[RESUMO] Em meio às homenagens aos 120 anos de promanação e 50 de morte de Erico Verissimo, e às vésperas dos 90 anos de Luis Fernando, reportagem conta a história e as conexões de pai e fruto, dois dos mais importantes e populares escritores brasileiros, e relata porquê a mansão da família em Porto Jubiloso tornou-se um ponto turístico de formação e troca intelectual, mais um elemento da obra artística de ambos que os herdeios buscam preservar.
Mal havia começado a entrevista com os filhos de Luis Fernando Verissimo, na mansão da família em Porto Jubiloso, quando o caçula do repórter, Pedro, pediu licença para interromper a conversa. Trazia um parelha que tocou a guizo querendo saber o lugar onde viveu e trabalhou Erico Verissimo.
Moradores de Curitiba, Ismaile Barragan e Vivian Lie estavam de passagem pela capital gaúcha e não queriam perder a chance. Prenha de uma moçoila, ela e o marido contaram que, se fosse menino, chamaria-se Erico, uma homenagem ao responsável de “O Tempo e O Vento”, de quem são leitores e admiradores.
Ele parecia eufórico ao entrar no escritório em que Erico revisava os originais dos seus livros —escrevia-os em outro, a chamada “toca”, no subsolo da mansão— e onde permanecem objetos do seu montão pessoal, porquê uma poltrona vermelha, uma tábua pintada por ele que servia de suporte para as revisões e uma pintura a óleo retratando Clarissa, a filha mais velha do repórter e única mana de Luis Fernando.
De tão excitado, Ismaile derrubou uma mesinha com livros, prontamente recolhidos pelos donos da mansão, que ficaram 15 minutos mostrando relíquias e contando histórias. Lúcia, esposa de Luis Fernando, e os três filhos do parelha —Fernanda, 60, Mariana, 58, e Pedro, 55— faziam tudo com paciência e gentileza.
Neste 2025 que marca os 120 anos de promanação e 50 anos da morte de Erico, os netos cumprem a missão de revigorar o legado do avô. É uma função que de manifesto modo coube por décadas a Luis Fernando, continuador do ofício do pai, embora de uma estirpe dissemelhante —enquanto Erico se consagrou porquê romancista, o caçula dele com Mafalda construiu glória e prestígio sobretudo porquê historiador e humorista sofisticado.
O filho-escritor, porém, está fora de cena. Desde 2021, quando sofreu um AVC, Luis Fernando parou de redigir. As sequelas do derrame se somaram às limitações da doença de Parkinson e a outros problemas de saúde —em 2020, operou um cancro ósseo na mandíbula, com bom resultado, mas logo veio o AVC.
Em setembro, o fundador do Crítico de Bagé, da Velhinha de Taubaté, do Ed Mort, d’As Cobras, da Família Brasil e das “Comédias da Vida Privada” completa 89 anos. Assim, os herdeiros têm a incumbência de impulsionar também a extensa obra do pai.
Plateia não falta. A reclusão não alterou a consideração dos leitores. Naquela tarde de julho, poucas horas antes do parelha de Curitiba, outra dupla batera à porta dos Verissimos. A moça, moradora de Porto Jubiloso, guiava um colega de Passo Fundo (RS), e dessa vez o interesse maior era por Luis Fernando. Ela lhe levou uma flor; ele, um pôster do Botafogo (time do repórter no Rio, só precedido, simples, pela paixão maior, o Internacional) e um livro, para pegar um autógrafo.
A família explicou as restrições do patriarca e os consolou com um chancela personalizado, com o qual Luis Fernando passou a autografar no início desta dezena por pretexto dos efeitos do Parkinson, um pequeno autorretrato dele sob o trocadilho: “Um amplexo com chancela do Luis Fernando”.
Mesmo tão frequentes, as visitas não parecem enfadar os Verissimos. É assim há décadas. A mansão da família na rua Felipe de Oliveira, nas colinas do bairro Petrópolis, em Porto Jubiloso, foi comprada por Erico e Mafalda no início dos anos 1940. Mudaram-se para lá em 1942, quando ele já havia publicado oito livros, entre os quais os sucessos “Clarissa” e “Olhai os Lírios do Campo”, e Luis Fernando tinha seis anos.
Em 1943, com Erico perseguido pela ditadura do Estado Novo e pela Igreja Católica (um padre defendeu a queima do seu romance “O Resto É Silêncio”, considerado impudico), a família viajou para os Estados Unidos, onde viveu por dois anos —a invitação do governo americano, ele lecionou literatura brasileira na Universidade da Califórnia em Berkeley. O pequeno Luis Fernando interrompeu o primícias de uma alfabetização em português para abraçar outra, em inglês.
