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Belchior, 80, ganha filmes, livros e série sobre sua vida
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Belchior, 80, ganha filmes, livros e série sobre sua vida – 25/10/2026 – Ilustrada

No Brasil, a morte costuma tirar muitos artistas de circulação. Alguns são esquecidos pelo público muito antes disso. Com Belchior, aconteceu quase o contrário. O cantor e compositor cearense, morto em 2017, aos 70 anos, atravessa um período de renovado interesse por sua obra e sua vida, marcado por discos, espetáculos, livros e produções audiovisuais.

Nesta segunda-feira, quando completaria 80 anos, Belchior será homenageado com a exibição de um novo documentário na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o lançamento de dois livros, um deles no Rio de Janeiro.

A movimentação se soma a uma série de televisão lançada em agosto e a um longa-metragem que chegará aos cinemas em dezembro. Há ainda outro documentário em preparação, devotado ao período em que o músico se afastou da vida pública.

O mais inesperado desses lançamentos é “Alucinação”, documentário dirigido por Renato Terreno, Marcos Caetano e Leo Caetano, que terá sessão às 18h no CineSesc, na capital paulista. O filme, que passou pelo Festival do Rio, toma uma vez que ponto de partida o disco homônimo lançado em 1976, que também completa 50 anos.

É uma obra que dispensa a estrutura convencional das biografias musicais. Em vez de reconstituir a puerícia, o início da curso e a glorificação de Belchior, os diretores decidiram tocar, na íntegra e na ordem original, as dez faixas do álbum, acompanhadas por imagens de registro do Brasil dos anos 1970.

O resultado é uma espécie de retrato de quadra, em que as canções dialogam com cenas de pobreza, transmigração, desigualdade social, manifestações culturais e transformações de comportamento durante a ditadura militar. O disco funciona uma vez que roteiro e, em certa medida, uma vez que narrador.

“Eu comecei a ouvir esse disco obsessivamente e fui percebendo que o roteiro já estava pronto dentro desse disco”, afirma Renato Terreno, também diretor de “Uma Noite em 67”. Para ele, “Alucinação” registra o confronto entre uma juventude que buscava transformar o país e as forças conservadoras que resistiam às mudanças. Esse embate aparece tanto nas letras quanto na sequência das músicas.

Em “Somente um Rapaz Latino-Americano”, Belchior se apresenta. “Velha Roupa Colorida” anuncia a premência de mudança. “Uma vez que Nossos Pais” constata a roteiro de secção das utopias juvenis. “Sujeito de Sorte” recupera o impulso de resistência.

A montagem combina imagens de programas uma vez que “Orbe Repórter” e “MPB Próprio”, precursor do “Experiência”, da TV Cultura, com trechos de filmes brasileiros e registros domésticos em super-8.

Terreno conta que a pesquisa consumiu seis anos e envolveu centenas de filmes e documentários. Entre as obras aproveitadas estão “Macunaíma” e “Tudo Muito”, de Arnaldo Jabor. O interesse dos realizadores estava menos nas grandes personalidades do período do que nas pessoas comuns, que aparecem enfrentando o aumento do dispêndio de vida, a concentração de renda e a precariedade das grandes cidades.

Marcos e Leo Caetano, que viveram os anos 1970, contribuíram com lembranças pessoais para a seleção do material. “A gente queria imagens verdadeiras, de gente de verdade, o que era o Brasil”, afirma Marcos Caetano. “A gente sempre viu esse filme também uma vez que uma maneira de mostrar o que era o Brasil”, diz seu irmão.

Os diretores rejeitam, porém, a teoria de que o filme retrate simplesmente uma geração derrotada. Para eles, a juventude daquele período também ajudou a edificar o caminho que levaria à anistia, às Diretas Já e ao termo da ditadura.

A sessão no CineSesc será acompanhada pelo lançamento de outro “Alucinação”, desta vez um livro que Terreno escreveu com o músico e pesquisador Rodrigo Salso, publicado pela Cobogó na coleção “O Livro do Disco”. Terreno participará de uma sessão de autógrafos no CineSesc antes e depois da exibição.

Enquanto o filme procura compreender o Brasil por meio das canções, o livro se aprofunda na construção músico e literária do álbum, examinando arranjos, referências e citações presentes nas letras. Entre elas estão os diálogos com os Beatles e com o jornalista Edgar Allan Poe, em “Velha Roupa Colorida”.

No mesmo dia, mas no Rio de Janeiro, os jornalistas Chris Fuscaldo e Marcelo Bortoloti lançam a segunda edição de “Viver é Melhor que Sonhar — Os Últimos Caminhos de Belchior”, publicado originalmente em 2021.

O livro acompanha o período mais misterioso da trajetória do compositor, quando ele abandonou progressivamente os palcos e passou a circundar pelo Uruguai e pelo sul do Brasil, hospedando-se em casas de admiradores e conhecidos, quase sempre escoltado de Edna Prometheu, sua companheira.

Para reconstruir essa história, os autores percorreram mais de 10 milénio quilômetros e entrevistaram mais de 150 pessoas. “O livro é, além da história dos últimos dez anos de Belchior, também um pouco a história dessa procura que nós dois fizemos por essa resposta, por essa história”, diz Fuscaldo.

