O músico Bad Bunny causou uma imensa repercussão mundial ao enunciar uma mensagem óbvia. A América é um espaço geográfico único, e não um sinônimo para os EUA, uma vez que milhares de norte-americanos pensam. Num momento político quebrável, usou seu show no pausa do Superbowl para expor a arrogância e a ignorância de muitos no país do setentrião para o restante do hemisfério.
Neste sentido, o lançamento de “Américas”, de Alberto Moravia, chega num óptimo momento.
Trata-se de uma coletânea de crônicas de viagens editada em Milão, em 1994, que reúne 266 relatos das andanças do italiano de setentrião a sul deste imenso território.
Moravia nasceu em Roma, em 1907, com o nome Alberto Pincherle, em uma família de origem judaica. Ainda gaiato, sofreu de tuberculose óssea, doença que o obrigou a longos períodos de isolamento. Quando cresceu e já curado, sua vontade de saber o mundo marcou sua trajetória intelectual e sua inquietação.
Adotou o sobrenome Moravia por razão da perseguição fascista. Sua formação intelectual se deu justamente no contexto turbulento da Itália nessa idade. Antifascista, viveu sob vigilância e enfrentou dificuldades para publicar durante o regime de Benito Mussolini.
Em suas páginas, observa-se um noticiarista europeu tocado por aquele mundo em transformação. E é justamente a realce de culturas e o olhar sensível para a natureza e para as sociedades o que faz dele uma obra rica.
Curiosamente, há certas partes muito atuais, uma vez que comentários sobre as diferenças entre os EUA e o México. Porquê era muito geral para escritores de seu tempo, Cuba e a figura de Fidel Castro causam-lhe poderoso sensação, assim uma vez que todo o ostentação visual do regime.
Obviamente trata-se de um europeu retratando culturas diferentes, mas não de um modo referto de clichês ou de espanto, mas sim de tratar de interpretar sociedades marcadas por ritmos e bastidores históricos distintos.
São retratados mais marcados por um estilo jornalístico do que antropológico, em linhas gerais. Moravia, alias, se dedicaria a esse ofício também, publicado no “Il Mondo”, no “Corriere della Sera”. Jornalístico, mas aportado na teoria de oferecer contexto histórico, além de por vezes maravilhado pelos detalhes geográficos que encontra.
Em contraste com a Europa, Moravia imprime fascínio pela vitalidade social das Américas Só que também não deixa passar por cima as diferenças mais marcantes, uma vez que as desigualdades profundas, instabilidade institucional e processos incompletos de modernização.
Ai, o olhar poético de sua formação progressista é inevitável, ideias uma vez que a intervalo e o desinteresse do resto do mundo para alguns cantos do nosso hemisfério são latentes, e há uma sátira ensejo à falta de interesse da escol política em melhorar essas sociedades. Ao mesmo tempo em que se interessava antropologicamente pela formação dessas sociedades, elogiava e se maravilhava pelos avanços da modernidade.
Em nenhum momento se deixa levar por uma leitura exótica ou pelo pitoresco de certas paisagens. Tende mais a uma reparo direta, curiosidade e de olhar crítico.
Seu olhar para o pretérito não é idealizado. Por exemplo, numa passagem sobre o México, Moravia diz que é preciso lembrar que a venustidade desse país não deveria nublar a teoria de que o México pré-colombiano era teocrático e dominador com seus moradores.
Em 1968, Moravia viajou à Bolívia, no contexto da prisão do filósofo gálico Régis Debray, que participou da expedição do Che Guevara. Mas seu magia pelo país excedeu o objetivo inicial, e seu retrato de Potosí é um dos mais pujantes do livro. Já o voo, desde La Silêncio a Potosi, “entre penhascos altíssimos”, o fascina logo de rostro.
Ele aponta a Bolívia uma vez que um país de contraste, riquíssimo em recursos naturais, mas cujos habitantes parecem destinados à pobreza porque essas riquezas não retornam para eles, que trabalham nas minas. A ultra-exploração da prata de Potosí é contada de modo belo: “A vida de Potosi também foi de prata, uma vez que, por razão da cobiça pelo valioso metal, houve ali sangrentas guerras” e, uma vez que a historiografia já mostrou, milhares de mortes.
Sobre o Brasil, evita a atração do exótico. “O verdadeiro Brasil não é Olinda, pequena cidade que levou três séculos para preencher de lindos edifícios e Igrejas uma ou duas colinas, mas São Paulo, que em poucos anos e por força dos arranha-céus, saltou de meio milhão a 4 milhões de habitantes.”
