Carlos lemos fez livro para buscar ecos de dom artístico

Carlos Lemos fez livro para buscar ecos de dom artístico – 06/08/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Morto aos centena anos, o arquiteto Carlos Alberto Cerqueira Lemos foi historiador e também repórter. Teve uma curso sólida na literatura, com mais de 20 obras lançadas.

Uma delas foi “Viagem pela Mesocarpo”, publicada em 2005. No livro, ele investiga seus ascendentes na procura por pistas que o ajudam a desvendar se seus dons artísticos haviam sido passados de uma geração para a outra.

Relembre resenha do livro feita por Otavio Frias Rebento, à quadra diretor de Redação da Folha.

Memórias trazem ecos da moradia paulista

Carlos Lemos é considerado o principal historiador da moradia paulista, dos primeiros bandeirantes à explosão imobiliária da capital no prelúdios dos anos 1950. Chefiou o escritório paulistano de Oscar Niemeyer, convidado nessa quadra a trabalhar na cidade por Octavio Frias de Oliveira, até 1957, quando as atenções do arquiteto carioca se voltaram para a futura Brasília.

Pesquisador respeitado, professor por cinco décadas, pintor eventual e cozinheiro de mão enxurrada, Carlos Lemos lança agora uma espécie de autobiografia.

Não é muito um livro de memórias, avisa o responsável. Obcecado quando estudante pelos próprios ancestrais, ele fez portanto minuciosa pesquisa em velhos arquivos que agora, tantos anos depois, serve de base ao livro. O arquiteto alega buscar, no entrelaçamento das famílias e no desenrolar das gerações, certos pendores genéticos aptos a esclarecer sua própria vida uma vez que desenhista, uma vez que intelectual com veia artística, até uma vez que canhoto.

Mas o resultado é outro. Vemos, no desfile difuso dos fantasmas evocados, a luta pela sobrevivência em tempos primitivos, os esforços de subida social em que cada geração parece montar nos ombros da anterior, assim uma vez que os reveses da má sorte, em universal correspondentes ao colapso de um sub-ciclo econômico qualquer. O responsável está na extremidade de um ângulo propício a esse quadro, dada a origem de seus “quatro costados”.

De um lado, seus antecessores foram mulatos do vale do Paraíba no declínio da mineração além da Mantiqueira, quando as vilas do mina eram abastecidas de víveres pelo negócio de cidades uma vez que Guaratinguetá. Foram salvos pelo próspero ciclo seguinte, o do moca.

De outro, Lemos descende de portugueses instalados no sul de Minas, que seguiram o mancheia rumo ao oeste e assim desbravaram o setentrião paulista. De um terceiro, o responsável tem raízes na região caiçara de Iguape, a mais pobre do Estado. O último serro, o dos Cerqueira, converteu-se à fé presbiteriana no termo do século 19 e esteve na origem da instalação do Mackenzie, na capital.

O pretérito se concilia e se justifica com a narrativa da vida do responsável, que ocupa a segunda metade do livro, da qual constam também croquis, desenhos e reproduções de algumas de suas telas.

Lemos relata as polêmicas arquitetônicas da quadra de estudante, anos 40, que opunham o estilo eclético (financiado por imigrantes pouco ilustrados, saudosos da terreno natal) à sua reação neocolonial (uma releitura “aristocrática” da moradia bandeirante). Nas escolas, o pensamento acadêmico tentava barrar a influência dos modernistas.

A preeminência destes se consolidou nos anos 50 e 60, com o prestígio de Niemeyer e de seu contraponto paulista, Vilanova Artigas: curvas X colunas. Carlos Lemos admira o pai de Brasília, mas nunca se tornou discípulo.

Foi na velha região de Ibiúna, próxima à capital, que ele teve sua iluminação, por volta de 1963. Ao conversar com um rabino de obras sobre a casa-refúgio que faria lá, o responsável atinou que ela poderia/deveria repetir o pretérito de tantas moradas paulistas que ele estudara e de onde proveio.

Lemos se tornou um dos artífices de uma arquitetura selecção, de “oposição”, que floresceu em casas de intelectuais e assemelhados nos anos 60 e 70. Verdejante, madeira, vidro, lajotas, janelões, fogão à lenha e telhados de caipira.

A cozinha no núcleo da moradia. Tratava-se de encontrar soluções baratas e de bom sabor que fossem ressonâncias da história mameluca. Reunir tradição popular e modernismo instruído.

Esse projeto -e tudo o que ele implicava em termos políticos e ambientais- foi massacrado pela brutalidade de nosso desenvolvimento desordenado. A vida do responsável, agora espelhada no livro, é testemunho de um pretérito que poderia ter melhorado o presente.

Folha

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