadora porquê era a antiga Terreiro Onze, onde tantas famílias migrantes de diferentes origens conviviam.
Na visão do carnavalesco, a Vila tem apreço por esta nostalgia carnavalesca, já cantada em vários sambas belíssimos porquê do próprio Martinho da Vila.
Por outro lado, é uma escola muito aguerrida, muito orgulhosa das suas raízes negras, das comunidades que formam a sua base, o Morro dos Macacos e o Morro do Pau da Bandeira.
“É um enredo que pegou na veia do componente da Vila Isabel e o agradou muito, porque não tem porquê não se identificar”.
Percentagem de frente
Para Alex Neoral, que assina com Márcio Jahú a coreografia da Percentagem de Frente, nascente enredo, que é o primeiro deles com Bora e Haddad, está sendo bastante reptante, mas ao mesmo tempo muito emocionante.
“Desenvolver uma percentagem a partir dessa personalidade é uma responsabilidade. Às vezes é também um poço sem fundo de possibilidades, porque ele era um artista múltiplo”,disse à Sucursal Brasil.
“Ali, a gente tem a oportunidade de trabalhar ele porquê alfaiate, porquê compositor, porquê pintor, porquê sambista, porquê ogã, porquê macumbeiro, porquê um varão preto importante e atuante naquela idade, companheiro de Noel Rosa, de Cartola, fundando as escolas que hoje em dia são a Portela, a Mangueira”.
Esse é o 17º ano que Alex faz a coreografia de uma Percentagem de Frente. Ele avaliou que o trabalho está cada vez mais reptante.
“As comissões, porquê um todo e em todas as escolas, são quase um espetáculo independente do desfile. É uma responsabilidade muito grande”, pontuou.
Neoral confirmou que haverá surpresas na apresentação, indumentária que costuma empolgar o público na avenida.
“Não é no sentido de uma mágica, não é só isso. É uma surpresa de pegar no inesperado. Pegar o público despercebido e emocionar, e aí a emoção vai no coração, em um tanto que é mais virtuoso”.
Uma vez que a coreografia é feita a partir da música, Neoral elogiou o samba, o qual considerou magnífico para a apresentação da Percentagem. Ele explica que um bom samba impulsiona o movimento e dá motivação, e aposta que a Vila tem um dos melhores sambas deste ano.
“Na prática, é muito fácil coreografar um samba bom, bonito e que faz movimentar. Isso também faz diferença na questão da emoção, da realização, do resultado. Estou muito feliz com a escola nascente ano, com o enredo, com os carnavalescos e com a comunidade. Muito esperançoso e feliz”, concluiu empolgado.
Conheça os enredos e a ordem dos desfiles do Grupo Próprio do Rio de Janeiro
1º dia – domingo (15/2)
- Acadêmicos de Niterói – Do Superior do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil;
- Imperatriz Leopoldinense – Camaleônico;
- Portela – O Mistério do Príncipe do Bará;
- Estação Primeira de Mangueira – Rabi Sacacá do Portento Tucuju – o Guardião da Amazônia Negra
2º dia – segunda-feira (16/2)
- Mocidade Independente de Padre Miguel – Rita Lee, a Padroeira da Liberdade;
- Beija‑Flor de Nilópolis – Bembé do Mercado;
- Unidos do Viradouro – Pra Cima, Ciça;
- Unidos da Tijuca – Carolina Maria de Jesus.
3º dia – terça-feira (17/2)
- Paraíso do Tuiuti – Lonã Ifá Lukumi;
- Unidos de Vila Isabel – Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África;
- Acadêmicos do Grande Rio – A Região do Mangue;
- Acadêmicos do Salgueiro – A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha pânico de feitiçeira, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau.



