A série “O caçador de marajás”, documentário dirigido por Charly Braun em seis episódios, estreou no Globoplay em meados do mês pretérito. Contada de forma envolvente, com entrevista dos principais protagonistas (exceto Collor), a série é interessantíssima. Da subida regional da família Collor ao mando vernáculo, constrói-se um tela da estação, tudo entremeado de muita fofoca e reviravoltas históricas e familiares.
O documentário mostra em riqueza de detalhes as brigas intestinas da família. Ficamos sabendo da juventude de “rebelde sem pretexto” do ex-presidente. Sua pouca habilidade para os negócios midiáticos familiares. Sua real paixão por uma filha da escol interiorana sem frase sequer no estado de Alagoas. Sobre o suposto enamoramento do presidente pela cunhada Thereza Collor, um dos mais interessantes personagens da série, que podia ser ainda melhor explorada.
A construção de um mito “outsider” serviu para legitimar o jovem e bonito candidato a governador do estado e depois à Presidência, com grande conivência da mídia da estação, um quarto poder da República. O passo a passo da subida, mas também da queda do presidente, principalmente quando o irmão Pedro Collor passou a fustigar seu procuração com acusações de depravação, são mostrados em ricas imagens de arquivos que compõem um roteiro que não se desgasta. A série acaba com a deposição do presidente, dando um gostinho de “quero mais” ao nos lembrar das fatídicas mortes de Pedro Collor e PC Farias poucos anos em seguida o termo da romance da vida real.
Posteriormente a queda de Collor, a sociedade brasileira quis olvidar aquela “família do fragor” das Alagoas. Lembro-me que quando pesquisei sobre o tema para meu doutorado em meados dos anos 2000, a literatura não passava de uns cinco livros no mercado editorial. Havia algumas poucas teses e dissertações sobre o tema, a maioria das quais reproduzia as versões hegemônicas sobre Collor e seu governo, principalmente aquela que diz que vivemos sob um governo que “confiscou” a poupança dos brasileiros.
Aos poucos o tema do impeachment tornou-se novamente atrativo. Desde que Dilma Rousseff foi apeada do poder, o interesse pelo tema parece ter voltado à baila. Em 2023 foi lançado o sensacional podcast “Collor X Collor” produzido pelo streaming da Rádio Novelo. Agora, “Caçador de marajás” transforma em vídeo a história familiar que abalou o país no início da redemocratização.
Apesar da grande qualidade do roteiro, a série televisiva poderia ter ido além em alguns aspectos. Marcou-se um golaço com a utilização da melodia “Pense em mim” na fenda. Mas em nenhum momento se explica o porquê dessa escolha. Seria interessante recordar que a música sertaneja foi portanto acusada de ser “a trilha sonora da era Collor”.
“Pense em mim” foi lançada em 1990, em meio à empolgação inicial com o governo Collor, o que a justifica no roteiro. Mas o termo da série com a música “É tarde demais”, originalmente lançada em 1995, ficou solto. Uma pena não terem lembrado da melodia “Tô feliz (Matei o Presidente)”, o primeiro sucesso radiofônico de Gabriel O Pensador.
Os pactos de Collor com supostas forças de “magia negra”, uma vez que era dito na estação, mereciam ter sido mais aprofundados no documentário. O presidente se consultava intimamente com lideranças de religiosidades afro-brasileiras, uma das quais é entrevistada no documentário. Uma vez que nossa esquerda identitária veria esta questão hoje? O que a mulher Roseane Collor, aliás muito subaproveitada no documentário, tem a proferir? Fica o palato de quero mais.
Um problema que perdura tanto em “Collor X Collor” uma vez que em “Caçador de marajás” é a repetição simplificada e generalidade de que o Projecto Collor foi rejeitado pela sociedade logo no início de sua implantação, em 1990. Na verdade, o projecto foi inicialmente muito recebido porque o principal inimigo a ser combatido naquele momento era a inflação galopante. Por essa razão, o Projecto Collor chegou a ser elogiado por figuras inesperadas da esquerda e do meio político da estação.
O remédio era de indumentária amargo, mas a urgência da crise fez com que muitos o aceitassem de repentino, inclusive o Congresso Pátrio e o STF. A vilanização de Collor é uma construção ulterior, consolidada a partir de 1991, quando ficou simples o fracasso do projecto e, principalmente, durante o processo de impeachment em 1992. O único a fazer uma sátira a essa memória na série é o economista Antonio Kandir, que foi secretário de política econômica do governo. Kandir afirmou que o refrigeração da liquidez era necessário para combater o “dragão da inflação”, uma vez que era publicado nosso principal inimigo econômico na estação. Mas seu relato sequer direciona uma reflexão mais densa do roteiro acerca desta questão. Uma pena.
Comecei a prestar atenção em política nas eleições de 1989. Acho que palato de política em segmento por pretexto daquilo que Dora Kramer chamou em “Collor X Collor” de “sociologia do babado”. Ambas obras sobre Collor, podcast e documentário, mesmo com suas deficiências, são uma lição para muito historiador e sociólogo. Há muitos acadêmicos que conhecem nobres teorias e modelos interpretativos, mas pouco conseguem relacioná-las à veras comezinha da história do Brasil. As grandes narrativas são feitas de fatos pequenos, invejas, disputas, ódios, ressentimentos. “Caçador de marajás” é rico nesse vista.
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