‘A Odisseia’ de Nolan acerta ao investir em herói adulto – 15/07/2026 – Ilustrada
Com “A Odisseia”, a notícia principal é que, finalmente, Hollywood admitiu que já existiu no mundo alguma mitologia antes dos super-heróis da Marvel e da DC e, por uma vez, tirou o Batman de cena para investir num herói adulto.
A segunda é que os planos iniciais anunciam um filme de enorme formosura: uma praia, o mar, um soldado solitário e, enterrado na areia, um enorme cavalo. O de Troia, o fabuloso truque que definiu uma guerra que começou pelo rapto —ou nem tanto— de uma mulher, Helena, papel de Lupita Nyong’o.
Logo depois, entram os diálogos e o que uma adaptação dessas sugere de mais perigoso —a postura empolada e o melodrama barato. Mas isso logo passa, o que é muito bom.
Entramos portanto em Odisseu, ou Ulisses, papel de Matt Damon, prisioneiro durante um naufrágio pelas artes de Calipso —Charlize Theron—, que, depois de salvá-lo de um naufrágio, mantém Odisseu prisioneiro em sua ilhéu por longos anos. Ao termo dos quais tudo que deseja ardentemente é voltar para Ítaca.
Nessa fundura, diga-se, Odisseu já enfrentou perigos extraordinários e chegou à ilhéu sozinho, tendo perdido todos os seus homens. Esteve, por exemplo, na ilhéu dos monstruosos ciclopes, onde cegou Polifemo, o mais temível entre os monstros, traje que desencadeou a fúria de Poseidon, deus dos mares e pai da pessoa. Daí decorreram os imensos problemas de Odisseu durante seu retorno a Ítaca, onde era rei.
Cá é preciso entrar Penélope —Anne Hathaway— na história: a rainha que espera seu marido anos a fio, recusando as propostas de matrimónio de uma rima de pretendentes. Ela tem suas artimanhas para manter-se leal a Odisseu.
Oriente enfrentará outros episódios que fazem de “A Odisseia” a proeza das aventuras, uma vez que o encontro com a divindade e feiticeira Circe —Samantha Morton—, que enfeitiça e transforma em porcos os guerreiros de Odisseu, ou a travessia do quina das sereias.
Mas o precípuo no Odisseu de Nolan é a enorme culpa que carrega —a sombra de todos os mortos que sua ação guerreira provocou e o atormenta. Essa dor traz também a certeza de um tramontana infernal. É isso que parece envelhecê-lo precocemente ao longo do filme.
E talvez por isso, aliás, o filme tenha sido tão econômico na sequência referente ao inferno —o Hades helênico. Se Odisseu é sabedoria e sagacidade, traz a consciência de todos os horrores a que sobreviveu tenazmente e de todos os males que provocou.
O tramontana infernal do Odisseu é o que compensa o traje de Nolan produzir um herói muito mais próximo da mitologia judaico-cristã do que da grega propriamente dita. No filme, o único contato entre o Olimpo e os homens deve-se às repentinas aparições de Atena, a divindade que protege o protagonista.
Não se percebem outras intervenções. O mundo dos deuses gregos, no filme, não se comunica com o mundo dos homens; mal sabemos de onde surgem certas entidades. A história de Poseidon, por exemplo: o poderoso senhor dos mares —e de todas as suas decorrências— era zero menos do que irmão de Zeus, deus dos deuses. Ou seja, não era com pouca coisa que Odisseu lutava para sobreviver.
O precípuo é que, no mundo helênico, deuses e homens se misturavam, um pouco uma vez que acontece nas religiões afro-brasileiras —o que me ensinou o músico Dante Pignatari—, o que é dissemelhante do pensamento judaico-cristão, em que o mundo dos homens é rigorosamente separado de entidades celestes, sobre as quais reina um Deus onipotente.
Toda a história de Odisseu é a de uma luta em que se envolvem Poseidon —o inimigo—, Atena —sua protetora— e o próprio Zeus. É isso que “A Odisseia” omite e que afasta o filme de seu universo original para um pouco mais próximo, digamos, do universo Marvel ou DC.
Mas não se pode culpar Nolan por isso. Ele enfrenta as poderosas forças de Hollywood, os mestres não do universo, mas da Universal —o que, no caso, vale muito mais. Não convinha, portanto, introduzir um pouco excessivamente exterior ao que a maior segmento das pessoas acredita.
O visível é que Nolan consegue, desta vez, não complicar demais as coisas: trabalha com habilidade os momentos de proeza e até consegue fabricar alguns momentos comoventes nas sequências finais, aliás prejudicadas pela urgência de fabricar, justamente, o “gran finale” da história.
Seria muito pedantismo esperar um “A Odisseia” que chegasse ao resultado a que, presume-se, Fritz Lang chegaria caso estivesse mesmo filmando “A Odisseia” no belíssimo “O Desprezo”, de Godard —é um outro tempo, outro continente e, a rigor, outro mundo. Em todo caso, “A Odisseia” ali é suporte a essa outra poema, que é fazer um filme.
Por termo, Christopher Nolan poderia ter usado com proveito a cintilante teoria que se encontra no “Ulisses”, de Mario Camerini, de 1954 —produção milénio vezes menor escrita por Ben Hecht. Ali, Calipso —a ninfa que aprisiona o herói— e sua leal rainha, Penélope, são interpretadas pela mesma atriz: Silvana Mangano. Na verdade, duas mulheres souberam prender o herói: a rainha e a outra. Talvez fossem mesmo uma só.
Resumindo: “A Odisseia” é um filme a ver, de preferência em Imax.