Por isso, aliás, é na língua de Shakespeare que saem as poucas palavras hoje pronunciadas por ele. “São coisas soltas, yeah, thank you, stop. Não chega a fazer uma frase, mas é em inglês. De vez em quando, os rapazes que ficam com ele [fisioterapeutas e enfermeiros] dizem também ‘Stop’, ‘No’, ‘Thank you, my friend’”, conta Lúcia, 81 anos recém-completos, casada há 61 com o repórter.
Ela e os filhos lamentam que, pouco depois o AVC, quando a situação de Luis Fernando era melhor que a atual —chegou a riscar/rabiscar e balbuciar umas palavras—, ele não quis fazer fonoaudiologia para retomar a fala. “Foi uma pena. A sentimento que dava é que ele achava que era coisa de garoto”, diz Lúcia.
Quando ainda articulava umas poucas frases, conta a esposa, o próprio historiador fez troça de sua notória introversão-quase-mudez. “Um dia ele chegou a manifestar: ‘Eu não falava porque não queria, agora não falo porque não posso.” O fruto Pedro ameniza as limitações: “Ele sempre foi muito soturno, logo temos traquejo de entendê-lo mesmo sem frases completas”.
Luis Fernando comunica-se principalmente com as mãos e o olhar. E dá sinais de que entende o que lhe murado, impressionando a família. “Uma vez estávamos assistindo na TV a uma entrevista do Paulo César Pinho, de cuja música ele gosta muito”, narra Lúcia. O compositor carioca contava ter tido a sorte de saber Pixinguinha: estavam num bar, e um colega do rabino do pranto comentava os malefícios do álcool.
“Achei que o Luis Fernando estava ali olhando, mas sem prestar atenção. De repente, o Paulo César contou que o Pixinguinha disse pro colega a seguinte frase: ‘O álcool só é nocivo pra quem é mau caráter’. Ele deu uma gargalhada. Na hora certa. Ele entendeu o que o Paulo César estava falando, e vou te manifestar mais: poderia até ser uma frase feita por ele.”
Porquê ocorre desde os tempos de Erico —a neta Fernanda conta que o avô gostava de ouvir clássicos no último volume numa era pré-headphones, espalhando o som pela mansão—, a rotina de Luis Fernando tem muita música. “É um grande frequentador do YouTube, onde ouve muito jazz”, relata o fruto Pedro, cantor e compositor. O historiador tocava sax e integrava a margem Jazz 6.
Para facilitar a locomoção, o computador dele foi transferido do escritório no subsolo (sua “toca”, ao lado da do pai) para o do térreo. O historiador faz fisioterapia três vezes por semana, folheia o jornal Zero Hora pela manhã, vê TV, sobretudo notícias e futebol, “principalmente jogos do Inter ou quando tem campeonato europeu, aqueles jogos bons”, diz Lúcia.
É vasqueiro encontrar filhos de pais ilustres que reproduzam à fundura os feitos no mesmo campo de atuação. Luis Fernando é um desses poucos. Erico, responsável de uma saga familiar que atravessa 200 anos e retrata a formação do Rio Grande do Sul (a trilogia “O Tempo e O Vento”), naturalmente ostenta mais que o fruto a insígnia de clássico e tem maior identificação com o estado.
Coordenada pelo crítico Luís Augusto Fischer, professor titular de literatura brasileira da UFRGS, uma pesquisa recente via internet com 300 entrevistados (principalmente da dimensão das letras, mas não só, e a grande maioria nascida ou residente no RS) perguntou quais os três mais importantes livros de autores gaúchos de todos os tempos.
O responsável mais citado foi Erico Verissimo, com 231 menções, sendo 198 relativas a “O Tempo e O Vento” —ou ao conjunto porquê um todo (171) ou a “O Continente” e “Ana Terreno”, respectivamente o primeiro e mais popular livro da trilogia e um capítulo deste lançado à secção.
Em que pese a diferença de estilo, uma série de semelhanças une pai e fruto —não somente genéticas. Em suas memórias, Erico descreve o jovem Luis Fernando na segunda temporada da família nos EUA, entre 1953 e 1956: “(…) terminara o seu curso numa high school, aprendia a tocar saxofone com um professor (…) que parecia ter saltado das páginas de Dickens. O rapaz vivia às voltas com revistas especializadas em jazz e, interessado também em romances e ensaios de bons autores, lia às vezes até subida madrugada”.
