Annie Ernaux: Mulheres mortas por aborto merecem monumento 13/12/2025

Annie Ernaux: Mulheres mortas por aborto merecem monumento – 13/12/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

“Cada momento daquele monstro era uma surpresa para mim”, afirma Annie Ernaux.

A escritora francesa, vencedora do prêmio Nobel de Literatura de 2022, fala de um monstro furtivo que quase a levou à morte, em 1963.

Na idade, ela era uma estudante de 23 anos que ainda sonhava em redigir. Mas, porquê a primeira de uma família de trabalhadores braçais e atendentes do transacção a ir para a universidade, ela podia sentir seu porvir se desvanecendo.

“O sexo havia me insipiente e vi aquilo crescendo dentro de mim porquê a estigmatização do fracasso social”, escreveria ela posteriormente.

As linhas no seu quotidiano, enquanto ela aguardava a mênstruo, parecem uma enumeração regressiva para a catástrofe: rien (“zero”, em francesismo).

Suas opções eram induzir em si própria um monstro ou procurar um médico ou alguém que realizasse um monstro furtivo em troca de moeda. Normalmente, essas pessoas eram mulheres, conhecidas porquê “fabricantes de anjos”.

Mas era impossível conseguir informações. O monstro era ilícito na França e qualquer pessoa envolvida poderia ir parar na prisão, incluindo a própria mulher pejada.

“Era um sigilo, ninguém falava sobre aquilo”, contra Ernaux. “As meninas da idade simplesmente não sabiam porquê acontecia um monstro.”

O termo do silêncio

Ernaux se sentiu abandonada. Mas também estava determinada e, ao redigir sobre aquela idade, ela quis provar quanta força era necessária para enfrentar esta questão.

“Era realmente uma guerra de vida ou morte”, relembra ela.

Em linguagem clara e factual, Ernaux descreve os eventos em rigorosos detalhes no seu livro, “O Facto” (Ed. Fósforo, 2022).

“São os detalhes que importam”, segundo ela. “Era a agulha de costura que eu trouxe da moradia dos meus pais. E também, quando eu finalmente abortei, não sabia que haveria uma placenta para transpor.

Ernaux foi levada às pressas para o hospital, com hemorragia, do seu dormitório na universidade.

“Era a pior violência que se poderia infligir a uma mulher”, descreve ela. “Uma vez que pudemos permitir que as mulheres passassem por aquilo?”

“Não tive nenhuma vergonha ao descrever tudo. Fui motivada pela sensação de que estava fazendo um tanto historicamente importante.”

“Percebi que o mesmo silêncio que reinava sobre o monstro ilícito havia sido transferido para o monstro permitido”, prossegue Ernaux. “Logo, pensei porquê ‘tudo isso será esquecido’.”

Publicado originalmente no ano 2000, “O Facto”, agora, faz segmento do currículo escolar na França e foi apropriado para o cinema em 2021. O filme recebeu diversos prêmios.

Para Ernaux, é importante que os jovens conheçam os riscos do monstro ilícito, pois os políticos, às vezes, buscam restringir o chegada ao monstro legalizado. Ela indica eventos recentes ocorridos na Polônia e em certos Estados americanos.

“Ter o controle do seu corpo e, portanto, da reprodução é uma liberdade fundamental”, defende ela.

A França foi o primeiro país do mundo a devotar o recta ao monstro seguro na sua Constituição. Mas Ernaux pede o reconhecimento das incontáveis mulheres que morreram ao passarem por abortos ilegais.

Ninguém sabe exatamente quantas foram, já que a motivo da morte, muitas vezes, era dissimulada. Mas se estima que 300 milénio a 1 milhão de mulheres tenham pretérito por abortos ilegais na França todos os anos, até a legalização, em 1975.

“Acho que elas merecem ter um monumento, porquê o do soldado ignoto”, reivindica a escritora.

Ernaux fez segmento de uma delegação que propôs esse monumento à prefeita de Paris no início deste ano. Mas a ratificação da proposta irá depender dos resultados das eleições municipais de março do ano que vem.

Nascente tema ainda consegue zarpar as pessoas.

Espectadores são rotineiramente carregados para fora do teatro quando assistem à adaptação do livro de Ernaux para o palco, que também apresenta uma cena de monstro.

Ela conta ter presenciado reações engraçadas. Uma professora universitária disse a ela: “Nasci em 1964, poderia ter sido eu!”

“Isso mostra esse susto inimaginável do poder das mulheres”, afirma a escritora.

Na sua obra, Ernaux examina denodadamente sua própria vida.

Seus livros abordam temas chocantes vivenciados por muitas pessoas, mas que poucas ousam comentar. Uma vez que assédios sexuais, segredos familiares sombrios e perder a mãe para o mal de Alzheimer.

“Estas coisas aconteceram comigo, de forma que posso relembrá-las”, afirma ela, no final do livro “O Facto”.

