Banana Yoshimoto explora luto e a culinária em 'Kitchen'

Banana Yoshimoto explora luto e a culinária em ‘Kitchen’ – 02/12/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

A convívio finita com nossos entes queridos é um roupa. Portanto, o luto ao longo da vida é inevitável. Na obra da autora japonesa Banana Yoshimoto, o sofrimento e a solidão não são negados, mas ela também procura retratar a venustidade da vida através de detalhes da rotina.

Ao menos é o que Yoshimoto afirma ser seu propósito no posfácio de “Kitchen”, seu romance de estreia, agora republicado no Brasil pela editora Estação Liberdade. Originalmente lançado em 1988, virou best-seller e já foi traduzido para mais de 20 idiomas.

“Kitchen” é um romance dividido em duas partes que acompanha a história de Mikage Sakurai. Posteriormente a morte da avó, ela se dá conta de que a cozinha é o único cômodo no qual se sente confortável em mansão. Unicamente com o motor da geladeira é que consegue adormecer. Diante desse desconforto, ela aceita morar com um publicado de sua parente, Yuichi Tanabe, e sua mãe, Eriko.

Na primeira segmento, acompanhamos a adaptação de Mikage em meio à saudade da convívio com a avó, os novos rituais entre essa família inusitada que se forma e o despertar do interesse da protagonista pela gastronomia.

Pratos típicos nipônicos, uma vez que sopa de arroz com ovos e salada de pepino, lámen e katsudon, ganham destaque ao longo da trama, seja no preparo pormenorizado ou no próprio consumo, conduzindo o leitor a uma atmosfera reconfortante.

Já na segunda segmento, Mikage e Yuichi dividem um novo processo de luto e, entre encontros, nostalgia e ruídos de informação, começam a entender as nuances de seu relacionamento. “Conforme fui capaz de entender que desespero não precisa resultar em aniquilamento, consegui levar a vida”, pensa a protagonista em oferecido momento da narrativa.

Posteriormente 37 anos da primeira publicação, Yoshimoto afirma à Folha que considera seu estilo de escrita parecido, mas menos catártico que “Kitchen”. “Quando leio agora, me parece uma obra da minha juventude e dos meus dias de imaturidade”, diz.

A perda também está presente no história “Moonlight Shadow”, disposto ao final do livro —foi a tese de graduação de Yoshimoto. Nesta narrativa, a jovem Satsuki lamenta a morte do namorado em um acidente de sege e almeja uma última despedida.

Três décadas depois, Yoshimoto ainda defende a premência de falar sobre o luto na literatura. “É importante comprar a capacidade de imaginar a dor dos outros, além de tolerar a sua própria. Se perdermos isso, creio que perderemos a maior virtude da humanidade”, diz.

Os enredos flertam com o universo onírico. Em “Kitchen”, por exemplo, os personagens se encontram em um mesmo sonho e, com naturalidade, falam disso ao despertar. “Não é uma vez que se a veras se limitasse àquilo que está diante dos nossos olhos. Vivemos em meio ao mundo dentro de nossas cabeças, ao poder do subconsciente”, diz Yoshimoto.

“‘Kitchen’ é sobre uma personagem que precisa mourejar com sua vida real, logo usei um estilo mais pragmático, enquanto em ‘Moonlight Shadow’ temos um estilo abstrato que retrata a mente de uma pessoa distraída em uma meia-realidade em seguida a morte de um ente querido. Porém, uma vez que eu era jovem, há partes em que essa escrita não funciona tão muito.”

Outro vista desta edição de “Kitchen” é que os tradutores Lica Hashimoto, Lui Navarro e Fabio Saldanha citam, entre os desafios deste trabalho, a falta da marcação de gênero na língua japonesa.

Dessa forma, ao descrever a personagem Eriko, uma mulher transgênero, os tradutores escolheram termos neutros antes da transição e femininos para o resto da trama. Substantivos e pronomes masculinos só foram atribuídos a ela quando escolhidos de forma explícita pela autora.

Sobre a vaga de livros de “literatura de trato”, cujos enredos são voltados à procura pela plenitude e expediente solução de conflitos, Yoshimoto diz não considerar sua obra dentro desse movimento.

Antes, ela já afirmou que acredita que as barreiras entre a literatura tida uma vez que séria e a de entretenimento estão mais difusas. A questão é que ela ressalta a dificuldade de pensar em um processo de trato.

“Envolve dor e passa por momentos difíceis até se reestabelecer”, diz. “Não vejo muito sentido em uma literatura unicamente reconfortante e gentil, mas acho positivo se houver alguma profundidade que acompanhe isso.”

Folha

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