Em 1958, Luis Fernando acompanhou Erico e Mafalda numa viagem a Portugal. O pai retrata o jovem adulto: “Era ensimesmado, retraído e soturno porquê eu fora na idade dele. Sua legalização, seu paixão eram-me tão necessários porquê o pão e o ar. Eu compreendia —e porquê!— que o trajo de ser fruto de um repórter publicado constituía para ele uma espécie de rótulo incômodo que teria de carregar colado à pele vida em fora”.
Ambos extremamente reservados, mais de ouvir que de falar, sempre preferiram se expressar por meio da escrita. “Ele até gostava de racontar uma relhistória”, relembrou Luis Fernando certa vez, “que uma vez nós fomos a Cruz Subida [terra natal de Erico, a mais de 300 km da capital], só ele e eu, de trem, e que na saída da estação de Porto Jubiloso ele teria comentado: ‘Tá um dia bonito, né?’. E na chegada a Cruz Subida eu respondi: ‘É’.”
Ao lembrar do incidente, em um documentário disponível na internet, o fruto dá uma rara risada e emenda: “É simples que não é verdade a história, era só para ele dar uma teoria de porquê eu falava pouco. Mas mostra porquê ele falava pouco também. Mesmo assim nossa relação era muito boa. Apesar de serem duas pessoas introvertidas, não muito falantes, nos dávamos muito muito”.
No campo literário, Fischer vê dois pontos de convergência entre pai e fruto. O primeiro é “um viés, digamos, anglo-saxão de texto: os dois escrevem para ser lidos, têm consciência de que estão escrevendo para o leitor”.
(Desde antes das viagens aos EUA, porquê um dínamo da atividade editorial no país —foi mentor e um dos pilares da editora Orbe de Porto Jubiloso— e um dos pioneiros da tradução literária, Erico publicou e traduziu incontáveis autores anglófonos. “Contraponto”, de Aldous Huxley, foi vertido por ele para o português em 1934, e as técnicas narrativas do romance do inglês depois foram emuladas no seu “Caminhos Cruzados”).
A segunda confluência, aponta Fischer, é que Erico e Luis Fernando “são excelentes caricaturistas, tanto de traço quanto de texto”. “Mesmo nos romances, o Erico com três linhas bota um personagem na tua frente com nitidez. Além de ser caricaturista mesmo, de riscar muito.”
Editora de Luis Fernando na Objetiva, Daniela Duarte ressalta a capacidade que tanto ele quanto Erico têm “de te colocar muito rápido dentro da história”. E observa que “são duas estrelas de primeira grandeza, o que é um negócio difícil de intercorrer [numa mesma família]”.
Os números falam por si. Segundo levantamento feito por Lucia Riff, agente dos Verissimos, a pedido da reportagem, Erico ultrapassa a marca de 8 milhões de exemplares vendidos e foi traduzido para 17 idiomas. Os principais best-sellers são “Olhai os Lírios do Campo”, “Incidente em Antares”, “Clarissa” e três volumes de “O Tempo e O Vento”: “O Continente”, “Um Perceptível Capitão Rodrigo” e “Ana Terreno” (os dois últimos são capítulos do primeiro editados porquê livros autônomos).
Luis Fernando já vendeu mais de 5,5 milhões de livros, com traduções para sete línguas. Lideram a lista “As Mentiras que os Homens Contam”, “Comédias da Vida Privada”, “Comédias para Ler na Escola”, “O Crítico de Bagé”, “Sexo na Cabeça”, “Os Espiões” e “O Clube dos Anjos”.
Uma vez que as efemérides em torno de Erico (os 50 anos de morte em 28 de novembro, os 120 anos de promanação em 17 de dezembro) vêm antes da de Luis Fernando (90 anos em 26 de setembro de 2026), as celebrações ao pai também precedem as do fruto.
Em outubro, a Companhia das Letras, que publica a obra de Erico desde 2004, lança, pelo selo Quadrinhos na Cia, uma versão em HQ de “Incidente em Antares”, com roteiro de Rafael Scavone, arte de Olavo Costa e cores de Mariane Gusmão.
Réplica do realismo mágico vernáculo, o romance lançado em 1971, no período mais violento da ditadura, é uma parábola política sátira ao autoritarismo. Mostra o impacto de uma greve de coveiros numa cidade fictícia —uma história de zumbis avant la lettre. Em 2023, já ganhara uma edição privativo coordenada por Sérgio Rodrigues. A adaptação no prelo se beneficia do trajo de que, nas palavras do editor Emílio Fraia, “talvez não exista na literatura brasileira um romance mais perfeito para ser desbravado em quadrinhos”.
Também neste semestre, sairão novas edições de “Ana Terreno” e “Noite”, com posfácios de Morgana Kretzmann e Ana Paula Maia, respectivamente.
