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A masculinidade penitente convence? 26/05/2026 Wilson Gomes
Celebridades Cultura

A masculinidade penitente convence? – 26/05/2026 – Wilson Gomes

A chamada crise da masculinidade costuma ser tratada porquê sintoma de desorientação dos homens diante de mudanças profundas na família, no trabalho, na sexualidade e nas relações com as mulheres.

O debate acerca do evento sobre masculinidade organizado por Juliano Cazarré foi interessante por expor duas ofertas concorrentes de saída dessa crise. Não se discutiu na GloboNews exclusivamente um curso, mas duas formas de expressar aos homens o que fazer com o mal-estar masculino.

Os progressistas ofereceram uma pedagogia da penitência: os homens precisam ouvir, admitir, reconhecer seus privilégios, não se proteger e permitir que sua identidade seja reconstruída segundo a fórmula e o vocabulário das vítimas de sua história. O problema, portanto, não é o que Cazarré iria ensinar, mas o roupa de oferecer aos homens uma forma de recomposição positiva de si mesmos sem que purguem suficientemente sua culpa. Cazarré quer oferecer linguagem, pertencimento e saída; os outros disseram: ainda não.

A masculinidade está sob delação porque os homens, porquê categoria social, produzem ameaço real às mulheres. Mas cá se extrapola do estatístico para o existencial e o moral: os homens seriam uma categoria perversa, não exclusivamente um conjunto que contém agressores. A crise masculina, portanto, teria uma função corretiva, e os homens não deveriam trespassar depressa demais do mal-estar. Precisam permanecer nele o bastante para que o sofrimento produza conversão autêntica. Cazarré seria mais perigoso que os redpill não porque diga coisas misóginas, mas porque oferece uma remissão simbólica moderada e venerável.

O Brasil mata mulheres, estupra meninas, abriga agressores dentro de lares, igrejas e círculos de amigos. Zero disso deve ser suavizado. O problema começa quando a denúncia passa a abraçar, porquê se fosse a mesma coisa, homens comuns, conservadores, religiosos, pais de família, gente que acredita em diferença sexual, família, fé, responsabilidades masculinas. De repente, a diferença entre masculinidade tradicional, masculinismo, misoginia, assédio, estupro e feminicídio é vista porquê exclusivamente de proporção, não de natureza.

Não é difícil perceber a fragilidade persuasiva dessa estratégia. Ninguém vence uma disputa cultural oferecendo humilhação porquê terapia. Nem convence um grupo numeroso, moralmente coeso e eleitoralmente eficiente dizendo que ele só será aceito depois de revelar pecados que não reconhece porquê seus. A frase “parem de nos matar” pode mobilizar os já convertidos, mas, dirigida indistintamente a homens que não mataram, não estupraram nem abusaram, soa menos porquê invitação à conversa e mais porquê um tapa na rosto.

Do outro lado, Cazarré oferece uma pedagogia da asseveração. Não se trata, cá, de resolver se ele tem razão no que diz sobre masculinidade, pornografia, instrução sexual, família ou progressismo. Por fim, é assumidamente um conservador clássico. Mas, no projecto da disputa simbólica, sua oferta é muito mais habitável para o público a que se dirige. Ele diz, em resumo: não há culpa em ser varão; família, fé, serviço, força, coragem e responsabilidade podem ser virtudes, não sintomas de uma patologia social. Enquanto o progressismo pede ao conservador que ajoelhe no milho, Cazarré oferece reconhecimento sem autoflagelação.

É evidente qual dessas mensagens tem mais chance de prosperar. E não exclusivamente no segmento masculino conservador, pois a delação progressista atinge um ecossistema inteiro de valores. Esposas conservadoras, mães, religiosas também percebem quando sua visão de família, sexualidade, instrução e fé é tratada porquê segmento da mesma prisão impudico que levaria ao afronta e ao feminicídio. O efeito é previsível: quem se sente patologizado procura abrigo em quem lhe devolve honra.

O resultado é uma pedagogia reversa. O progressismo imagina estar corrigindo crenças masculinas, mas está de roupa reforçando nos conservadores a crença de que não há espaço para eles no protótipo progressista de sociedade. Pretende isolar feminicidas e misóginos, mas, ao não os honrar dos conservadores comuns, empurra todos para a mesma trincheira defensiva. Quer que os homens escutem, mas começa dizendo que sua vocábulo zero vale, por estar contaminada por privilégios e pecados coletivos.

Num país moralmente polarizado, isso é mais que erro retórico. É incompetência política. Nesse quadro, o conservadorismo sequer precisa provar que tem a melhor teoria sobre masculinidade. Basta mostrar que oferece uma vivenda simbólica menos hostil para quem se recusa a viver sob suspeição permanente.


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Folha

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