A espingarda dispara, o sangue espirra, os palavrões saem gritados e Ubaldo Vaqueiro acerta as contas com quem ele imagina ser seu verdugo. Não se importa muito se pegou a pessoa certa —enfurecido, o varão vaga pelo sertão cego pela ânsia de vingar o assassínio do pai, que foi morto num incêndio no último capítulo de “Cangaço Novo”, série que chega à segunda temporada nesta sexta-feira (24).
Cenas uma vez que essa, cheias de violência, foram exibidas a firmamento cândido em Cabaceiras, cidade do interno da Paraíba, a respeito de 200 km de João Pessoa. No evento gratuito, elenco e tapume de 3.000 visitantes se reuniram para ver os novos episódios. Havia senhoras e senhores, gente recém-saída do trabalho e até crianças.
Há um sentimento de pertencimento entre os cabaceirenses em relação a “Cangaço Novo”, já que a cidade, junto de municípios vizinhos, deu vida à fictícia Cratará. Na história, é para lá que vai Ubaldo, personagem de Allan Souza Lima, com a intenção de reivindicar terras que acredita serem suas por recta.
No lugar, porém, enfrenta a rijeza da mana, Dinorah Vaqueiro, vivida por Alice Roble, líder de um quadrilha de cangaceiros modernos que assaltam bancos.
Se Ubaldo assume o comando do grupo na primeira temporada por sua sensatez e prudência, agora é ele quem extremidade o descontrole. Os novos episódios transformam o protagonista em anti-herói, mais raivoso, numa inversão de papéis com Dinorah, que ressurge calma, centrada e reflexiva —o oposto do que era antes.
Foi justamente o jeito explosivo de Dinorah que permitiu a Roble edificar uma performance expansiva, enxurrada de berros, cusparadas e palavrões pouco conhecidos, e se tornar um dos tiros mais certeiros de “Cangaço Novo”. Embora coadjuvante, acabou que Dinorah foi quem mais chamou a atenção do público e, assim, se tornou a faceta da série.
“Tem que entender quem está passando na avenida naquele momento. Isso é o mais importante”, diz Souza Lima. “Não falo de protagonismo porque é mal-parecido expor que a série é sobre mim. Cai num lugar narcisista, que a gente vive na classe artística.”
Roble volta à série mais rica e paparicada, com duas novelas na conta, a cinebiografia da jogadora Marta a caminho e uma elogiada participação no filme “O Agente Secreto”, que a levou à cerimônia do Oscar, em Hollywood, há dois meses. Mas estar em lugar de gente poderosa é dissemelhante de acessá-los de verdade, diz a atriz.
“Estou ali, mas com o meu trabalho, levando minhas personagens. Acho importante estar, mas também acho importante não estar. O que mais mudou, desde a primeira temporada, é que se o holofote chegou para todos nós, é preciso ter responsabilidade. Eu não tinha essa preocupação.”
A entrevista aconteceu em um hotel, um dia depois da pré-estreia. Lá, Roble ficou hospedada no mesmo rancho que os jornalistas, e disse nas redes sociais que a ida da prelo para a Paraíba era “um golaço”.
“Cangaço Novo”, enfim, se tornou joia brasileira do Amazon Prime Video, que agora abre os cofres para publicar mais amplamente uma série que lançou de forma tímida, há três anos.
A obra foi criada por Eduardo Melo e Mariana Bardan, marido e mulher, que em 2014 foram a Los Angeles tentar a vida uma vez que roteiristas. Deu inverídico —o mercado de lá é muito competitivo, eles dizem— e voltaram. Cá, venderam “Cangaço Novo” à produtora O2, que passou anos mexendo no projeto até a Amazon entrar na empreitada, em 2018.
Cinco anos e uma pandemia depois, “Cangaço Novo” apareceu nas listas de favoritos de vários críticos de televisão. Diziam que a obra não perdia em zero para as séries de ação feitas lá fora
A promessa agora é que cada um dos sete capítulos, liberados de uma vez, tenha uma cena de pancadaria ou de explosão grandiosas. Na estreia, há perseguição, uma boa ração de sangue e muita violência verbal também —Dinorah e Ubaldo competem para ver quem é mais boca suja.
Com o quadrilha desmantelado, posteriormente a tragédia da temporada anterior, os dois decidem recrutar novos bandidos. Um deles é Carioca, interpretado pelo rapper Xamã, que vem mirando uma curso na atuação. Outro cantor que chega à série, numa aparição relâmpago, é o pernambucano João Gomes. Aclamado no Nordeste, bastou ele surgir na cena para o público de Cabaceiras gritar.
Para além de violenta, “Cangaço Novo” volta também mais política. Nesta temporada, há uma cena que gira em torno de uma eleição para prefeito, que parece dialogar com disputas reais —inclusive na estética, com o campo progressista, em cena, com camisetas e bandeiras vermelhas.
O jornalista viajou a invitação do Amazon Prime Video
