Barbárie anda ganhando do socialismo, diz China Mièville 24/01/2026

Barbárie anda ganhando do socialismo, diz China Mièville – 24/01/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

O universo ficcional do noticiarista britânico China Mièville, 53, responsável de “A Cicatriz”, é um pesadelo pseudovitoriano em que estranhas máquinas a vapor e formas brutais de imperialismo convivem com um bestiário de homens-peixes, ciborgues criados com magia, vampiros e mortos-vivos.

Quando ouve uma pergunta sobre o mundo do século 21 permanecer cada vez mais parecido com esse cenário, o responsável diz reconhecer as analogias, mas admite que é difícil encará-las com bom humor.

“Certamente é um mundo que está ficando mais distópico. Uma vez que disse o meu querido camarada Richard Seymour [também escritor e militante de esquerda], nunca houve um momento melhor do que nascente para ser um fascista durante as nossas vidas, e isso é muito terrível. Para reportar outra frase famosa, se a escolha é entre socialismo e barbárie, a barbárie anda um mica vibrante ultimamente.”

Nem a barbárie nem as tentativas de resistir a ela faltam em “A Cicatriz”, premiado livro de Mièville originalmente publicado em 2003 e que acaba de chegar ao Brasil.

Ambientado no mundo de Bas-Lag, o mesmo do romance “Estação Perdido”, o livro é uma história de espionagem, pirataria e sofreguidão mágico-tecnológica. Quem a narra é a linguista Bellis Coldwine, uma dissidente política que tenta evadir de Novidade Crobuzon, uma potência tão cosmopolita e impiedosa quanto a Londres do século 19.

Bellis patroa e odeia em igual medida sua cidade natal e, buscando evadir do autoritarismo de Novidade Crobuzon por meio da fuga para uma colônia distante, acaba caindo nas garras de Armada —uma metrópole flutuante continuamente ampliada e refeita por refugiados de todas as nações e espécies inteligentes do planeta.

À primeira vista, Armada não passa de uma país oceânica de piratas, mas as capacidades linguísticas de Bellis logo passam a ser usadas porquê uma das peças de um projecto muito mais ávido da escol da cidade. Sem estragar demais as surpresas da trama, pode-se manifestar que o objetivo é domar forças cósmicas do fundo do mar para que Armada se torne invencível.

As reviravoltas e os confrontos épicos do enredo são narrados com um estilo que extremo o barroco. E barroco também é o escopo da imaginação de Mièville, cuja construção de mundo deixa de lado a tradição mais estabelecida das narrativas de fantasia e cria um elenco de personagens e criaturas de variedade estonteante, de mulheres-besouro a um golfinho inteligente.

“De início, quando eu comecei a tentar fabricar esse mundo, havia claramente um libido de não plagiar simplesmente as tradicionais criaturas fantásticas tolkienescas”, diz ele. Zero de elfos e anões, logo? “Pois é. Olha, eu não sou a polícia. Se você gosta de elfos e anões, manda ver, mas eu sempre preferi um pouco mais estranho, grotesco e incomum.”

Mièville explica que, enquanto a convenção do gênero muitas vezes dita que um responsável deveria debutar esboçando os pressupostos básicos de seu universo, ele decidiu seguir o caminho inverso, inspirado em secção pelo surrealismo.

“A abordagem foi ‘vamos debutar com algumas imagens estranhas e bizarras, e a reinação é ver porquê é verosímil justificá-las de forma retroativa. É um jogo de causalidade reversa que eu adoro”, diz.

Outro ponto importante foi usar alusões sobre a natureza do universo inventado, sem desabar na tentação de explicar demais. “É porquê no mundo real: quando você conversa com alguém sobre os Tudors ou outros elementos da história britânica, normalmente você não vai evacuar uma explicação gigantesca sobre quem eles eram.”

Ao longo da última dezena, bilionários da extensão de tecnologia porquê Elon Musk e seus aliados na extrema direita global têm transformado cada vez mais as imagens clássicas da fantasia e da ficção científica em arma política. Mièville, porém, diz enxergar isso porquê um sintoma da transformação dessas obras numa forma genérica de cultura pop.

“As pessoas mais jovens de esquerda usam toda hora referências ao [jogo de RPG] Dungeons and Dragons, a [escritores como] Ursula K. Le Guin e Gene Wolfe, e assim por diante. Em secção, o que acontece é que a fantasia se tornou uma espécie de vernáculo cultural transformado em mercadoria”, pondera.

“Por outro lado, existe um tipo de tradição fascista que gosta de ler Tolkien de certa maneira —ainda que, por mais que eu critique muito Tolkien, ele próprio queria intervalo desse tipo de coisa. O que vejo na direita agora é uma associação mais possante com um lado niilista, sádico e grotesco do fantástico”, afirma Mièville, citando a obra do americano H.P. Lovecraft porquê exemplo dessa tendência.

Por outro lado, embora reconheça a valia de tradições utópicas na fantasia e na ficção científica para tentar imaginar saídas políticas e éticas, Mièville também adverte que não é uma boa teoria colocar a arte num pedestal.

“Isso tem a ver com fraqueza em termos políticos. Se fôssemos mais fortes politicamente, ninguém ia permanecer se descabelando tanto por desculpa da mensagem política de uma droga de filme da Marvel”, brinca.

“E também existe o risco de um visível tipo de excepcionalismo artístico, porquê se os artistas e escritores encarnassem, de alguma forma, a consciência de uma sociedade. Isso envolve uma espécie de elitismo, porquê se pessoas comuns não fossem capazes disso —o que é claramente inverídico, além de ser arrogante.”

Folha

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