Depois de algumas semanas fora do ar, o Era Outra Vez finalmente volta das férias —mas as férias continuam sendo o ponto por cá, porque não existe zero melhor do que ler um bom livro nos dias de folga.
Com as crianças longe da escola, o mês de julho pode ser uma ótima oportunidade para pais e filhos mergulharem juntos em leituras que não são obrigação. Leitura por prazer mesmo, não para estudar para nenhuma prova de português.
Aquém, há dez opções de lançamentos para saber nesses dias de insensível, em tardes de bobeira em lar, embaixo do cobertor com uma xícara de chocolate quente. A seleção conta com livro-imagem, livro-jogo e até livro para tingir feito por um dos principais poetas contemporâneos brasileiros.
Confira a lista a seguir.
Nadar Voar
Ler oriente livro de João Luiz Guimarães e Anna Cunha é uma vez que submergir num sonho. Ou seria voar num sonho? Em “Nadar Voar”, o jornalista e a ilustradora convidam o leitor para se perder numa obra enxurrada de trova, onde tudo é traste, fluido e instável. Com lirismo quebrável, o texto acompanha um personagem numa jornada em que voos e mergulhos são a mesma coisa, altos e baixos se confundem e identidades não são fixas, mas borbulham a partir do movimento. “Contente por ter asas/ para com elas nadar. /Contente por ter barbatanas/ para com elas voar”, escreve Guimarães, que cria versos curtos que brincam com as ideias de voo, mergulho e travessia, colocando-as num metódico paradoxo. Enquanto isso, Cunha desfila ilustrações banhadas (ou seriam sopradas?) de silêncios visuais, nas quais nadadeiras e asas, nuvens, peixes e ondas se misturam e se embolam.
Pedro e Paulo
Projeto selecionado na primeira edição do Prêmio Filex, “Pedro e Paulo” é desses livros que precisam ser lidos algumas vezes. Estreia de Fábio Severino na literatura infantojuvenil, a obra conta a história de Pedro, que vive sozinho num lugar ignoto, onde cultiva um jardim. Para serenar um pouco a sua solidão, o narrador decide aditar mais um personagem à trama: Paulo, que patroa ouvir música, dançar e pintar quadros com as flores cultivadas por Pedro. Aí já dá para perceber um pouco da complicação do jogo narrativo: o narrador quebra a ilusão do livro, fala diretamente com o leitor e não nos deixa olvidar que estamos diante da ficção e da literatura. Mas não é só por isso que é bom ler “Pedro e Paulo” mais de uma vez. Artista plástico, Severino espalha pelas páginas uma série de referências visuais, que vão de Matisse e Hockney a David Bowie, num verdadeiro passeio de formação do olhar.
Tic-Tac
Em seguida “O Varão, o Rio e a Caixa”, a ilustradora argentina Anabella López radicaliza ainda mais o livro ilustrado em “Tic-Tac”. Minimalista, quase um poema visual, a obra secção do clássico “Alice no País das Maravilhas” para investigar artisticamente o tempo e as transformações causadas por ele. Desta vez, a autora usa um gato e uma flor para fabricar uma narrativa formada por imagens e pouquíssimas palavras, sempre pontuais e exatas, uma vez que num poema. Enquanto o livro de Lewis Carroll distorce o tempo a partir do paradoxal, com relógios enlouquecidos e personagens que vivem presos em chás intermináveis, “Tic Tac” mostra a partir do silêncio, da contemplação e do movimento uma vez que o passar das horas pode ser relativo. Depois que o gato encontra a flor, o felino vê a vegetal se transformar rapidamente, muito mais rápido do que ele mesmo, ainda mais veloz que os ponteiros do relógio.
Kintsugi
Antes de falar sobre o livro, é preciso interpretar o título. Kintsugi é o nome de uma técnica japonesa que repara objetos quebrados com uma mistura de resina e ouro. Com ela, as peças são reconstruídas, mas as rachaduras ficam aparentes, fazendo com que imperfeições e cicatrizes ganhem novos significados. É com essa teoria que a ilustradora peruana Issa Watanabe constrói seu novo livro. Em seguida o premiado “Migrantes”, ela agora conta a história de um coelho que toma chá na companhia de um pássaro. Mas, de repente, tudo muda. Uma cor branca misteriosa toma conta da cena, pinta o corpo da ave, rompe objetos e faz o pássaro ir embora. O coelho corre detrás do colega, se embrenha na mata e mergulha até as profundezas, onde acaba encontrando a mesma cor branca. Sem facilitar a leitura nem fabricar um final acolchoado, Watanabe toca em questões complexas nessa fábula feita unicamente com imagens.
Bicho de Palha
Levante livro do dedo interativo é uma opção para quem acha que literatura e games não podem se misturar. Nele, o leitor escolhe os caminhos da narrativa, que pode ter finais diferentes dependendo das decisões tomadas. A trama secção da história popular “Bicho de Palha”, uma espécie de “Cinderela” da cultura popular brasileira, na qual uma jovem serviçal vive coberta por um véu de palha e, assim uma vez que a Gata Borralheira, usa um toque de mágica para despertar o paixão de um príncipe. No livro-jogo, a escritora Januária Cristina Alves e a ilustradora Samara Romão atualizam o história e adicionam a ele uma personagem contemporânea, a booktuber Agnes. É simples que o formato interativo não é inédito —está de certa forma em “O Jogo da Amarelinha”, de Julio Cortázar, ou no extinto programa policial “Você Decide”, por exemplo. Mas “Bicho de Palha” traz alguma coisa importante para o debate atual —ele mostra que o problema talvez não sejam as telas, mas o uso compulsivo e equivocado que fazemos delas.
