Anatomia do Caos vê a Covid no Brasil com imagens inéditas – 26/06/2026 – Ilustrada
Quando decidiu levar uma câmera para Brasília, em abril de 2021, Dandara Ferreira, de 40 anos, não sabia exatamente qual filme estava começando a fazer. A CPI da Covid acabara de ser instalada no Senado, o Brasil ultrapassava centenas de milhares de mortes pela pandemia e ainda não havia perspicuidade sobre o tamanho da crise sanitária e política que estava em curso.
“Eu sentia que o país atravessava um pouco maior do que uma crise sanitária”, diz a cineasta. “A gente estava sendo violentado de uma maneira cruel e não podia concordar aquela banalização, nem naturalizar a crueldade. Minha arma naquele momento era uma câmera.”
O resultado dessa mergulho é “Anatomia do Caos”, documentário que estreia nos cinemas em 2 de julho, com distribuição da Descoloniza Filmes. Depois de estrear no cinema de ficção com “Meu Nome É Gal”, cinebiografia de Gal Costa protagonizada por Sophie Charlotte, Dandara volta ao giro com uma obra política que acompanha a trajetória da CPI da Covid a partir de registros feitos dentro do Senado.
O filme reúne documentos, imagens inéditas dos bastidores da percentagem, entrevistas com parlamentares, depoimentos de familiares de vítimas e de políticos, empresários e médicos que afrontaram a ciência, um conjunto que ajuda a reconstruir a meio da pandemia pelo governo de Jair Bolsonaro.
Mais do que trazer acontecimentos já conhecidos pelo público, a diretora tenta investigar uma vez que o Brasil lidou —e ainda lida— com uma tragédia coletiva que matou mais de 700 milénio pessoas.
“O filme fala sobre memória e justiça, sobre uma vez que um país lida com a responsabilidade diante da morte de centenas de cidadãos e sobre o que significa uma tragédia dessa dimensão produzir tão pouca responsabilização”, explica.
A cineasta diz que a teoria inicial não era fazer um filme sobre uma pessoa específica, mas sobre uma estrutura de poder e sobre a relação entre política e vulnerabilidade social.
“O filme não é sobre Bolsonaro, mas ele é uma figura medial porque ocupava a Presidência durante a crise sanitária. A história é sobre um país, uma estrutura de poder e sobre uma vez que a política atravessa os corpos.”
Segundo Dandara, o entrada aos bastidores da CPI foi construído aos poucos. No início, entrou no Senado com as mesmas limitações impostas a jornalistas: circulação restrita, tempo restringido dentro da sala da percentagem e dificuldade para seguir as articulações internas.
A estratégia foi se aproximar das pessoas que trabalhavam na percentagem e erigir relações de crédito. Com uma pequena câmera e fazendo sozinha as funções de direção, retrato e som, ela acabou se tornando quase invisível no envolvente.
“Eu era eu com uma câmera pequena. As pessoas não imaginavam muito o que aquela câmera fazia. Às vezes achavam que eu era assessora de qualquer parlamentar. Eu fiquei meio invisível ali dentro.”
Para Dandara, o que mais a marcou nos bastidores não foram necessariamente informações que não chegaram ao público pelas transmissões oficiais, mas a proximidade com comportamentos que revelavam, segundo ela, uma falta de empatia diante da dimensão da crise.
“O que me impressionou foi a insensibilidade, o deboche, a falta de empatia com quem estava morrendo. Era inadmissível ver pessoas fazendo piada, rindo da morte e da agonia de quem estava tentando respirar.”
O documentário também aborda as suspeitas investigadas pela CPI sobre negociações de vacinas e possíveis esquemas de depravação. “Enquanto tinha gente morrendo, tinha gente tentando lucrar. A CPI teve esse papel de vedar um projeto de depravação que estava em curso.”
Ao revisitar as imagens alguns anos depois, Dandara diz ter se surpreendido com a permanência das divisões que marcaram aquele período.
“Quando você junta todas aquelas informações no filme, fica tudo muito mais escancarado. A gente esquece porque são muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Mas você olha e pensa: ‘uma vez que é que a gente viveu tudo isso? Porquê é que a gente aceitou tudo isso?'”
Para a diretora, a pandemia deixou de ser uma emergência sanitária, mas continua sendo um traumatismo coletivo não elaborado pelo país. Ela relaciona essa dificuldade ao progressão da desinformação, à queda das coberturas vacinais e à permanência da polarização política. “Entender a pandemia também é entender os desafios que o país ainda enfrenta.”
O filme chega às salas em um momento de novidade disputa política, às vésperas das eleições de 2026, cenário que reforça a preocupação da diretora em não falar somente para um público já convicto.
“O meu objetivo é conseguir amplificar as vozes, chegar a pessoas que não estão necessariamente do mesmo lado. Eu sei que não é fácil, mas, se o filme conseguir dialogar com outras camadas da sociedade, ele terá cumprido seu papel.”
Para Dandara, a questão medial é a memória uma vez que instrumento democrático. “Olvidar uma tragédia não é superá-la. A pergunta é: uma vez que um país segue adiante sem responsabilização? O que isso revela sobre nossas instituições e sobre nossa capacidade de mourejar com o pretérito?”
A pouquidade de condenações depois as investigações da CPI aparece uma vez que uma das questões mais incômodas do documentário. A percentagem propôs o indiciamento de Jair Bolsonaro e outros 77 suspeitos de crimes na emergência sanitária, mas ninguém foi punido.
“Dá uma sensação de ‘não fizemos zero até agora? Porquê pode?’ Mas a investigação não deixa de ter valia porque a responsabilização jurídica depende de outras instituições. A história mostra que muitas vezes processos levam anos ou décadas.”
Para ela, a história da pandemia ainda não terminou. “Eu acho que a justiça é o que a gente precisa para lavar a psique e seguir em frente. As pessoas merecem essa reparação.”
O lançamento em 2 de julho também carrega um significado simbólico para a diretora baiana. A data marca a Independência da Bahia, celebração que para muitos representa a consolidação da independência brasileira.
“Não foi uma escolha aleatória. Penso que a pandemia também é uma história construída por pessoas comuns: profissionais de saúde, cientistas, jornalistas, famílias de vítimas, movimentos sociais. São brasileiros que resistiram diante de uma tragédia.”





