A esquerda que troca política por punição 16/12/2025

A esquerda que troca política por punição – 16/12/2025 – Wilson Gomes

Celebridades Cultura

Enquanto a extrema direita avança no mundo real, conquistando maiorias eleitorais e consolidando poder institucional, segmento da esquerda parece cada vez mais confinada a seu parquinho do dedo de punições morais. O contraste é desconcertante —e politicamente desastroso.

Nesta semana, no Chile, mais um Jair Bolsonaro venceu, por ampla maioria, em uma democracia latino-americana relevante. No Brasil, tudo indica que, no próximo ano, a prioridade estratégica da direita será a conquista do Senado Federalista. Trata-se de política dura, institucional, majoritária —aquela que decide o orientação dos países e que pode, com facilidade, desfazer décadas de conquistas sociais.

Enquanto isso, nas redes sociais, militantes identitários engajam-se em mais uma expedição punitiva contra um intelectual progressista. Francisco Bosco, alguém inequivocamente solidário à tarifa feminista e às lutas das mulheres, foi níveo de um linchamento do dedo violento por ter afirmado um pouco rudimentar: é o machismo que deve ser tratado uma vez que inimigo da luta das mulheres —não os homens. Houve mais gente mobilizada para atacá-lo do que pessoas presentes nas manifestações contra o feminicídio. Isso não é exclusivamente estranho. É chocante. E deveria preocupar qualquer democrata.

Não se trata de examinar esse incidente específico, para evitar amplificar ainda mais o sonido. Mas ignorá-lo seria irresponsável. Ele é sintoma de um pouco mais profundo: o isolamento tático de uma esquerda que trocou a luta por direitos por patrulhamento moral, persuasão por punição, política democrática por exibição de virtude.

A pesquisa “O Brasil Invisível”, da More in Common, ajuda a iluminar esse paradoxo com dados difíceis de ignorar. Tapume de 76% dos brasileiros rejeitam a teoria de que homens sejam superiores às mulheres. A crença na paridade entre homens e mulheres é amplamente consensual no país, atravessando praticamente todos os segmentos sociais, inclusive os conservadores. No entanto, exclusivamente murado de 38% da população concorda que o feminismo promove essa paridade.

O hiato é enorme —e se explica. Nos segmentos centrais e conservadores, o feminismo não é exclusivamente visto uma vez que ineficaz para promover a paridade, mas frequentemente associado a imputações negativas: agressividade moral, vitimização seletiva, hostilidade aos homens e prenúncio à família. À medida que se caminha do campo progressista para o conservador, cresce a concordância com a teoria de que a “ideologia feminista” representa um risco para valores sociais básicos.

Trata-se de um deslocamento decisivo: o feminismo deixa de ser percebido uma vez que movimento por direitos e passa a ser enquadrado uma vez que ator da guerra cultural, mais preocupado em punir, violar e silenciar do que em persuadir e casar. Esse enquadramento ajuda a explicar por que um valor amplamente consensual —a paridade entre homens e mulheres— não se converte em legitimidade ampla para o movimento que reivindica falar em seu nome.

É evidente que a extrema direita explora caricaturas e amplifica ressentimentos. Mas isso só funciona porque o que ela diz se ancora em experiências reais: rituais de humilhação pública, cancelamentos e linguagem acusatória. O “feminismo” —uso as aspas porque falo da percepção pública, não da flutuação real de correntes— parece menos interessado em ampliar coalizões do que em demarcar fronteiras morais. Funciona mais uma vez que comunidade de pureza do que uma vez que força democrática de transformação social. Não quer estar evidente para mudar a sociedade; quer estar evidente —ponto.

Quem tenta alertar para esse impasse, uma vez que fez Bosco, acaba excomungado. Zero reafirma mais uma identidade do que um bom ritual coletivo de punição.

Engana-se quem pensa que há cá interesse efetivo nas dinâmicas democráticas. Se houvesse, aceitar-se-ia que convencer é melhor do que humilhar, que não multiplicar inimigos é preferível a exibições de superioridade moral, que discutir produz mais efeitos do que insultar.

O que se vê, em vez disso, são movimentos de depuração emocional por meio de ritos de sacrifício da reputação —e, às vezes, dos meios de sobrevivência— dos “inimigos”, para consumo privado da tribo. Grupos de revanche encontram prazer em evacuar sobre alvos específicos todo o ressentimento aglomerado por séculos de vexame.

Cancelamento é instrumento de coesão interna, não de persuasão externa. Sinaliza virtude, impõe disciplina e produz temor —uma vez que se a democracia não fosse uma disputa permanente pela percepção e pelo base da maioria. O resultado, evidente, é previsível.


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Folha

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