Querido Burle Marx
Custoso Burle Marx, esta breve resenha vem descrever que a escritora e ilustradora Renata Bueno acaba de publicar um livro que não só homenageia o seu trabalho, mas apresenta um pouco de sua história para as crianças. Estou me dirigindo diretamente a você, porque assim é a obra, escrita no formato de uma epístola da moçoila Flora para a sua pessoa. A personagem patroa vegetação, conhece bastante a sua jornada uma vez que arquiteto e paisagista e tem várias perguntas que vão fazer leitores se encherem de curiosidade em relação ao seu legado. É simples que as ilustrações trazem os verdes das matas e diferentes tipos de folhas e caules, mas o pulo da samambaia não está aí. É que as páginas estão intercaladas por papéis transparentes, que ajudam a completar as imagens, uma vez que se elas fossem vivas e fizessem secção de uma floresta. A escolha não é aleatória, é simples, já que essas folhas são chamadas também de papel vegetal. Pura fitologia.
Tudo É Música
Mais novo representante da vaga sul-coreana que inunda as livrarias do Brasil (e do mundo), “Tudo É Música” é feito para ser lido também com os ouvidos. Com texto sonoro e ilustrações com design arrojado, a obra acompanha uma moçoila de bicicleta durante seu trajeto pela cidade. Mas, em vez iluminar o caos e a desordem típicas da metrópole, a autora Mi-Ran nos faz enxergar outra coisa e mostra uma vez que a vida urbana pode ser uma grande sinfonia. “Vruuuum, ouve-se o som dos veículos a caminho do trabalho”, diz o texto. Mas é nas ilustrações que a cidade realmente se torna melodia. A autora brinca com as escalas e insere nas paisagens diferentes instrumentos e notas musicais. De repente, a respeito de uma lar vira as teclas de um xilofone, o firmamento se torna o corpo de um contrabaixo e o vão entre dois prédios ganha o perímetro de uma flauta —numa reeducação dos ouvidos, mas também do olhar.
Nem Sabe Ortografar Brazsilia
Se os livros para tingir voltaram à voga e encabeçam as listas de mais vendidos, Nicolas Behr mostra que esse tipo de título não precisa ser uma coleção de bobagens. Um dos principais nomes da trova contemporânea brasileira, Behr é publicado por transformar Brasília em verso —e faz isso novamente em “Nem Sabe Ortografar Brazsilia”, escrito uma vez que uma coleção de verbetes, uma vez que se fosse um léxico ou uma enciclopédia. A obra disseca a capital em pequenas pílulas poéticas que vão muito além da política, apresentando pontos uma vez que a Livraria Vernáculo, as superquadras, as cidades satélites e até a orquestra Legião Urbana. Mas o mais interessante mesmo é a Brasília lado B, com verbetes sobre Ana Lídia (gaiato assassinada nos anos 1970), o Buraco do Tatu (relação que fica embaixo da rodoviária) ou o Taguá, o relógio de Taguatinga, por exemplo. Enquanto isso, Cacá Soares ilustra os verbetes com desenhos em preto e branco para que o leitor possa tingir e pintar o sete.
O Mandiocão
Primeiro Tolstói contou a história do nabo gigante, tão grande e pesado que não podia ser colhido, o que faz com que uma povaréu tentasse desprender o vegetal da terreno. Depois, Tatiana Belinky recontou essa mesma narrativa em “O Grande Rabanete”, com um ratinho para lá de simpático. Outros escritores e ilustradores também revisitaram esse história clássico, e agora é a vez de Tino Freitas e Bruna Lubambo fazerem o mesmo em “O Mandiocão”. Nesse reconto muito brasílio, toda uma família participa de uma colheita de mandioca. Só que fica faltando um único pé, que não sai de jeito nenhum de dentro da terreno. Seu Bastião tenta retirar, mas não consegue colher. Portanto ele é ajudado por Loló, que recebe depois o auxílio de Caroço e assim por diante, até juntar toda a família, num história cumulativo e ilustrado não só pelas cores terrosas do coração do Brasil, mas por uma série de comidas de dar chuva na boca.
O Tempo Lá Fora
Poucas épocas do ano escancaram tanto o descompasso entre o tempo dos adultos e o ritmo da puerícia quanto as férias escolares. É desse desajuste dos ponteiros e olhares que Clara Gavilan faz fluir seu novo livro. De um lado, a mãe está apressada e só tem olhos para os emails atrasados do trabalho, a lista de compras do supermercado e os negócios do dia a dia, uma vez que a premência de passar mais tarde no sapateiro. Já a filha olha o que de roupa importa: o firmamento, a chuva, as cigarras, a cosquinha que a torrada faz na boca, o cheiro da terreno úmida. Com ilustrações aquosas uma vez que um dia de garoa, a obra mostra que esse desencontro geracional é uma vez que uma tempestade —até pode parecer intransponível num primeiro momento, mas logo o firmamento desanuvia, surge um pedaço de sol e adultos e crianças conseguem apreciar juntos os riozinhos que vão desaguar mais tarde lá no mar.
