Balé da Cidade estreia obras sobre senso de comunidade – 19/06/2026 – Ilustrada
Um bailarino entra, depois outro, e mais outro. A marcha em câmera lentíssima logo ganha velocidade, até que os corpos ocupam todo o palco. Organizados em fileiras, voltam a desacelerar. Encaram o público o tempo todo. O que antes era quidam logo é absorvido pelo grupo. No meio da cena, uma estrutura de aço de 1,2 tonelada é empurrada, escalada e deslocada por quem está em cena. Em um determinado momento, o monumento avança em direção à plateia, uma vez que se fosse engoli-la.
“Coro Umbral”, obra da coreógrafa colombiana Andrea Peña, é uma das duas estreias que compõem a segunda temporada do Balé da Cidade, que começa neste sábado (20) no Theatro Municipal. A outra é “Até que se Abra Tudo”, da brasileira Michelle Moura. Juntas, as criações investigam diferentes formas de pensar o corpo coletivo e suas transformações.
Dividida entre Montreal e Paris, Peña desenvolveu uma linguagem que cruza dança, design industrial e arte instalativa. Em “Coro Umbral”, essa relação aparece de forma explícita na cenografia monumental e na maneira uma vez que ela interfere na movimentação dos intérpretes. Para ela, a estrutura não é unicamente um elemento cênico, mas uma força capaz de afetar os corpos e reorganizar suas relações.
O resultado é uma coreografia construída sobre a tensão entre autonomia e pertencimento. A obra acompanha 15 bailarinos em estados de acúmulo, resistência e licença, em um envolvente onde os corpos “se fundem, fraturam, sustentam e desestabilizam uns aos outros”.
Durante o experiência a que a reportagem assistiu, a peça revelou uma escrita física exigente, que combina corpos altamente técnicos e atléticos a comportamentos quase orgânicos. Embora os movimentos tenham sido coreografados, sua realização não é rigidamente marcada. Em cena, os bailarinos se comunicam para resolver quando determinadas ações serão ativadas, construindo a obra em tempo real a partir de estruturas previamente definidas. O resultado produz uma sensação de improviso e faz com que cada apresentação seja atravessada por pequenas variações.
Peña trabalha com estruturas familiares para que os intérpretes possam tomar decisões em tempo real. “Uma vez que podemos trabalhar uma vez que um ecossistema?”, perguntou a coreógrafa ao descrever o processo.
A artista identifica em sua geração valores que associa à experiência latino-americana —vulnerabilidade, coletividade e aquilo que labareda de “caos sagrado”. Ela diz buscar referências que escapem dos modelos culturais dominantes no que labareda de setentrião global. “São Paulo é caótica, Bogotá é caótica. Para mim é importante redefinir esse caos uma vez que alguma coisa sagrado”, afirmou.
Essa reflexão ganha forma na relação entre quidam e coro. Peña observa que a sociedade contemporânea privilegia o individualismo e vê na dança uma possibilidade de imaginar outros modos de convívio. Em determinado momento da obra, os bailarinos permanecem por muro de dez minutos executando ações em conjunto. “Não são robôs. São seres humanos em um congraçamento coletivo”, disse.
Se “Coro Umbral” pensa a comunidade uma vez que uma estrutura em estável negociação, “Até que se Abra Tudo” investiga outra forma de pertencimento —a relação entre corpo e terreno.
Michelle Moura iniciou o processo criativo refletindo sobre o extrativismo. Mas não unicamente aquele associado à exploração de recursos naturais. “Pensei também em um outro tipo de extrativismo, o das nossas emoções, experiências e desejos”, afirmou. A pergunta que deu origem à peça foi direta: “O que mais a gente tem para tirar da gente?”.
A coreografia nasceu a partir do gesto de cavar e do verbo terebrar, que organiza tanto a movimentação quanto as imagens da obra. Moura estabelece paralelos entre a exploração de recursos e a exploração dos próprios corpos. “O que a gente faz com a terreno, a gente faz com o nosso corpo, que também é terreno”, disse.
Na peça, duas bailarinas surgem fundidas antes de se separarem. A imagem remete tanto ao rompimento do cordão umbilical quanto a uma sensação mais ampla de desconexão. Para a coreógrafa, a vida seria marcada por tentativas sucessivas de preencher essa intervalo original.
Embora partam de universos distintos, as duas obras parecem dialogar em torno de uma questão generalidade: uma vez que imaginar formas de simultaneidade em um mundo fragmentado. Em “Coro Umbral”, a resposta surge na negociação permanente entre corpos e coletividade. Em “Até que se Abra Tudo”, na percepção de que as fronteiras entre humano e meio envolvente talvez sejam menos sólidas do que costumamos confiar.
As estreias também marcam um momento de transição para o Balé da Cidade. A temporada será a primeira sob a direção artística de Luiz Fernando Bongiovanni, ex-diretor do Balé Teatro Guaíra e idoso integrante da própria companhia paulistana.





