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A história do Maranhão em ruínas 08/05/2026 Gustavo
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A história do Maranhão em ruínas – 08/05/2026 – Gustavo Alonso

Entre 2012 e 2014 trabalhei em São Luís uma vez que professor de história e pesquisador associado à Universidade Estadual do Maranhão. A faculdade funcionava, e funciona até hoje, num bonito sobrado histórico e, na estação que cheguei, muito aconchegante e todo reformado. Era uma das poucas construções em ótimas condições no núcleo histórico ludovicense.

Uma vez que historiador que sou, decidi morar no núcleo histórico da capital. Mas minha decisão foi insólita. Não lembro de outro professor que morasse por lá. Nem historiadores.

Pesava contra minha escolha o trajo de as ruas históricas não permitirem que carros passem em subida velocidade. A classe média brasileira não sabe mais viver em lugares que não têm garagem privativa. E a privação de comodidades básicas, uma vez que padarias, farmácias e mercados próximos, dificultava ainda mais.

Os ludovicenses conhecem o núcleo histórico por Reviver, nome do projeto de reforma executado no termo dos anos 1980 pelo logo governador Epitácio Cafeteira.

Assim uma vez que em boa segmento dos centros históricos brasileiros, de Ouro Preto (MG) a Olinda (PE), do Pelourinho soteropolitano (BA) a Parati (RJ), de São Cristóvão (SE) a Goiás Velho (GO), os sobrados de São Luís só se salvaram da sanha modernizante do século 20 porque se tornaram desinteressantes às classes médias e altas, que se mudaram para lugares mais distantes.

No caso de São Luís, os ricos passaram a morar nos bairros de São Francisco, Renascença, Pedregulho e outros bairros além da ponte José Sarney. Assim, os lindos sobrados sobreviveram, mas ficaram em frangalhos. O tombamento do Iphan em 1974 garantiu-lhe a preservação, mas não a manutenção útil do núcleo histórico.

O projeto Reviver foi concebido uma vez que um programa de revitalização dos casarões coloniais. O intuito era modernizar a infraestrutura subterrânea (fiação e esgoto) e transformar o sítio em um polo cultural e turístico. A governadora Roseana Sarney colheu os louros em 1997, quando a cidade foi competência pela Unesco a patrimônio cultural da humanidade.

Quando morei em São Luís, a última reforma de peso havia sido a do projeto Reviver. Era triste ver o bairro parecer um filme de terror quando escurecia. Dependendo do mandante, as coisas melhoravam um pouco. Por volta de 2019, quando visitei a capital durante o procuração do governador Flávio Dino, a preservação pareceu-me um pouco melhor, mas ainda assim muito longe do desejável.

Para que o núcleo histórico voltasse a ter vida real, era preciso que as classes médias passassem a habitá-lo, alguma coisa longe da verdade. Os casarões seriam melhor cuidados e mantidos por moradores ativos e vigilantes, conscientes do valor histórico do bairro.

História tudo isso pois é com dor que ouço de amigos maranhenses que o Apem (Registo Público do Estado do Maranhão) está em frangalhos. O prédio, que ocupa um enorme sobrado histórico na rua de Nazaré, 218, está interditado pelo Corpo de Bombeiros. A construção histórica está com infiltração, com risco de curto-circuito e ameaçada de desabar.

Criado em 1974, o Apem reúne um pilha do século 18 aos nossos dias oriundo do Registo da Secretaria do Governo (1728-1914) e suas sucessoras (1914-1991) e do Registo da Polícia (1842-1963). Os arquivos do Dops maranhense da estação da ditadura estão sob seu teto. O Apem tem aproximadamente 1,5 km de documentos textuais (manuscritos, datilografados e impressos) dos períodos colonial, imperial e republicano, além de mapas, vegetação, partituras musicais e discos.

Semana retrasada houve denúncias de um grande pilha documental (notas, contratos, fotos) jogados fora numa caçamba ao ar livre. Professores, alunos e pesquisadores da Uema, UFMA, IFMA e outras instituições de graduação, mestrado e doutorado estão com pesquisas na instituição suspensas há mais de um ano.

O governo estadual, atualmente capitaneado por Carlos Brandão (PSB), zero faz para proteger a rica documentação que ali se encontra. O novo secretário de Cultura prometeu remanejar o pilha para um sítio seguro, enquanto o prédio seria reformado. Mas até agora nem fez o remanejamento, nem começou a reforma.

Estamos no período de chuvas no Maranhão. Quem já morou lá sabe que é chuva torrencial a cada três horas. Sol e tempestades extremos. Há o risco real que o sobrado do Apem desabe com tudo dentro. A sociedade maranhense vê sua memória indo para o ralo da história.


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Folha

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