Tudo estava muito estranho no primícias dos anos 1990. Com o fechamento da Embrafilme, logo no primícias do governo Collor, houve primeiro um suspiro de refrigério —enfim o cinema vernáculo ia dar um tempo, estávamos livres das leis de quota e tudo mais. Pouco depois, as pessoas começaram a sentir falta dos filmes feitos cá. Na pior das hipóteses, tínhamos um tanto para falar mal.
Collor caiu, o governo Itamar Franco tomou o seu lugar e logo correu detrás de uma solução para o problema. Surgiram as primeiras leis de incentivo, a Lei do Audiovisual avante, mas ainda faltava um filme capaz de sintetizar o sentimento vernáculo naquele momento.
“Carlota Joaquina” foi o filme que captou o libido de ver filmes brasileiros de uma secção da plateia. Estourou nas bilheterias de maneira inesperada. Tinha a seu obséquio, é verdade, o roupa de Carla Camurati, sua diretora, ter chegada fácil a programas de televisão, por exemplo, o que compensava as parcas verbas de publicidade para lançamento.
Foi importante, não há incerteza, o roupa de relatar com um elenco fortíssimo e familiarizado com a comédia —Marieta Severo porquê Carlota e Marco Nannini porquê dom João 6º avante; detrás deles vinham de Antônio Abujamra e Ney Latorraca a Maria Fernanda e Beth Goulart, entre outros. Mas o elenco era ali o menor dos problemas.
Havia a dificuldade quase intransponível de gerar o retrato de uma era histórica passada —o início do século 19— num país que sistematicamente derruba seus edifícios antigos —e com um orçamento restringido. Verba para filmar no exterior, nem pensar. São Luís, no Maranhão, foi a base encontrada. Esse o primeiro repto que o filme soube vencer.
O segundo, ainda mais frágil, dizia reverência a encontrar um modo de narrar a história capaz de espelhar os sentimentos dos brasileiros em relação à sua história. O filme foi lançado no primícias de 1995, e não é demais lembrar que o Projecto Real começou em meados de 1994, com a tarefa de extinguir uma inflação que em oferecido momento havia chegado a 80% mensais.
A desmoralização havia chegado longe: o país de Carlota Joaquina não estimava a si mesmo muito mais do que a própria, em suma. Não ainda, pelo menos. E foi isso que Camurati soube captar muito muito, colocando avante de sua história uma Carlota a expor que “desta terreno não queria nem o pó”. O Brasil que ela via era um término de mundo quente, poeirento e zero mais.
Não foram poucos os historiadores que chiaram, falando ora em erros, ora em falsificação da história. Mas o cinema sempre falsificou a história. Ou alguém pensa que o Velho Oeste foi mesmo porquê os filmes o recriaram?
A “Carlota” se poderia atribuir mais um vício (ou virtude): o roupa de a história ser narrada na Escócia, por um pai à sua filha —em inglês, naturalmente. Ou seja, nesse momento parecia factível a história do Brasil ser vista porquê uma fábula estrangeira para crianças. Era, ao mesmo tempo, fantástica, inverossímil e risível.
Sobretudo risível: os frangos de dom João 6º, os arroubos de Carlota, as mancadas da incisão. Tudo caiu muito muito para um público que lamentava a colonização portuguesa e tudo que se seguiu. Essa incisão, esse Portugal, essa incompetência, esse lugar. Tudo parecia explicar e até tornar tolerável o beco sem saída em que ainda nos sentíamos —não havia tanta certeza de que o Real daria perceptível, finalmente, era um projecto brasílio.
Com tudo isso, o filme temperava o pessimismo com a tocada humorística que marcou esse primeiro longa-metragem dirigido por Carla Camurati. O testemunha podia sentir-se vítima dessa história, mas também se via cúmplice do olhar agridoce que “Carlota” lançava sobre o país e a sua história.
O sucesso de “Carlota Joaquina” tornou viável o que ficou sabido porquê a era da Retomada do cinema brasílio, que seguiria até o primícias do novo século. “Carlota” abriu o filme brasílio para um público que se ressentia de sua falta, mas não só para ele.
Com as leis de incentivo surgiram novos cineastas, começou um esboço de descentralização (até ali tudo ou quase se passava no chamado eixo Rio-São Paulo). Surgiu a vigorosa escola de Recife e, por término, um envolvente de menos descrença nos destinos nacionais —”Medial do Brasil”, filme de um país que buscava a regeneração. O Projecto Real havia oferecido perceptível, finalmente. Já era provável esperar pelo novo século com qualquer otimismo.
