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Amor Possível, na Netflix, faz crítica à desigualdade 05/11/2026
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Amor Possível, na Netflix, faz crítica à desigualdade – 05/11/2026 – Ilustrada

No termo dos anos 1980, o diretor polonês Krzysztof Kieslowski lançou o que muitos julgam ser sua obra-prima —o “Decálogo”, grupo de uma dezena de filmes que adaptavam cada um dos dez mandamentos bíblicos, em tramas passadas na Polônia da era. Quase quatro décadas depois, um novo projeto pretende que expoentes do cinema atual partam de um noção semelhante ao que guiou Kieslowski, contando novas histórias a partir das regras para a humanidade ditadas na Bíblia.

O primeiro deles foi “Contos Paralelos” —inspirado em “não cometerás adultério”—, que o iraniano Asghar Farhadi filmou na França e que foi recebido com desprezo no último Festival de Cannes. Bastante mais bem-sucedida foi a versão do sul-coreano Lee Chang-dong, “Paixão Provável”, em papeleta a partir desta sexta na Netflix, que levou no último Festival de Veneza o Grande Prêmio do Júri.

Com base no mandamento “não cobiçarás”, o diretor aproveita para desengavetar um roteiro que acabou abandonando precocemente.

“Já havia escrito essa história sobre possibilidades de amar antes de me sugerirem participar do projeto, e logo vi que poderia conectá-la de alguma forma ao último mandamento, sobre não cobiçar o que não é nosso. Eu me perguntei: na sociedade numulário atual, quando o valor do trabalho pode ser retirado de nós com tanta facilidade, é verdadeiramente verosímil viver sem desejar o que os outros possuem?”, disse o cineasta, em Veneza.

A questão do trabalho está no cerne do longa de Lee. “Paixão Provável” mostra um par de ordinário poder aquisitivo cuja situação fica ainda pior depois que Ho-seok é mandado embora de uma grande empresa sul-coreana, que promove uma exoneração em volume. Sua mulher, Mi-ok, é quem precisa segurar as pontas financeiras, além de ter que mourejar com o agravamento do alcoolismo do marido posteriormente ser despedido.

A cineasta Ye-ji se solidariza com o drama dos demitidos e decide fazer um documentário sobre eles. Casada com o rico empresário Sang-woo, ela passa a filmar a rotina do par em crise financeira, convidando-os a passar uns dias em sua luxuosa moradia de praia. A gritante diferença de veras entre cada dupla fica mais que evidente.

“Hoje em dia, o que costumávamos invocar de partilha de classes —ou de luta de classes— perdeu quase todo o sentido. Esses termos já não dão conta da veras, porque o escuridão é imenso”, diz o diretor. “Não é somente uma questão de não estarmos na mesma atmosfera: é uma estratosfera dissemelhante. A influência que esse nível de patrimônio e riqueza exerce sobre o restante de nossas vidas é uma diferença de uma magnitude impressionante.”

A intervalo entre o poder aquisitivo dos dois casais gera a cobiça material do mais pobre perante o mais rico, mas Lee Chang-dong nunca trabalha em seus filmes somente no nível do que é mais óbvio. Há outros tipos de libido menos evidentes que são despertados com esse convívio entre cada um dos quatro protagonistas. Há ânsia sexual por segmento do varão rico diante de Mi-ok, por exemplo, mas também certa cobiça por revelações de tragédias pessoais que possam render um bom material fílmico para a cineasta Ye-ji.

“O último mandamento é dissemelhante dos outros nove, no sentido em que os outros são todos sobre atitudes humanas —não matar, não roubar etc. Mas quando se fala de cobiça se está referindo a um pouco que diz reverência ao libido humano. E é exatamente por isso que esse mandamento em específico é tão difícil de respeitar, sobretudo em uma sociedade numulário porquê a de hoje”, explica o diretor.

“Vivemos em uma era em que usamos os desejos dos outros para fabricar as nossas próprias vidas. O filme não é tanto sobre seguir ou não o mandamento em si, mas sobre o quanto essa noção está impregnada no nosso dia a dia.”

Há no filme uma cena bastante reveladora sobre o que mais conta para as pessoas no capitalismo: em uma sessão de terapia de grupo entre trabalhadores que perderam o trabalho, os maiores dramas de quem dá seu prova não têm por foco os problemas materiais que a falta de trabalho poderá apresentar. Mais impactante parece ser o quanto a percepção dos outros é capaz de marcar negativamente um recém-desempregado.

Há uma pessoa que se diz constrangida ao encontrar ex-colegas de trabalho. Outra relata que se surpreende quando, posteriormente lutar sindicalmente para manter o trabalho, é chamada de “comunista”. E há ainda a que lastima sobretudo a falta do siso de cumplicidade que percebia nos outros enquanto eram seus colegas de trabalho, o que agora desapareceu.

A escolha não foi à toa. “Cada uma dessas histórias representa os problemas mais marcantes que alguém pode enfrentar ao vivenciar esse tipo de violência social”, afirma o cineasta.

“E acredito que essa violência ligada à riqueza e à desigualdade —que não se manifesta de forma tão evidente— pode, por vezes, ser ainda mais grave do que violência física. Eu queria que o público também refletisse sobre isso e sentisse essa mesma questão. Nesse sentido, pode-se manifestar que fiz um filme político.”

Folha

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