Anitta: Equilibrium 2 é dos seus melhores discos; crítica – 24/07/2026 – Ilustrada
É impossível dar dimensão de todo o alcance da macumba na música brasileira. Há um sem-fim de sons que une antigos registros de pontos de terreiro em goma-laca a propostas modernas dissidentes da própria poste vertebral dessas práticas religiosas —o ritmo, transformado em música eletrônica, uma vez que no BaianaSystem, ou em antítese, caso do trio Passo Torto.
Dá para racontar nos dedos, todavia, quantos artistas fazem de seu palco uma encruzilhada para a música de prece e rito afro-brasileiro. No país em que o preconceito contra religiões de matriz africana é flagrante, há uma audácia bem-vinda em sua maior estrela pop se mostrar, de traje, macumbeira.
“Equilibrium 2” acentua o caminho franco por Anitta desde alguns anos, quando ela declarou publicamente sua fé. O disco não faz proselitismo barato. Ao contrário, faz do universo desse mundo de rodas e outros planos um inextricável pop jocoso. Há momentos de pouca inspiração, letras inofensivas, mas o álbum é ponto cume na curso da cantora. Um bálsamo rubro-negro em tempos de tanta carolice ou hedonismo barato.
“Você Já Sabe”, faixa-abre, orienta a escuta. A partir dali, Anitta vai rutilar quando opera uma teogonia de sincretismo que une bailes e terreiros, funk e samba, capelinhas e templos, Marias e Padilhas, encantados de toda sorte —um círculo vasto. Num simples e esperto jogo de simetria, que mostra a dualidade a partir da voz da cantora, também fica nítido o dedo do trio Los Brasileros, que liderou a produção do projeto.
O trabalho dos produtores se destaca no supimpa juntura entre vocabulários e linguagens percussivas. Há toques intrincados no disco —em se tratando de pop—, polirritmias e samples, e um grave grandiloquente quando presente. É um quebra-cabeça acústico e do dedo que dá vazão a uma Anitta ora carinhosa, ora mordaz —quando ela relembra seus tempos de MC.
Ao lado de Kbrum, ponta de lança da cena Brasil-Jamaica dos subúrbios cariocas, a artista faz um dancehall pronto para o dança em “Sal Grosso” —o kick tem potência de sobra para sound system. A filete também conta com outros jovens nomes que saíram do underground do SoundCloud para as primeiras filas da novidade música brasileira, caso dos talentosos produtores Maffalda e Carlos do Multíplice.
“Mandinga”, com Mart’nália, é outro vitória: um hino que une samba de mestiço a harmonias de sintetizadores virtuais, atabaques digitalizados a um imprevisível e ultra-processado “donk bass” —textura muito generalidade na lado mais pop da música eletrônica brasileira.
“Sem Pressa” segue a mesma risca, mas é um ijexá em que a voz branda de Anitta se irmana ao timbre hospitaleiro de MC Tha –nome que há muito leva as religiões de matriz africana uma vez que núcleo de sua música.
Os encontros dão aos montes no disco, uma vez que na primeira segmento do projeto. Neste caso, porém, Anitta parece trazer os convidados mais para si do que o contrário. Maria Bethânia declama um poema num afoxé místico, “Ogum Me Rodeia”. “Deus Mãe”, com a rapper KING Saints, é um afrobeats singelo.
“Oke”, com o grupo indígena Brô MC’s faz um apanhado de povos originários brasileiros, da mesma forma que o clássico “Endereço dos Bailes” lembrou as festas de funk do Rio.
O reggae “Abre Caminho” é uma revisitação justa à versão brasileira, praiana e carpe-diem do gênero e seu maior sucesso, “Beija Flor”, do Natiruts —o vocalista, Alexandre Cato, chega junto na filete. O forró com Alceu Valença também brilha com alguma psicodelia e a produção de pegada lo-fi de Marcio Arantes, parceiro de longa data de Anitta. É também uma das faixas com letra menos óbvia das canções feitas para performar nas plataformas de streaming.
Já os sambas do álbum não têm tanta força. Entre bossa novidade revisitada e MPB contemporânea de playlist de streaming, as canções são adequadas e sem muita personalidade. “Ponta do Pé” é um calcanhar de Aquiles do disco. Há nela uma intenção de samba de salão, sopros proeminentes, mas o conjunto e a menção a “litrão” soam uma vez que trilha de proclamação publicitário de marca de voga praia carioca.
A marchinha “Pra Você Gostar de Mim” cativa pela letra, mas só. A versão em espanhol de “Azul” dilui as resoluções de acordes inusitados de Djavan a uma versão com pinta de música de lounge —difícil notabilizar Anitta de outras cantoras do pop em espanhol, uma vez que Karol G.
O pop internacionalista parece ter saído da lista de prioridades de Anitta. Porquê se ter ido fosse necessário voltar, a cantora retorna ao Brasil “de facto” e “de jure”. “Equilibrium 2” foi gravado no Brasil, com Anitta municiada de uma entourage criativa brasileira que sabe mourejar com símbolos e elementos culturais nacionais.
“Funk Generation”, o último grande projeto da cantora, falhou exatamente nessa anelo: gravado em boa segmento nos Estados Unidos, o álbum vacila entre cá e lá, embora tenha boas faixas de dança. Em “Equilibrium 2”, a artista se fundíbulo nas matrizes da cultura brasileira para se vincular consigo mesma —religião, enfim, vem do latim “religare”.
Faixas de destaque de ‘Equilibrium 2’
“Você Já Sabe” (com o trio Los Brasileiros)
Filete-abre que orienta a escuta, num sincretismo entre funk e samba e com um simples e esperto jogo de simetria, que mostra a dualidade a partir da voz da cantora
“Sal Grosso” (com Kbrum)
Ao lado de Kbrum, ponta de lança da cena Brasil-Jamaica dos subúrbios cariocas, a artista faz um dancehall pronto para o dança. O kick tem potência de sobra para sound system
“Não Me Cutuca” (com Alceu Valença)
Com letra pouco óbvia, brilha o forró com Alceu Valença, com alguma psicodelia e a produção de pegada lo-fi de Marcio Arantes
“Mandinga” (com Mart’nália)
Um hino que une samba de mestiço a harmonias de sintetizadores virtuais, atabaques digitalizados a um imprevisível e ultra-processado “donk bass”
“Ponta do Pé”
Cantiga frágil do disco, tem uma intenção de samba de salão, mas o conjunto e a menção a “litrão” soam uma vez que trilha de proclamação publicitário
“Abre Caminho” (com Alexandre Carlo)
Leste reggae é uma revisitação justa à versão brasileira, praiana e carpe-diem do gênero e seu maior sucesso, “Beija Flor”, do Natiruts
“Sem Pressa” (com MC Tha)
Um ijexá em que a voz branda de Anitta se irmana ao timbre hospitaleiro de MC Tha
“Deus Mãe” (com King Saints)
Um afrobeats singelo que lar muito com o restante da proposta do disco
“Ogum Me Rodeia” (com Maria Bethânia e Letícia Fialho)
A artista baiana declama um poema nesta música que é um afoxé místico
“Pra Você Gostar de Mim”
Uma marchinha que não cativa para além da letra
“Azul”
Versão em espanhol que dilui as resoluções de acordes inusitados de Djavan a uma filete com pinta de música de lounge
“Oke” (com Bro Mc’s e Katú Mirim)
Remete ao clássico “Endereço dos Bailes”, que lembrou as festas de funk do Rio, numa filete com o grupo indígena Brô MC’s, com um apanhado de povos originários brasileiros




