De um lado, belos azulejos que, rasgados dramaticamente uma vez que se fossem mesocarpo, exibem vísceras humanas. Do outro, fotografias do período colonial, entrelaçadas uma vez que uma teia, e criaturas metade mulher e metade inseto. Essas são algumas das obras mais emblemáticas das artistas Adriana Varejão e Rosana Paulino, que vão ocupar o pavilhão brasílio na 61ª Bienal de Veneza, a mais importante mostra de arte contemporânea do mundo, a partir do dia 9 de maio.
Elas apresentam no Lido italiano “Comigo Ninguém Pode”, exposição curada por Diane Lima, depois de se firmarem uma vez que duas das principais artistas plásticas do país. Condecorada com a Ordem do Préstimo Cultural, maior honraria pública da cultura, Varejão tem obras nos acervos de instituições uma vez que MoMA e Guggenheim, em Novidade York. Já Paulino se tornou, no ano pretérito, a primeira mulher negra a ter uma mostra no prestigiado Malba, na Argentina, lar do “Abaporu”, de Tarsila do Amaral. Suas obras integram também as coleções de instituições uma vez que o Tate Modern, de Londres, e Centre Pompidou, em Paris.
Em Veneza, obras já conceituadas das duas se juntam a trabalhos novos e inéditos para explorar uma vez que a cultura brasileira, por meio da fé e de crenças fantásticas, processa traumas coloniais. Não por casualidade, a vegetal Comigo-Ninguém-Pode, que dá nome à mostra, tem toxinas que servem uma vez que resguardo de predadores e pragas —no imaginário popular, ela é conhecida por distanciar energias negativas.
Esta será a primeira ocupação do pavilhão brasílio depois a reforma de seu prédio modernista, datado de 1964. Agora, novas aberturas laterais de vidro, presentes no projeto original, possibilitarão a conexão entre o espaço fechado e o jardim —que abrigará duas grandes esculturas inéditas de Paulino e Varejão, feitas em bronze e cerâmica, respectivamente.
A viga que atravessa o telhado do pavilhão, conectando suas duas salas, será preenchida com 12 novas pinturas de anjos de Varejão. “Existe um pouco de religioso nisso, de olhar para cima e ver essas imagens espantadas, que não têm o caráter angelical que estamos acostumados a ver nas Igrejas, mas são mais dramáticos”, diz a artista.
Apesar das práticas distintas, ela e Paulino têm, em geral, a persistente revisão da história em seus trabalhos. Os azulejos portugueses usados por Varejão são uma vez que uma frente que tenta esconder as violências da colonização, reveladas pela artista ao resgá-los ou rachá-los. Na Bienal, os azulejos vão também exibir, dentro de si, ouro, madeira, terreno e vegetação, uma vez que uma espécie de mudança da dor.
No mesmo espaço estarão fotografias da era colonial, organizadas por Paulino uma vez que uma teia para refletir sobre a identidade forjada de pessoas negras. Ela também apresentará pinturas em que corpos de mulheres se misturam a insetos ou vegetação.
Usar símbolos da natureza, ela diz, é uma forma de simbolizar a psicologia compartilhada de mulheres negras, fruto de histórias de vida semelhantes. Paulino lembra, por exemplo, de observar a mãe costurando a noite toda para bancar os estudos dos filhos. “Eu vi a minha mãe uma vez que uma grande aranha, tirando de dentro de si esse movimento de transformação”, lembra.
Em “Ninfa Tecendo o Casulo”, por exemplo, uma mulher com vários seios aparece curvada uma vez que uma lagarta, e sua cabeça encosta gentilmente na própria rabo. Ao seu volta, centenas de fios, produzidos por ela mesma, a envolvem. A mulher negra é pensada uma vez que tecelã da memória, e tira do próprio corpo o que é necessário para sustentar sua perenidade.
Mais do que apresentar as ruínas da colonização, “Comigo Ninguém Pode” tenta reconstruir a memória por meio de símbolos que remetem ao fantástico. “Essa é uma estratégia, de qualquer jeito, muito brasileira de pensar esses processos de transformação, de mudança. Confiar em um pouco que transcenda o visível e a verdade concreta”, diz Lima, a curadora.
Para ela, o Brasil, uma vez que um laboratório racial, criou ao longo dos séculos estratégias de resiliência muito ligadas à espiritualidade e à natureza, uma vez que provam religiões uma vez que o candomblé, originárias do sincretismo entre o catolicismo e religiões de matriz africana. Na última Bienal de Veneza, o pavilhão brasílio foi ocupado por mantos indígenas de Glicéria Tupinambá.