Mas ela não impõe os valores modernos retroativamente. Seu objetivo é reproduzir com precisão o que aconteceu e porquê ela se sentiu na idade.

Em “Memória de Moça” (Ed. Fósforo, 2022), ela conta sua primeira experiência sexual. Ernaux trabalhava em um acampamento de verão e sofreu doesto de um líder mais velho.

Na idade, ela não entendeu o que estava acontecendo. Ela se sentia “meio porquê um camundongo em frente a uma serpente, sem saber o que fazer”.

Agora, ela reconhece que aquilo seria considerado estupro, mas conta que seu livro não inclui esta termo.

“Porque o importante para mim é descrever exatamente o que aconteceu, sem julgamento”, explica Ernaux.

Ernaux registrou estes eventos nos seus diários pessoais, que ela manteve desde que tinha 16 anos de idade. Depois que se casou, essas preciosidades foram mantidas em uma caixa no apartamento da sua mãe, junto com as cartas de suas amigas.

Mas, em 1970, a mãe de Ernaux veio morar com ela e sua família e trouxe tudo do apartamento, menos aquela caixa e o que havia dentro dela.

“Eu entendi que ela havia lido e encontrado que tudo deveria ser destruído”, conta Ernaux. “Ela deve ter ficado completamente enojada.”

Era uma perda incalculável. Ernaux não quis destruir o relacionamento com sua mãe por uma discussão sem sentido. Mas a tentativa da mãe de extinguir o pretérito fracassou.

“A verdade sobreviveu ao queimada”, escreve Ernaux em “Memória de Moça”.

Sem poder consultar seus diários, ela confiou na memória, que comprovou ser suficiente, segundo ela.

“Eu consigo passear pelo meu pretérito porquê quiser”, conta a escritora. “É porquê projetar um filme.”

Também foi mal Ernaux escreveu o inspirador “Os Anos” (Ed. Fósforo, 2021), uma história coletiva da geração do pós-guerra.

“Eu simplesmente preciso me perguntar porquê era, depois da guerra. E posso visualizar e ouvir tudo.”

Essas memórias não são unicamente dela própria, mas também das pessoas que estavam à sua volta.

Ernaux foi criada na cafeteria dos seus pais, na região francesa da Normandia. Ela ficava rodeada de clientes da manhã até a noite.

Por isso, ela aprendeu os problemas dos adultos desde cedo —o que, por sinal, era motivo de constrangimento.

“Eu não sabia ao patente se meus colegas de classe conheciam o mundo tanto quanto eu”, ela conta.

“Eu odiava saber de homens embriagados, que bebiam demais. Por isso, eu tinha vergonha de muitas coisas.”

‘Vou redigir para vingar as pessoas’

Ernaux escreve em um estilo simples e sem adornos.

Certa vez, ela contou que desenvolveu leste estilo quando começou a redigir sobre seu pai, um varão trabalhador para quem a linguagem generalidade parecia apropriada.

Aos 22 anos de idade, ela escreveu no seu quotidiano: “Vou redigir para vingar as pessoas.”

Esta sentença serve de farol até hoje. Seu objetivo é redesenhar a injustiça relacionada à classe social desde o promanação”, declarou ela, ao receber o Nobel.

Ernaux mudou sua vida rústico da classe trabalhadora para uma vida de classe média nos subúrbios. Ela se define porquê migrante interna.

A escritora mora há 50 anos em Cergy, um das cinco “cidades novas” construídas em volta de Paris, para onde se mudou com seu marido da idade e seus filhos.

Em 1975, a cidade ainda estava em construção e ela observava o desenvolvimento à sua volta.

“Somos todos iguais neste espaço —todos migrantes, de dentro da França e de fora dela”, afirma a escritora. “Não acho que teria a mesma perspectiva da sociedade francesa se morasse no meio de Paris.”

Ernaux comprou a moradia onde mora com o moeda do seu primeiro prêmio literário.

Sua paixão pela literatura permanece inabalável. E sua conexão com o público é importante para esta moderna senhora de 85 anos.

Em 1989, ao final de um romance enamorado com um diplomata soviético casado, redigir foi sua forma de se restabelecer.

E, em seguida a publicação daquele livro (“Paixão Simples”, Ed. Fósforo, 2023), ela recebeu novos motivos de consolo, desta vez dos seus leitores.

“De repente, comecei a receber muitos, muitos relatos de mulheres, e de homens, contando seus próprios casos de paixão”, relembra Annie Ernaux. “Senti que eu havia permitido que as pessoas se abrissem sobre seus segredos.”

Ter um caso de paixão avassalador gera uma certa vergonha, destaca ela, “mas, ao mesmo tempo, preciso manifestar que é a recordação mais maravilhosa de toda a minha vida.”

Esta reportagem foi criada em coprodução entre a instituição Nobel Prize Outreach e a BBC

Folha

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