“Todo mundo tem na sola do pé um pouco de barro.” Foi com essas palavras que Benedito Ruy Barbosa, morto nesta terça-feira (7), aos 95 anos, explicou o sucesso de “O Rei do Manada”, romance que coroou sua curso ao descortinar o chamado Brasil profundo para 60 milhões de brasileiros.
Era 1996. Àquela fundura, somente 22% da população ainda vivia no campo. Mas o responsável sabia que era ali que estavam alguns dos conflitos mais profundos e latentes da sociedade brasileira.
“O Rei do Manada” girava em torno da rivalidade entre duas famílias de imigrantes italianos, os Mezenga e os Berdinazzi, separadas por uma disputa de terras e por um romance proibido entre seus descendentes.
Por trás da trama com ares de “Romeu e Julieta”, porém, havia debates espinhosos sobre imigração, concentração fundiária, coronelismo e, principalmente, reforma agrária.
Um dos autores seminais da teledramaturgia brasileira, ao lado de Janete Clair, Dias Gomes e Lauro César Muniz, Benedito não foi o primeiro a ambientar histórias no campo.
Mas foi pioneiro ao transformá-lo em um espaço para discutir a formação e as desigualdades do país, rompendo com a visão idealizada do interno que predominava na teledramaturgia, dizem especialistas ouvidos pela reportagem.
Essa mudança no retrato do campo acompanha o que também aconteceu na literatura, diz Mauro Alencar, doutor em teledramaturgia pela USP.
Ele explica que Benedito rompeu com a visão romântica do meio rústico, particularidade da primeira tempo do romantismo brasiliano, para incorporar críticas sociais e um realismo mais próximo do romance regionalista da geração de 1930.
Alencar ressalta que “O Rei do Manada” não foi a primeira invasão de Benedito nos conflitos do campo.
Em “Meu Pedacinho de Pavimento”, sua romance de estreia na Orbe, exibida em 1971, o tema já aparecia, mas filtrado pelo tom de fábula, com o coronel Epaminondas controlando a pequena Vila de Santa Fé, inspirada no interno paulista, onde o responsável nasceu e cresceu.
Naquele momento, porém, o Brasil vivia os chamados anos de chumbo da ditadura militar, sob o comando do general Emílio Garrastazu Médici, e o responsável não tinha liberdade para redigir o que quisesse.
O folhetim, aliás, foi meta da repreensão solene, que vetou até cenas banais à primeira vista, uma vez que uma em que um personagem cantava o Hino Pátrio em uma venda à margem da estrada, próximo a uma escola.
O argumento dos censores era que aquele não era um envolvente tempestivo para a realização do hino, lembrou o responsável em testemunho ao Memória Orbe, portal da emissora que reúne informações sobre os bastidores de suas obras.
Increpação à segmento, também faria pouco sentido uma abordagem mais frontal desses conflitos, já que “Meu Pedacinho de Pavimento” inaugurou a tira das seis na Orbe, criada para exibir histórias mais leves e de apelo familiar.
A romance, aliás, ganhou um remake em 2014, escrito pelo próprio Benedito em tom de narrativa de fadas.
Na estação, o responsável disse ter conseguido “lavar a psique”. “Pude principiar a falar de política, de saúde, de ensino. Foi a oportunidade de eu manifestar as coisas que a repreensão não deixava”, afirmou ao Memória Orbe.
Quando escreveu “O Rei do Manada”, de toda forma, a ditadura já havia terminado havia 11 anos, e a repreensão, sido extinta. Aliás, Benedito já ocupava a extinta tira das oito —hoje exibida às nove—, que permitia debates mais profundos e delicados, explica Alencar.
“Foi quando Benedito pôde trazer à tona, de forma integral, sua visão sobre o mundo rústico. Ele fez, de maneira muito precisa, um retrato social em que as emoções estavam a serviço do debate sobre a terreno. A preocupação dele era social, educativa. Suas novelas foram grandes tratados sociológicos”, analisa.
O melodrama, por outro lado, deu um verniz mais palatável a esse debate. Se poucos espectadores ligariam a TV para presenciar a discussões sobre temas complexos uma vez que a reforma agrária, milhões acompanharam, noite em seguida noite, histórias em que esses assuntos surgiam entrelaçados a elementos uma vez que o romance proibido de José Mezenga e Giovana Berdinazzi, o Romeu e a Julieta do interno paulista em “O Rei do Manada”.
Essa é a avaliação da jornalista Cristina Padiglione, especializada na cobertura de televisão desde os anos 1990. Ela, assim uma vez que Mauro Alencar, participou da bancada do Roda Viva em que Benedito discutiu O Rei do Manada ao termo da exibição da romance.
“Benedito discutiu temas muito caros, mas que nunca tivemos muita disposição para discutir. Não houve documentário, filme ou série que tenha sido mais feliz do que “O Rei do Manada” ao falar sobre subdivisão de terras e reforma agrária, porque ele fez isso de uma maneira não panfletária. Quando esse debate é posto uma vez que entretenimento, existe muito mais disposição do público”, ela analisa.
A mesma teoria guiou outras de suas obras, uma vez que “Cabocla”, que Benedito adaptou do romance de Ribeiro Couto em 1979. Por trás do romance entre Luís Jerônimo, um jovem jurista rico, e Zuca, uma jovem cabocla simples, desenrolava-se a disputa pelo poder na fictícia Vila da Mata entre os coronéis Boanerges e Justino.
Revolução estética
Indiretamente, Benedito Ruy Barbosa também foi responsável por uma mudança profunda na forma uma vez que as novelas eram filmadas.
A premência de deixar os estúdios para gravar no campo, um tanto que pode ser visto com nitidez em obras de sua autoria uma vez que “Renascer”, transformou a gramática visual da teledramaturgia.
Até portanto, os folhetins adotavam uma encenação mais estática, próxima do teatro.
Sob diretores uma vez que Luiz Fernando Roble, responsável por “Renascer” e “O Rei do Manada”, elas passaram a incorporar uma linguagem mais próxima do cinema.
A mudança se refletiu em uma retrato de planos mais abertos e movimentos de câmera mais fluidos, que acrescentaram novas camadas à atuação dos atores ao substituir o tradicional pingue-pongue de closes durante os diálogos.
Em vez de enquadrar o elenco quase sempre da cintura para cima, a câmera passou a escoltar seus movimentos.
A mudança veio acompanhada da profundidade que os cenários ganharam, ao passarem a ser construídos com teto e explorados em toda a sua dimensão, e de uma iluminação mais sofisticada, que abandonou a claridade uniforme típica das novelas para privilegiar a penumbra, a luz filtrada por portas e janelas e a névoa.
Décadas depois, quando suas histórias voltaram à televisão em remakes recentes uma vez que os de “Pantanal” e “Renascer”, escritos por seu neto, Bruno Luperi, essa estética voltou a invadir o público.
Para os especialistas ouvidos pela reportagem, o apelo continua o mesmo: em meio à exaustão da vida urbana, essas novelas oferecem um refúgio visual e emocional sem penetrar mão de discutir questões centrais do país.





