Notícias Favoritas

O seu portal favorito de notícias na Internet

As duas faces do bolsonarismo 30/06/2026 Wilson Gomes
Celebridades Cultura

As duas faces do bolsonarismo – 30/06/2026 – Wilson Gomes

Há alguns anos, segmento do debate público se preocupava com a “normalização” do bolsonarismo. A vocábulo servia para criticar coisas distintas: descrever a extrema direita sem repulsa suficiente, deixar de tratá-la uma vez que pária ou reconhecer que já integrava a política ordinária. A sátira, todavia, raramente vinha acompanhada de uma explicação sobre o que estava sendo normalizado, por quem e com quais consequências.

Mas é preciso notabilizar dois processos: a normalização, pela qual se reduzem o estigma e a repulsa a ideias, condutas e atores radicais na esfera pública, e o “mainstreaming”, a incorporação de grupos radicais à política convencional uma vez que participantes legítimos e efetivos.

No Brasil, ambos avançaram muito. O bolsonarismo não esperou que jornalistas ou intelectuais lhe concedessem um certificado de normalidade. Finalmente, é uma escolha reiterada de quase metade do eleitorado, tem bancadas, governos, prefeituras, uma grande estrutura partidária, redes religiosas e esteio empresarial e do agronegócio. Mesmo com Jair Bolsonaro recluso, doente e impedido de concorrer, nenhuma candidatura de direita parece capaz de disputar seriamente a Presidência sem ocupar sua base.

A antiga margem não foi simplesmente acolhida pelo meio: tornou-se o coração eleitoral da direita.

O vídeo em que Michelle Bolsonaro expôs seu conflito com Flávio e os irmãos mostra outro paisagem desse processo. A literatura sobre a extrema direita costuma perguntar uma vez que movimentos radicais são normalizados e incorporados à política convencional. O incidente desta semana sugere uma pergunta suplementar: o que acontece quando uma extrema direita já normalizada disputa internamente os termos de sua própria convencionalização?

Diante da associação do PL cearense com Ciro Gomes, Michelle não apresentou sua objeção unicamente uma vez que divergência estratégica. Falou em “ordem do líder”, “vocábulo de Jair”, “fidelidade”, “lealdade”, “crença” e “traição”. Recordou os ataques de Ciro a Bolsonaro, aos filhos e às mulheres da família. O problema, segundo a narrativa dela, não era unicamente escolher um candidato, mas premiar um vetusto inimigo, descartar aliados leais e violar à vontade do líder em nome da conveniência eleitoral.

Simples que se trata de disputa por poder. Michelle se ressente de que ela e o segmento conservador, religioso e identitário que organiza dentro do PL tenham sido acintosamente desconsiderados na campanha de Flávio. Ao repetir “meu marido e eu”, não reivindica unicamente proximidade com Jair, mas sugere uma unidade de vontade entre ambos. Com isso, apresenta-se uma vez que tradutor privilegiada da manadeira de poder do movimento e uma vez que encarnação do verdadeiro bolsonarismo.

Flávio tem o sobrenome, a indicação paterna e a candidatura; os irmãos, a linhagem; o PL, a máquina partidária. Já Michelle reivindica para si o aproximação à vontade verdadeira do líder e o poder de sentenciar o que ainda pode ser considerado autenticamente bolsonarista.

Michelle não está fora da política partidária nem representa simplesmente valores contra interesses. Preside o PL Mulher, implantou diretórios em todos os estados, percorre o país, forma lideranças e patrocina candidaturas. A sua retórica aceita partidos, alianças e cálculos eleitorais, mas quer subordiná-los a valores, à recompensa dos fiéis, às fronteiras morais do movimento e ao espaço de sua própria fluente.

O conflito opõe duas narrativas sobre uma vez que institucionalizar o bolsonarismo. A adaptativa, representada pelos filhos e pelo PL cearense, concentra o antagonismo no PT e transforma antigos adversários em aliados quando isso aumenta as chances de vitória. A identitária, reivindicada por Michelle, também disputa candidaturas, alianças e poder, mas exige fidelidade ao líder, memória dos agravos e preservação dos valores do movimento.

Não se trata de carisma contra organização nem de princípios contra oportunismo. Ambos usam o partido e disputam a legado eleitoral de Bolsonaro. Michelle apresenta sua exclusão da campanha de Flávio uma vez que segmento de uma luta pela identidade do movimento e, ao se declarar a voz do líder e a guardiã dos valores, defende seu lugar na distribuição

de poder. Os filhos procuram transmudar a legado paterna numa operação eleitoral mais maleável, sem romper com o antagonismo e a submissão carismática que mantêm unida a base.

A pendência desta semana não revela unicamente uma família dividida pela sucessão. Revela a visão de Michelle sobre uma vez que assimilar o bolsonarismo ao sistema partidário e negociar sua normalização.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul aquém.

Folha

LEAVE A RESPONSE

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *