Atriz explora experiência como camgirl no solo teatral Tip – 07/05/2026 – Ilustrada
Formosa, preparada e enteada de ator famoso, Milla Fernandez esperava desde os 14 anos uma oportunidade para fulgurar nos palcos e nas telas. Fez muitos testes, ouviu “nãos” de todos os tipos e recebeu algumas respostas promissoras, seguidas de decepções.
Depois concluir o curso de artes cênicas na CAL, a Vivenda de Artes de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, e com um diploma profissionalizante da Escola de Atores Wolf Maia nas mãos, ela diz ter recebido propostas para o teatro e para o audiovisual, além de entrar em contato com o trabalho do premiado diretor Rodrigo Portella —seu professor e, depois, namorado.
“Vai rolar, eu pensei”, afirma a atriz, hoje com 28 anos. Logo, veio a pandemia, tudo parou, e as dificuldades financeiras da família se agravaram. A jovem procurou diversos tipos de serviços possíveis em meio ao isolamento social e, nas buscas, encontrou uma possibilidade —a oferta de sexo virtual em plataformas especializadas.
Fernandez decidiu atuar porquê padrão de webcam, as chamadas camgirls, para satisfazer os desejos de clientes em troca de gorjetas. Teve a aprovação do namorado, do padrasto, o ator Raul Gazolla, e da mãe, Fernanda Loureiro. Da mana, conseguiu o empréstimo de um notebook, para usar à noite.
“É sim um trabalho na espaço do entretenimento adulto, mas descobri mais do que eu imaginava. Vai muito além do sexual. Comecei a fazer isso em um momento em que as pessoas careciam de companhia, de conversa, de escuta”, diz.
A experiência foi transformada no solo “Tip (Antes que me Queimem Eu Mesma me Atiro no Queima)”, em papeleta no Teatro Youtube, em São Paulo, com direção de Portella, hoje marido da atriz. Gazolla e Fernanda assistiram à estreia da filha na capital paulista, em seguida três temporadas no Rio.
No espetáculo, Fernandez alterna a narrativa teatral sobre a experiência com clientes, principalmente estrangeiros, ganhando em dólar, e os relatos das dificuldades enfrentadas na curso artística.
“Tip” —gorjeta, em inglês— é, também, uma vitrine para os múltiplos talentos da protagonista. Ela atua, canta, dança, dupla e toca saxofone em um cenário que exibe a arquitetura teatral, sem panos pretos ou caixa cênica.
Com humor ácido, provoca risadas no público, mas também mostra a verve dramática, com uma pitada de ironia, ao interpretar um trecho da personagem shakespeariana Constança, de “A Vida e a Morte do Rei João”.
Entre os poucos elementos em cena, tapetes vermelhos remetem ao sonho de participar de cerimônias de gala e premiações, mas são retorcidos e manipulados pela atriz, que chega a tropicar no secundário, assim porquê acontece na trajetória rumo ao estrelato.
Fernandez encontrou várias situações bizarras nos dois anos em que foi camgirl e conta algumas delas ao público. Um dos clientes, por exemplo, pagava para vê-la bocejar. Outro queria trovar, mas espirrava o tempo todo entre um verso e outro.
Depois um primeiro fracasso, em que fez uma live oportunidade de 12 horas e não ganhou quase zero, as apresentações virtuais começaram a dar notório, principalmente nos chats privados, rendendo uma média de R$ 10 milénio por semana. Ela ajudou a família, guardou moeda e mudou com Portela para Barcelona.
Decidida a ser uma atriz séria e respeitada, ela teve pânico de prejudicar a curso, mas queria muito ter independência financeira. Preferia que poucas pessoas soubessem o que fazia, porém, em um paradoxo, decidiu transformar a vivência em teatro. Optou por enfrentar o pânico e se jogar no queima, porquê diz o título do espetáculo.
Nas lives, Milla impunha restrições ao apresentar o “cardápio” de serviços aos clientes. “Não sou uma trabalhadora sexual, esse não é o meu lugar de conhecimento”, diz. Para recompensar, usava as ferramentas de atriz para entreter os pagadores.
“Às vezes, eu sentia que estava fazendo um stand-up de comédia. Em outras ocasiões, apresentava cenas de romance, interpretava personagens”, afirma. “Tinhas pessoas que queriam rir, outras queriam sentir que estavam ali com o paixão da vida delas, outras com uma amiga”.
“Tip” mudou a vida profissional da atriz, que pretende transformar a história em série e livro. Outrossim, ela está ensaiando para a próxima peça de Felipe Hirsch e recebeu convites para fazer cinema. Ao recordar a primeira live fracassada, apesar da iluminação, do figurino e da performance sensual, diz ver uma cena patética, o que a ensinou a se levar menos a sério.
O solo estreou na capital paulista um dia em seguida outra peça dirigida pelo marido, “Termo de Partida”, de Samuel Beckett, estrelada por Marco Nanini. Um dos diretores mais requisitados do momento, Portella tem sete espetáculos em papeleta —os dois recém-estreados em São Paulo; “O Motociclista no Orbe da Morte”, com Eduardo Moscovis; “(Um) Tentativa sobre a Facciosismo”, com o Grupo Galpão; “O Deus da Matança”, em temporada no Rio, “Tom na Rancho”, circulando pelo Brasil, e “Ficções”, com Vera Holtz.
Apesar do desconforto inicial, ele ajudou a mulher a produzir o cenário e a iluminação para a atuação porquê camgirl. Os dois tiveram longas conversas sobre a rotina de Fernandez nas madrugadas e, aos poucos, a teoria do solo ganhou forma, com ensaios na mansão da dupla.
Havia intimidade, mas também estranheza. O diretor teve que mourejar com o indumentária de ser citado porquê um dos personagens coadjuvantes da dramaturgia: um varão de teatro tido porquê genial, mas que Fernandez percebeu ser um ser humano porquê os outros, com fraquezas, a vaidade de um leonino e ainda sem um imóvel próprio, apesar dos inúmeros prêmios. “Outro dia brinquei: ‘meu personagem é ultra-secundário'”, ele diz.
Também precisou refletir sobre os limites do trabalho ao ficcionalizar uma história real, ocorrida durante um ano na mansão que os dois dividiam em Barcelona. “Não é um tema muito fácil. A gente está tratando da desconstrução de uma teoria de consórcio, de masculinidade.”
Muitas perguntas surgiram durante o processo de montagem da peça. Fernandez trabalhou porquê prostituta? Esse é o termo correto? Porquê mourejar com isso nos cafés da manhã seguintes às noites de lives?
“Milla me mostrou que é provável viver uma relação de muita parceria, de muita conversa, diálogo, em que os problemas de par ganham uma outra forma de serem olhados. É uma relação de muita crédito”, afirma o diretor.
Portella investiu moeda no solo da mulher e se emociona ao lembrar a rotina dela quando ainda não era reconhecida sequer pela classe artística. “Mesmo no período mais sequioso da história da curso dela, eu via essa mulher convencionar, fazer lição de esquina, de sax. Ela pegava um moeda cá, outro ali, e ia estudar”. A atriz construía o repertório para quando o público chegasse.





