“Quem é essa mulher que canta sempre o mesmo emendo?”, pergunta Chico Buarque numa música enxurro de dor, inspirada em Zuzu Angel. “Só queria agasalhar meu criancinha e deixar seu corpo resfolgar.”
Chico compôs “Angélica”, com o arranjador Miltinho, um ano depois da morte da estilista em 1976. A frase que se repete na letra, obsessiva, agora serve de nome a “Quem É Essa Mulher?”, a mais completa biografia da estilista que mudou o Brasil entre linhas de costura e gritos de protesto.
Pouco antes do acidente de coche que matou a modista —provocado por agentes da ditadura, porquê se soube depois—, ela havia confiado a Chico um bilhete. “Se alguma coisa vier a sobrevir comigo, se eu nascer morta, por acidente, assalto ou qualquer outro meio, terá sido obra dos mesmos assassinos do meu querido fruto.”
Ao lado do jornalista Zuenir Ventura e do dramaturgo Paulo Pontes, Chico tratou de espalhar cópias dessa nota manuscrita por redações de todo o país, ainda com pouquíssimo efeito. Uma vez que ele lamentaria mais tarde, “para denunciar o homicídio de Zuzu, fazia falta outra Zuzu”.
Isso porque era inexaurível a eletricidade que movia a estilista na procura por respostas sobre o que tinha realizado com seu primogênito, Stuart Angel Jones, sumido aos 25 anos posteriormente atuar no Movimento Revolucionário Oito de Outubro, grupo de resistência armada à ditadura.
Foi torturado e morto em maio de 1971, porquê a mãe só ficou sabendo um ano antes de seu próprio homicídio, ao receber a epístola de um militante que estava recluso numa quartinho próxima a ele. Entre outros horrores, Stuart teve a boca amarrada ao escapamento de um coche que circulava no recinto da ergástulo.
Aliás, até só três meses detrás, a diploma de óbito da própria estilista afirmava que ela havia morrido por acidente no idoso túnel Dois Irmãos, no Rio de Janeiro —hoje, túnel Zuzu Angel. O documento foi retificado pelo governo para mostrar que sua morte foi violenta e causada pelo Estado brasílico.
O mais curioso de tudo é que, mesmo antes desses fatos que deixaram uma marca indelével na história política brasileira, Zuleika Angel Jones já mereceria uma biografia. É o que diz a autora do novo livro, Virginia Siqueira Starling, e o que comprova a história contada nas suas páginas.
“O indumento de Zuzu ter rompido o íntimo e o público com sua resistência à ditadura dá uma novidade dimensão a ela porquê personagem”, afirma a jornalista mineira de 30 anos, que tem nessa biografia de mais de 500 páginas, encomendada pela editora Todavia, seu primeiro livro de autoria solo. “Mas essa imagem cristalizada da ‘mater dolorosa’ prejudica o retrato da mulher complexa e dinâmica que ela foi.”
Um tanto que fica patente no livro é que Zuzu Angel não “interrompeu tudo para virar uma mãe em sofrimento”, porquê diz Starling. Nos cinco anos em que sobreviveu a seu fruto, a modista dividia sua mesa de trabalho entre croquis de vestidos e anotações de auditoria de documentos.
As pessoas que a autora entrevistou se lembram da estilista porquê uma mulher satisfeito, mesmo em luto. O auge da incongruência veio no desfile decisivo de sua curso, que aconteceu na residência do cônsul brasílico em Novidade York poucos meses depois do sumiço de Stuart.
Ali, Zuzu exibiu uma coleção de roupas com a “leveza dançante” e o “matizado superabundante” que marcaram —e internacionalizaram— suas criações, por alguns anos sinônimos de voga brasileira fora do país. Mas os vestidos mostravam, em detalhes na costura, desenhos de tanques, aviões militares e pequenos sóis detrás de grades. Eram discretos, mas evidentes manifestos políticos.
A partir daquele momento, os militares nunca mais engoliram a estilista, que já era figurinha carimbada em colunas sociais e tinha amigas no mais sobranceiro escalão —várias delas, esposas de fardões do governo.
Em uma das passagens mais memoráveis, a biógrafa esmiúça a amizade que se formou entre Zuzu Angel e Yolanda Costa e Silva, que era casada com o segundo ditador do regime militar.
Conforme narra o livro, os laços entre as duas nasceram tanto da respeito genuína entre uma estilista e sua cliente leal quanto de uma postura estratégica de Zuzu, buscando se aproximar de gente poderosa capaz de interceder por seu fruto, já militante de esquerda, em caso de emergência. As duas romperam por um desentendimento que não teve a ver com política.
Uma vez que escreve Starling, “Zuzu não se manifestou publicamente nem contra, nem em prol do golpe” de 1964. “Política não era alguma coisa pessoal para ela”, diz o livro sobre aquele momento. “A modista de Ipanema não imaginava que os tumultos políticos influiriam de maneira tão direta e íntima em sua vida.”
Dá para descrever essa biografia porquê um trajectória da tomada de consciência política de Zuzu, não só em relação aos tanques de Brasília, mas ao papel da mulher no mundo.
“É simples que a morte de Stuart foi uma grande viradela de chave, mas a politização dela começou antes”, diz a autora. “E começou por pensar porquê a mulher brasileira se vestia, se comportava e quais lugares podia ocupar.”
Política, feminismo e estilo se entrelaçam ao longo de toda a leitura, e alguma coisa que fica evidente é a maneira porquê a voga é tratada porquê um ponto tão sério quanto qualquer outro.
E, mesmo antes de penetrar o livro, já se nota que a editora destacou porquê única recomendação na contracapa a da jornalista Gloria Kalil, uma das mais experientes consultoras de voga do país.
De indumento, leitores e leitoras que não têm intimidade com termos porquê zibeline, organza e musselina se verão recorrendo ao Google com alguma frequência —segmento da teoria de que os códigos da voga devem ser tão dignos do saudação do público quanto eram da biografada.
Finalmente, Zuzu Angel não fazia nenhuma questão de geminar sua personalidade para caber em zero. Na cena de seu velório, em 1976, suas amigas lembram que ela havia pedido para não ir para o caixão com as mãos cruzadas, porquê toda morta —queria ir embora “dando uma banana” para os militares.
No termo, elas optaram por um meio-termo. Zuzu foi enterrada com um retrato de Stuart no peito, entre as mãos. Ou porquê dizia a música de Chico Buarque, embalando seu fruto, “que mora na negrume do mar”.
