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'A Terra do Meu Pai' retrata Thomas Mann na pós guerra
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‘A Terra do Meu Pai’ retrata Thomas Mann na pós-guerra – 01/11/2026 – Ilustrada

Em 1949, Thomas Mann viaja para sua terreno natal, a Alemanha. Vem escoltado de sua filha Erika, vivida por Sandra Hüller.

Quem faz o registro não é nenhum teutónico, mas o polonês Pawel Pawlikowski. Ninguém se surpreenderá, portanto, que o filme seja em preto e branco. Se um dia eu desembarcar na Polônia, vou me espantar bastante se o país não for em preto e branco, uma vez que gostam de mostrar seus cineastas.

Cineastas poloneses custam a crer que a Segunda Guerra acabou. Voltam a ela sempre. No caso, estamos nos rescaldos —a chamada Guerra Fria. E a recepção à Mann em Frankfurt é digna da imagem que os Estados Unidos procuram projetar: leveza, viveza, modernidade. E um agente da CIA, evidente.

Naquele momento, Mann é mais feliz do que Erika. Seus olhos são mais vivos. Ele acredita que a literatura ajudará a restaurar o país naquele momento, a se reencontrar, uma vez que a Alemanha de Goethe.

Erika acompanha o pai com saudação, mas é muito mais cética a saudação dessa hipótese. Quando encontra os netos de Wagner, diz com todas as letras que a música do avô será eterna, mas que seus descendentes nazistas são desprezíveis.

Ao cruzar com o ator Gustaf Gründgens, seu ex-marido, Erika conclui a conversa com uma chapada. Gründgens virou nazista e foi o protagonista de “Mephisto”, livro de Klaus Mann. Ou seja, com o pai envolvido pelos festejos, Erika é uma espécie de consciência moral da Alemanha: está muito menos à vontade que Thomas Mann nessa festança.

No mais, ela sabe que Klaus, seu irmão, está mal. Ficará pior ainda ao saber que Klaus acaba de se matar. Ela tem de recontar o roupa ao pai.

Daí por diante percebe-se uma transformação radical em Mann. É uma vez que se, ao mesmo tempo, desacreditasse da Alemanha, das homenagens, de seus escritos, de tudo. Não por contingência, ele vai receber outra homenagem, em Weimar, na Alemanha Oriental. É difícil manifestar se a maneira uma vez que Pawlikowski a representa é trágica ou cômica. Em todo caso, pode ser uma tragédia ruim ou uma comédia sem perdão.

Ali não há mais agentes da CIA, mas a Guerra Fria prossegue animada. Para iniciar, Mann é convidado a tornar-se um ministro ou alguma coisa assim. Talvez, por ter recusado, é forçado a escutar mais de um daqueles corais que, pelos modos, infestavam o comunismo germânico. E depois, na hora de discursar, estará diante daqueles militares paramentados dos pés à cabeça.

O olhar de Mann é cada vez mais sombrio. O de Erika, nem se fale. O fracasso pessoal do redactor é brutal. Porquê se sua vida, seus escritos, não valessem zero, fossem inúteis diante do mundo que se apresenta a ele.

É de invocar a atenção a construção do filme, que suplente a Klaus Mann unicamente uma sequência, mas é a de buraco. Em seu quarto, ele conversa por telefone com Erika, fala a ela do desencanto do mundo —pergunta se ela escolherá entre Stalin e Mickey Mouse, sugere que o suicídio seria uma solução, uma vez que foi para Benjamin ou Zweig.

Klaus é o rabi oculto do filme, aquele que vê um mundo sem saída, pronto a se destruir na primeira oportunidade. A obra do pai, a seus olhos, parece vaidosa e fútil. A desfecho a que Thomas e Erika chegam, neste filme, não é tão dissemelhante.

Em outra chave, Pawlikowski insere em oferecido momento uma série de cinco ou seis planos que esgotam, ou quase, um dos significados do filme. São cinco estátuas de grandes vultos, perdidas num jardim, cobertas de limo e de folhas, uma vez que que abandonadas. E que nos forçam a perguntar: será nascente, logo, o fado de nossos grandes mestres, uma vez que Thomas Mann? O esquecimento ou a indiferença?

Deve-se reconhecer o recato, tão vasqueiro, de Pawllikowski ao tratar de um grande artista, sem permanecer no louvor da vida réplica. Ao contrário: os alemães (de cá e de lá) o elogiam à saciedade. Mas o grande vulto fica um pouco minguado na história. Não porque sua obra não fosse grandiosa. Mas porque, na visão de Pawlikowski, ela não é suficiente.

Ao que parece, zero seria suficiente para ele. O ponto de vista chave de “A Terreno do Meu Pai” é o de Klaus: niilista. No filme, em 1949, mal uma guerra terminou, outra começa. Lembra em núcleo o que acontece agora, evidente. Nesse ponto, Pawllikowski parece partilhar da opinião de Mann, o pai: o problema não é capitalismo ou socialismo, mas o ser humano.

Folha

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