Ela conta que eles decidiram preservar integralmente o texto original, que registra a própria investigação dos jornalistas. A principal novidade é um posfácio sobre os acontecimentos posteriores à primeira edição.

Entre eles está uma informação sobre a companheira, do qual paradeiro se tornou incógnito depois da morte do cantor. Segundo Fuscaldo, ela teria sido reconhecida por integrantes de um conjunto de Carnaval de São Paulo em 2025 e voltado a nascer no Carnaval deste ano, quando teria conversado com músicos do grupo. O relato está no posfácio.

A edição, uma parceria entre Pequena FM Books e Sonora Editora, também ganhou uma ouvido escrita por Ana Cañas, cantora que ajudou a renovar o interesse pela obra de Belchior.

Depois de lançar “Ana Cañas Canta Belchior”, em 2021, ela percorreu o país com um espetáculo devotado ao compositor. Segundo Fuscaldo, foram 180 apresentações.

Outro responsável por aproximar Belchior de uma novidade geração foi Emicida, que utilizou um trecho da gravação original de “Sujeito de Sorte” em “AmarElo”, lançada em 2019 com Majur e Pabllo Vittar. O verso “ano pretérito eu morri, mas esse ano eu não morro” ganhou novidade circulação, muito além do público que conhecia o disco de 1976.

A redescoberta do músico também chegou à ficção televisiva. Em agosto, o Meio Brasil estreou “Alucinação”, minissérie de quatro episódios dirigida por Eduardo Hospedagem e disponível no Globoplay.

Apesar do título idêntico, a produção não tem relação com o documentário de Renato Terreno. É uma dramatização da juventude de Belchior, inspirada principalmente na biografia “Belchior — Somente um Rapaz Latino-Americano”, do jornalista Jotabê Medeiros, publicada pela Todavia.

Caian Zattar interpreta o cantor jovem. A série acompanha a transformação de Antônio Carlos, o menino de Sobral que chegou a seguir a vida religiosa, no compositor que se tornaria divulgado nacionalmente.

“A série termina quando ele vai lançar o ‘Alucinação’. Quando ele efetivamente deixa de ser o menino de Sobral e vira o Belchior que a gente conhece”, conta Hospedagem.

O diretor, que também realizou “Nosso Sonho”, cinebiografia de Claudinho e Buchecha, conta que seu interesse por Belchior começou muito antes da produção da série.

Em 2013, ele leu uma reportagem de Marcelo Bortoloti intitulada “A Divina Tragédia de Belchior”, sobre os anos de solidão do músico. A história o impressionou tanto que começou a pensar numa adaptação para o cinema.

Mais tarde, encontrou a biografia de Jotabê Medeiros e passou a desenvolver um projeto sobre o cantor. Quando soube que Fuscaldo e Bortoloti preparavam um livro especificamente sobre os últimos anos de Belchior, procurou os dois jornalistas.

Os autores venderam os direitos de adaptação de “Viver é Melhor que Sonhar” e colaboraram com a pesquisa, indicando personagens e compartilhando informações. Segundo Fuscaldo, Hospedagem entrevistou mais de 70 pessoas que haviam sido ouvidas para o livro.

Desse processo nasceu um segundo trabalho de ficção, também chamado “Viver é Melhor que Sonhar”, que terá estreia em 13 de novembro, no fechamento do Cine Ceará, em Fortaleza. A chegada ao rotação mercantil está marcada para 3 de dezembro.

O longa se concentra nos últimos dez anos da vida do compositor, interpretado por Luiz Carlos Vasconcelos. Isabela Garcia vive Edna, a companheira do período de solidão.

Os dois atores já apareciam em breves passagens da minissérie, mas assumem o protagonismo no filme, que teve novas cenas rodadas neste ano no Uruguai e no Brasil.

“O filme é um road movie pela América Latina que foca objetivamente nesse processo de autoexílio do Belchior”, afirma Hospedagem.

Ele diz que a produção chegará ao último dia de vida do músico e apresentará descobertas feitas durante a pesquisa. Para o diretor, a trajetória de Belchior não pode ser reduzida à história de um artista que simplesmente desapareceu.

“Eu ter ido naqueles lugares, naquelas casas, conversado com aquelas pessoas e eles me contando o que ele efetivamente viveu é muito dissemelhante do que foi narrado”, diz.

A investigação ainda dará origem a um terceiro projeto, desta vez documental. Hospedagem afirma ter gravado 78 depoimentos no Ceará, no Uruguai e no Rio Grande do Sul, reunindo pessoas que conheceram Belchior desde a juventude até seus últimos anos.

O material, ainda não montado, deverá confrontar a maneira uma vez que o desaparecimento foi apresentado pela prensa com os relatos de quem conviveu com o músico naquele período.

Hospedagem labareda os três trabalhos de uma trilogia: a formação do artista na série, seus últimos anos no longa e a investigação sobre a maneira uma vez que essa história foi contada no documentário.

Depois de mais de uma dezena envolvido com o personagem, o diretor chegou a uma tradução pessoal sobre a decisão de Belchior de despovoar a curso e a vida que levava.

“Ele não só cantou sobre isso a vida inteira. No final da vida ele fez o que ele cantou.”

Folha

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