“Aurora” se propõe à difícil tarefa de transcrever o poeta e jornalista Paulo Mendes Campos para a cena. Em vez de focar na narrativa, o diretor Rodrigo Penna aposta na atmosfera, materializando no palco a origem da crônica brasileira: aquele encontro perfeito entre a elegância literária e a simplicidade do cotidiano.
O espetáculo se organiza porquê um mosaico de vozes. Fragmentos de textos sobre o paixão que esfria, a puerícia em Belo Horizonte, a boemia carioca, o tédio doméstico são costurados com habilidade no palco. A famosa crônica “O Paixão Acaba” é desdobrada em cenas curtas, quase estáticas, que mapeiam o desaparecimento do afeto porquê quem cataloga espécies. O efeito é atmosférico.
Os três atores — Gustavo Damasceno, Kadu Garcia e Julia Konrad — operam porquê mediadores. Eles não “interpretam” Campos, nem criam ficções sólidas em torno de seus textos. Antes, transitam pelas palavras, às vezes narrando, às vezes corporificando uma imagem, às vezes observando de fora, porquê leitores em voz subida. Julia Konrad, em privado, desloca a mulher do lugar de objeto lírico para sujeito da fala, dando espessura a figuras que nos originais muitas vezes são musas ou sombras.
Visualmente, o espetáculo rejeita uma provável remontagem de estação. A cenografia e as projeções de Batman Zavareze criam um envolvente abstrato, onde cores planas — azuis profundos, vermelhos terrosos — definem zonas de sentido. As imagens projetadas remetem à estética urbana contemporânea: grafite, colagem do dedo e interferências visuais. É uma escolha inteligente: em vez de embalsamar Campos nos anos 1950, a encenação propõe que seu olhar sobre a cidade, o tempo e o libido encontre repercussão na visualidade das ruas de hoje.
A trilha sonora segue a mesma lógica. Longe do clichê da bossa novidade saudosista, os beats eletrônicos e as camadas de som criam uma paisagem auditiva atual, que dialoga com o ritmo interno da prosa. A termo é tratada com precisão de partitura: os atores a declinam, alongam, sincopam. Em certos momentos, a fala quase vira spoken word, noutros, conversa íntima. O som não acompanha, conversa.
Há um risco evidente nesse tipo de empreitada: o de a reverência ao texto gerar um teatro estático, literário demais. “Aurora” escapa disso pela fisicalidade do elenco e pela dinâmica quase músico que Penna impõe ao conjunto. Os atores se movem com um propósito coreográfico; seus corpos pontuam, contraponteiam, silenciam.
No término, o que fica é a sensação rara de ter tido chegada a um mecanismo de pensamento. “Aurora” quer nos fazer perceber porquê a escrita de Campos organiza o mundo — e porquê essa organização ainda faz sentido. É um teatro de lucidez afetiva, onde o sentimento é construído termo por termo.
Três perguntas para…
… Rodrigo Penna
O processo de roteiro envolveu muitas revisões e versões. Porquê foi esse trabalho de ressumbrar uma vida e uma obra em cena? Porquê a Adriana Falcão participou desse processo?
Foram anos estudando a obra do Paulo, e dos outros 3 cavaleiros do apocalipse. Só quando entendi que já tinha lido tudo dele publicado comecei a ver as seleções. Estreamos com a versão 43 do roteiro. E confesso que já vamos para a 44ª.
Paulo tem livros infantis, de trova, coletâneas temáticas, sobre futebol e bares, por exemplo. Foi uma linda façanha saber o varão e a obra, sem pressa. Tive o privilégio de saber Joan, a viúva do Paulo, que também hoje já se foi.
Adriana é nossa madrinha! Foi ela quem me apresentou a obra de Paulo, uns 15 anos detrás. Importante lembrar que dirigi também uma adaptação para o teatro em 2005 de crônicas de Adriana Falcão e Luciana Pessanha, outra escritora que senhor do Rio, chamava-se “Eu nunca disse que prestava”.
Eu e Adriana, além de grandes amigos, trocamos sempre belezuras que nos encantam. E Adriana me ajudou, mais que a roteirizar, a encontrar o tom, a rostro das minhas escolhas de texto. Digamos, ela me ajudou a encontrar o “meu Paulo”
A termo é força motriz do trabalho. Porquê se traduz a materialidade do texto literário para a cena, envolvendo outras linguagens artísticas, sem perder essa origem?
Nossa material prima também é nosso resultado final; a termo é dita, contada, lida, projetada, sampleada, repetida, exacerbada, contida, muda e gestual. Sem conflitos, tramas e curva dramática, nossa peça apresenta, oferece, os textos e palavras do Paulo porquê iguarias, “pequenas ternuras” compartilhadas.
O que na obra e na vida do jornalista homenageado mais ressoou com você e deu o impulso inicial para oriente projeto?
Seu olhar gulosice sobre a vida, sobre o outro, sobre as cidades, sempre tão humanamente urbano; nesse vai e vem Minas-Rio. Também carrego no sangue as montanhas de Minas e a maresia carioca.
CCSP – rua Vergueiro, 1.000, Liberdade, região medial. Qui. a sáb., 20h. Dom., 19h. Até 14/12. Duração: 80 minutos. Gratuito. Ingressos disponíveis diretamente no site do CCSP e presencialmente.
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