Feitiços não têm protegido a Broadway. Apesar das bruxas de “Wicked”, o quarto músico mais longevo por ali, e da magia em “Death Becomes Her”, comédia sobre imortalidade que entrou no “clube do milhão” logo na semana de estreia, diversas produções têm deixado o giro nova-iorquino.
A temporada de 2024 a 2025 reuniu vários fracassos. Entre releituras de figuras clássicas porquê Betty Boop, biografias de músicos porquê Huey Lewis e uma adaptação da série “Smash” —em que, ironicamente, compositores sonham com o glamour teatral—, muitos estrearam com críticas mornas e fecharam suas cortinas pouco depois.
Não significa que peças aclamadas saíram ilesas. “Cabaret” e outros clássicos naufragaram ao retornar, e mesmo remontagens premiadas, porquê “Sunset Boulevard”, não recuperaram os orçamentos milionários.
Apesar de assistências do governo, alguns produtores atribuem esse declínio aos custos das montagens. A Percentagem de Valores Mobiliários dos Estados Unidos indica que os espetáculos lançados posteriormente a pandemia exigiram, juntos, quase US$ 1 bilhão de investimento.
Se há dez anos uma comédia músico de grande elenco, segundo o The New York Times, custava tapume de US$ 14 milhões, esse valor, hoje, pode flectir. Os ingressos, por outro lado, não acompanharam esse aumento. Em média, os valores subiram pouco mais de 3% no pós-pandemia.
Outros especialistas descrevem um cenário em transformação, capaz de manter alguns sucessos, mas que procura novas estratégias para atrair o público.
Exemplo disso é uma versão imersiva de “O Fantasma da Ópera”, fenômeno de Andrew Lloyd Webber que deixou de assombrar a Broadway em 2023, mais de três décadas desde a estreia americana.
Hoje, a partir de R$ 925, a atração insere espectadores em bailes assombrados, com máscaras e roupas de gala próprias. O projeto é mais um que reinventou obras do artista britânico recentemente, junto da versão drag de “Cats”, de um “Jesus Cristo Superstar” protagonizado por Cynthia Erivo e do próprio “Sunset Boulevard”.
Entre as poucas montagens pós-pandêmicas que trouxeram lucro está “MJ”, com músicas de Michael Jackson, e “The Outsiders” chamou a atenção pela anseio temática e cênica. Na América dos anos 1960, a peça aborda a luta de classes pela perspectiva de gangues adolescentes.
As lutas de classes presentes em cena culminam numa cena com chuvas torrenciais, orgasmo que ajudou o espetáculo a embolsar o Tony de melhor músico. São diferenciais que encarecem a produção, mas convencem um público retirado pela pandemia a retornar aos teatros. Para alguns especialistas, porém, são outros os critérios que definem sucessos.
É o que diz Claudio Botelho, que dirigiu versões brasileiras de fenômenos porquê “A Noviça Rebelde”, “West Side Story” e “Um Violinista no Telhado”. Ele elogia os aparatos da adaptação teatral de “Stranger Things” —que estreou no West End, principal giro teatral de Londres, e chegou a Novidade York no ano pretérito—, mas afirma que a tecnologia nem sempre é sinônimo de audiência.
Segundo o diretor, mesmo fora dos musicais, importam mais nomes porquê Denzel Washington, que fez de seu “Othello” um estrondo, e George Clooney, que esteve em edital com “Good Night, and Good Luck”.
Na ocasião, o ator bateu recordes ao viver um âncora que enfrenta um senador corrupto. Já “Moulin Rouge!”, em edital há sete anos, quer ampliar sua popularidade com convidados especiais por períodos limitados, porquê a rapper Megan Thee Stallion, cuja participação tem início na próxima semana.
“A maior mágoa de Stephen Sondheim é o músico ‘Merrily We Roll Along’ ter sido um fracasso. Em 2023, ele enfim fez sucesso com Daniel Radcliffe e Jonathan Groff”, afirma Botelho. O título em questão, que naufragou em 1981 e circulou por fora antes de voltar à Broadway, segue um compositor que decide virar produtor de Hollywood.
