Entre linguagens que resistem e se reinventam, o romance “Neca”, escrito por Amara Moira, convida o leitor a habitar o universo do bajubá —língua criada e falada por travestis e pessoas LGBTQIA+ no Brasil. Na noite desta sexta-feira (20), a obra foi lançada no palco Petrobras da Feira do Livro em mesa mediada pelo professor Renan Quinalha, na qual Moira refletiu sobre os vínculos entre linguagem, corpo e identidade.
“Sempre quis ser escritora e, quando comecei minha transição, há 11 anos, encontrei também uma razão para grafar”, diz a autora.
A linguagem, que emerge da confluência de vocábulos de origem africana e expressões populares, tem registros documentados desde os anos 1930 e ganhou força e novas camadas ao longo do século 20, mormente durante a ditadura militar, quando absorveu palavras dos terreiros de religiões afro-brasileiras. Atualmente, o bajubá incorpora também termos de idiomas europeus, uma vez que italiano, galicismo e espanhol, resultado das trocas culturais das travestis que circulam entre o Brasil e a Europa.
A autora ressalta que a coloquialidade é que faz o linguagem ser esparso. “É mal se aprende bajubá: na rua. Ninguém te dá um vocabulário.”
No romance, a autora narra a trajetória de uma travesti que reencontra um paixão macróbio enquanto revisita sua experiência uma vez que trabalhadora sexual na Europa. “Quis trazer esse caos pulsante —libido, magia, imaginação— uma vez que forma de existência”, diz Moira, que dosou o uso do bajubá para não confundir os leitores.
Apesar de seu valor simbólico, o bajubá ainda enfrenta resistências dentro das próprias comunidades travestis. “Muitas mulheres trans rejeitam o bajubá por acharem que ele pertence à marginalidade”, disse a escritora. Para Moira, a língua denuncia a brutalidade que frequentemente tenta extinguir a existência travesti.
Mais cedo, a mesa “Você Deu em Pagamento o Meu País” reuniu o poeta palestino Ghayath Almadhoun e o geógrafo e poeta maranhense Josoaldo Lima Rêgo para uma conversa sobre verso, exílio e sátira política. O encontro aconteceu no auditório Armando Nogueira e foi mediado por Paula Roble.
Almadhoun, nascido em um campo de refugiados em Damasco e hoje naturalizado sueco, tem sua obra traduzida em mais de trinta idiomas e chega pela primeira vez ao público brasílio com sua verso marcada pelo tema do exílio. Durante a conversa, o poeta explicou sua exigência de duplamente exilado.
“Sou duas vezes exilado: há o exílio que herdei dos meus pais, por ter nascido num campo de refugiados. Mas também há o exílio que escolhi: o de deixar a Síria por não concordar com o autoritarismo.” Para ele, o exílio é peça-chave de sua geração artística, pois lhe permite uma visão sátira acerca do mundo. “Não sou um poeta político, só escrevo sobre minha vida.”
Já Josoaldo Lima Rêgo, representante da novidade geração de poetas brasileiros, trouxe para a mesa a experiência do deslocamento regional de sua família, que habita entre o Nordeste e a Amazônia. Ele falou sobre seu trabalho de “tensionar a linguagem das fronteiras” e buscar dar voz ao “não dito, que é desagregado ou silenciado”, evidenciando essas lacunas na fala através de sua verso.
A questão política também atravessou a mesa com a escritora Lina Meruane, que lançou a obra “Sinais de Nós” e apresentou a novidade edição de seu livro “Tornar-se Palestina” em encontro mediado por Bianca Tavolari.
As obras partem de dois momentos distintos da história da família de Meruane para tratar do pretérito recente de sua puerícia no Chile, logo posteriormente o golpe militar, e suas origens familiares na Palestina.
A escritora destacou que “a memória nunca é verdade, portanto funciona uma vez que dispositivo de ficção”, ressaltando a dificuldade da legado familiar e sua dimensão política na construção das narrativas.
A sexta-feira ainda recebeu a mesa “Vício por Livros”, que reuniu os escritores Afonso Cruz, português, e Jorge Carrión, espanhol, no palco Petrobras. A conversa foi marcada por confissões literárias, reflexões sobre o consumo de livros e a relevância das escolhas éticas na leitura.
Carrión começou por rejeitar o apego ao objeto físico do livro, destacando que seu paixão está nas ideias e no teor. O responsável denunciou também os males que a Amazon ocasiona para a sobrevivência de inúmeras livrarias ao volta do mundo. “Comprar livros em livrarias é uma escolha política. Há muitas alternativas éticas à Amazon, algumas até mais acessíveis, uma vez que a utilização de bibliotecas públicas.”
Já Cruz trouxe à mesa uma perspectiva mais afetiva e íntima da sua relação com os livros ao compartilhar uma prática inusitada —todos os meses deposita numerário numa livraria na cidade do Porto, sem escolher os títulos que vai receber. “Tenho uma relação muito próxima com os livreiros que fui encontrando pelo caminho”, explicou. “Eles enviam-me livros que eu não faço teoria quais são.”
Cruz também falou sobre a “Associação Era Uma Voz”, iniciativa cultural fundada por ele e sediada em Moradia Branca, no concelho de Sousel, em Portugal. Nascida uma vez que livraria comunitária, a associação promove programação literária no interno do país e combate a assimetria cultural entre regiões.
