Zezé polessa dá vida à cantora nara leão em musical

Zezé Polessa dá vida à cantora Nara Leão em musical solo – 14/10/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Não faz nem cinco minutos desde que Zezé Polessa entrou em cena quando olha para o público e diz: “A falta de horizonte não tem a menor relevância —o problema é a falta de pretérito”. É o pretexto para revelar a intenção do músico solo “Os Olhos de Nara Leão”.

Na peça, a atriz procura traçar um perfil leal daquela mulher cuja estatura mediana ressaltava os dentes grandes e separados e que, apesar de vivido unicamente 47 anos, ajudou a dar visibilidade a um grupo de músicos que, unidos, formam uma verdadeira seleção vernáculo: Chico Buarque, Edu Lobo, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Zé Keti, João do Vale, Nelson Cavaquinho e Cartola.

“Nara tinha um olhar generoso para a arte”, afirma Miguel Falabella, responsável e diretor do espetáculo que estreia dia 10 de outubro, no Teatro Renaissance, em São Paulo. “Estranhamente, tinha a noção da brevidade da sua existência, porque gravou muito e de tudo”, completa ele, que durante três anos gestou a peça ao lado de Polessa.

Foi dela a teoria de levar para o palco a vida da capixaba Nara Lofego Leão (1942-1989), depois de se empolgar, durante a reclusão imposta pela pandemia, com o livro “Ninguém Pode com Nara Leão: Uma Biografia”.

Com estilo romanceado, a obra de Tom Cardoso mostra uma vez que a moçoila reclusa, apelidada de “Caramujo” e “Jacarezinho do Pântano”, além de ofuscada pelo clarão do pai e da mana mais velha —a futura protótipo Danuza Leão—, deu a volta por cima e se transformou em uma das mais influentes e produtivas intérpretes da MPB entre os anos 1960 e 1980.

“Eu conhecia a atividade política da Nara durante o regime militar, mas não sabia um décimo da relação dela com o cinema, as artes plásticas, o teatro, a verso”, conta Polessa, que inicialmente pretendia apropriar o livro para o teatro, mas queria evitar a monotonia que marca produções biográficas além de driblar a diferença de idade —ela está com 72 anos.

A solução surgiu durante uma conversa informal com Falabella, que entrou no projeto e logo apostou na liberdade artística oferecida pelo teatro para permitir que Nara retorne do pretérito —ou do horizonte— para compartilhar com o público algumas lembranças e reflexões. “Porquê Nara era uma artista fora da caixa, também abandonamos a caixinha do etarismo para que eu pudesse interpretá-la”, diz Polessa.

A atriz aprofundou seus estudos sobre a cantora. “O reverência que Nara tinha pela singularidade é o que mais admiro. Ela foi uma jovem triste, calada. Com 14, já fazia estudo. Por outro lado, desfrutou de uma liberdade concedida pelo pai, principalmente depois que contraiu hepatite e passou dois meses sem ir à escola. Quando voltou, não se encontrava mais, queria tocar violão, ficava batucando com os colegas no fundo da sala”, conta ela, que evitou imitar o seu jeito de falar ou trovar ao interpretar canções uma vez que “A Orquestra”, “Diz que fui por aí”, “Marcha da Quarta-Feira de Cinzas”, “Opinião” e “Conflagrar as Velas”, entre outras.

Segundo Falabella, Nara foi uma mulher do seu tempo. “Era uma pequena da subida mediocracia, mas foi a primeira a olhar para além das suas fronteiras, a se interessar pelo morro. Um pouco totalmente impensável na estação, mormente para uma mulher. Na estação, era vergonhoso tocar violão porque era coisa de vagabundo, mas Nara carregava seu instrumento pelas ruas de Copacabana uma vez que um ato libertário”, diz o encenador.

Entre tantos perfis possíveis da cantora, Falabella descobriu o fio da meada ao ler um poema do gálico Charles Baudelaire, “Os Olhos dos Pobres”, que valoriza a empatia. “O poeta diz ‘voltei meus olhos para os seus, querido paixão, para neles ler meus pensamentos’ que, no caso da Nara, exemplifica seu interesse pela cultura do morro, logo completamente ignorado pela escol”, diz Falabella, citando uma frase de Nara presente no solilóquio: “vivíamos uma vez que em um quadro impressionista, no qual os burgueses contemplam o mar”.

Em manente mutação, Nara nunca se deixou rotular ou permanecer presa a um determinado gênero: acompanhou o promanação da bossa novidade que acontecia na sala de sua lar, flertou com o Tropicalismo, participou dos festivais da cantiga, protagonizou o lendário show “Opinião”, com João do Vale e Zé Ketti (além de escolher a desconhecida Maria Bethânia para substituí-la), resgatou antigos compositores, cantou samba-canção, músicas de protesto, rock’n’roll e Jovem Guarda.

“O grande legado de Nara foi ter sido uma mulher com a voz de seu tempo e que gravou verdadeiras pérolas. Não era boa cantora uma vez que Elis, Dalva de Oliveira, Ângela Maria, mas era uma artista surpreendente em suas escolhas, com um olhar sensível para a sua estação”, afirma Falabella, que não esconde detalhes deliciosos uma vez que o perfil de namoradeira.

“Não é verosímil expor que tinha um sabor definido pois foi de Ruy Guerra, com quem se casou, a Ferreira Gullar, passando por Jerry Adriani e Cacá Diegues, que foi seu último marido. Foi uma pessoa que soube viver.”

Zezé Polessa contesta o título de musa da bossa novidade colado em Nara pelo historiador Sérgio Porto. “Desconfio dessa glória porque o envolvente da música era perverso a ponto de não deixá-la trovar. João Gilberto dizia que era desafinada, justo a Nara que, quando ouvia uma cantiga pela primeira vez, logo decorava a letra e desvendava a simetria”, comenta. “Ser musa é péssimo, é a posição da pessoa que serve unicamente para ser admirada. Ela reagiu logo em seu primeiro disco, ‘Nara’, de 1964, no qual era esperado um repertório da bossa novidade e ela deu uma banana, preferindo Cartola, Nelson Cavaquinho, Zé Keti.”

Polessa conversou ainda com amigos da cantora em procura de detalhes para sua elaboração. Marieta Severo contou, por exemplo, que Nara era muito humorada e dificilmente se alterava. Já Chico Buarque lembrou que se surpreendia com as verdades ditas por ela, quando poucos tinham coragem para repetir.

“Quando alguma música era censurada, Nara procurava justamente o ‘Quotidiano de Notícias’, jornal que esteve sob mediação do governo militar, para falar mal do Tropa. ‘Os militares podem entender de canhão, metralhadora, mas não pescam zero de política’, ela dizia, sem grito ou agressão.”

A invenção tardia de um tumor maligno no cérebro, que lhe provocava fortes dores de cabeça e esquecimento manente, abreviou sua existência, drama tratado com discrição por Falabella em seu texto. Na peça, ela mesma diz “vou poupá-los do horror da doença”. “Isso prova que Nara não era musa, Nara era a música”, diz Polessa.

Folha

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