A meca do cinema, que muitas vezes deu sobrevida a clássicos teatrais, tem visto o caminho inverso suceder com alguma frequência. A irreverência de “Beetlejuice”, de Tim Burton, fez dele outro sucesso que alcançou os palcos, e os musicais também deram conta de longas porquê “O Diabo Veste Prada”, que terá temporada brasileira.
Já “De Volta Para o Horizonte” cumpriu cinco anos em edital em Londres, com a ajuda de um coche que sobrevoa a plateia, antes de ir a Novidade York. O intercâmbio histórico entre os dois polos, aliás, vive uma novidade temporada —diante dos altos custos nos EUA, americanos têm desenvolvido produções em solo britânico.
Reconhecido pela tradução pátrio de produções porquê “A Bela e a Fera” e “Chicago”, Botelho diz que a estratégia cinematográfica pode deixar a música em segundo projecto. Quem reforça essa percepção é Jorge Takla, que, no Brasil, montou produções porquê “Victor ou Vitória”, “Evita” e “My Fair Lady”.
O diretor diz que o governo de Donald Trump tem empobrecido a cultura americana. “O teatro músico é um talento essencialmente americano e inglês, desenvolvido durante séculos e com diversos testes em cidades do interno. Hoje, as produções americanas são de terceira categoria”, afirma Takla.
“A formação baixou muito. Talvez esses musicais dialoguem com uma novidade geração, movidos por modas e urgências das redes sociais. Parece que o único objetivo é apresentar motivos para que as pessoas saíam de morada. Porquê todo ciclo, uma hora ele se esgotará e todos buscarão novas linguagens.”
Não quer expor que produções provocativas tenham sumido por completo. Há mais de uma dez, “Hamilton” revisita a história americana ao reunir artistas negros e latinos e embaralhar gêneros porquê o rap e o hip-hop. A temporada da peça que estava prevista para o Kennedy Center, aliás, foi cancelada ano pretérito em protesto contra intervenções do governo no núcleo cultural.
Mesmo apresentações tradicionais e indiscutivelmente americanas, porquê o irônico “The Book of Mormon”, permanecem em edital em Novidade York. Professora de artes cênicas e reitora da Universidade de Princeton, Jill Dolan cita o espetáculo não músico “Liberation”, outro de sangue americano, que retrata impactos da segunda vaga feminista.
Ela elogia o aumento de produções dirigidas por mulheres nos últimos anos, mas afirma que a Broadway não é um espaço de grandes discussões ideológicas. “Se hoje a internet mobiliza narrativas internacionais nos EUA, o teatro fica detrás porque Trump faz de tudo para dificultar a vinda de artistas estrangeiros.”
Em seu livro “Utopia in Performance”, Dolan divide o teatro entre a procura por conexões sociais e pressões do capitalismo. “A Broadway aprendeu a trebelhar com o libido de se estar com celebridades que antes só eram vistas a partir das telas. Cada vez mais faceta, virou um grande mercado para vendedores.”
Diretor da montagem de “Wicked” que veio ao Brasil no ano pretérito, uma das mais vistas na história do país, Ronny Dutra diz que a longevidade da peça vai além do impulso das adaptações para o cinema. Segundo ele, subtextos da trama, que revê o Mágico de Oz porquê figura autoritária, justificam as renovações globais do músico.
“A fórmula americana introduziu os musicais ao resto do mundo. Com o tempo, as pessoas passaram a perceber que existia uma forma de se cruzar essa ponte e misturar culturas. Com ‘Wicked’, por exemplo, a inserção de memes e de outros elementos do imaginário pátrio empoderou o público brasiliano.”
Ele cita “On Your Feet”, sobre a cantora cubana Gloria Estefan, e “In the Heights”, que acompanha uma comunidade latina da periferia de Novidade York, entre musicais que usaram tradições dos EUA para inserir elementos de outras culturas.
“São produções que dão espaço a identidades únicas, desconhecidas, talvez, por americanos, mas com um formato que lhes dá segurança.”