Sobre o primeiro, comenta a editora e poeta Alice Sant’Anna, responsável pela obra de Erico na Companhia: “É uma história que se passa no século 18, mas sua atualidade surpreende. Fala sobre uma família muito machista, porquê era o padrão da idade, e sobre essa mulher que arruma uma força descomunal para fazer uma novidade trajetória”.
A editora diz que, até o final do ano, deverá reimprimir títulos da coleção de Erico hoje indisponíveis para venda, porquê “O Senhor Mensageiro”, “Gato Preto em Campo de Neve”, “Solo de Clarineta Vol 1” e “O Resto É Silêncio”, entre outros.
Para o ano que vem, o artista visual Eloar Guazzelli, craque em harmonizar clássicos da literatura para HQ, prepara uma versão de “O Tempo e o Vento” no formato.
Luís Augusto Fischer prepara uma edição da revista do dedo Parêntese dedicada a Erico, e o Sarau Elétrico, do qual é coorganizador, promoveu em julho a noite Verissimos, com leituras de trechos do pai e dos fruto por integrantes da família.
Neste mês, o Sesc-RS inaugurou, na Feira do Livro de Santa Cruz do Sul, um giro de leituras, debates e exposições em homenagem a Erico, que até dezembro passará também por Cruz Subida, Bento Gonçalves, Uruguaiana e outras. Um dos destaques da programação é uma palestra de Fernanda Verissimo, historiadora, tradutora e jornalista, sobre o avô.
Porquê Luis Fernando, Lúcia e os filhos moraram a maior secção da vida na mesma mansão de Erico e Mafalda, a neta primogênita guarda muita memória da convívio com o avô, e agora encabeça com os irmãos os esforços para disseminar ainda mais a obra dele, com prioridade para a ampliação do Pilha Literário Erico Verissimo —cuja maior secção está resguardo, em regime de comodato, no Instituto Moreira Salles— e projetos educativos.
Embora, porquê apontou Fischer, o sucesso de público tenha restringido o prestígio de Erico no envolvente acadêmico brasiliano, o responsável segue sendo tema de pesquisas cá e alhures. Na Universidade Harvard (EUA), onde fez doutorado em história e literatura neolatinas, a brasileira Maria Gatti acessou documentos inéditos do governo americano que mostram porquê Erico foi investigado pelo FBI em dois dos seus três períodos no país.
Trata-se de um dos temas mais sensíveis em relação ao responsável, cuja posição política sempre despertou paixões à direita e à esquerda.
Apesar de Erico ser identificado por esquerdistas porquê desempenado aos EUA, a pesquisa de Gatti mostra que ele “representou um duelo interpretativo [ao serviço de inteligência americano], porquê um pacifista que defendia a guerra, um crítico do capitalismo e da União Soviética, e um responsável preocupado com a influência excessiva da cultura americana no Brasil e com a influência insuficiente da cultura americana no Brasil”.
Um informe do FBI registrou que o romance “O Resto É Silêncio” poderia sustar material antiamericano. A suspicácia dos gringos foi alimentada pela polícia do Estado Novo, para quem Erico era comunista.
“É justo a anfibologia política do Erico Verissimo que leva a uma investigação tão sofisticada da obra dele no FBI, enquanto não precisavam de tanta leitura para interpretar autores francamente comunistas ou antiamericanos”, afirma Gatti.
Sua pesquisa trouxe à luz duas cartas de Erico a Ralph Dimmick, que o sucedeu porquê diretor do Departamento de Assuntos Culturais da União Pan-Americana em Washington. A primeira foi enviada em 1º de abril de 1964, quando se consumou o golpe militar, mas o brasiliano ainda não tinha certeza disso. “Cá estamos, a caminho da República Sindicalista de Jango Goulart, esse sinistro aprendiz-de-Getúlio. Não se sabe o que vai intercorrer nos próximos vinte minutos. Tudo é verosímil, inclusive alguma coisa de bom.”
Na segunda, em 2 de janeiro de 1969, pouco depois o AI-5, Erico se mostra desiludido. “Pelo que se vê, não verei mais democracia durante o tempo que me resta de vida, nem mesmo aquela paródia que sempre temos representado desde que mandaram o velho Pedro 2º para o exílio. Que fazer?”
Embora ao longo da vida tenha sempre se posicionado publicamente contra tiranias de direita e de esquerda, o rótulo de alguma coisa complacente com a ditadura impingido a Erico sobrevive até hoje. Foi ressuscitado em reportagem recente da Escritório Pública sobre escritores e editoras que apoiaram o regime militar.
No caso dele, a associação se deve a informações do livro “O Sigilo das Senhoras Americanas” (Editora Unesp), de Marcelo Ridenti, professor titular de sociologia da Unicamp. Erico esteve no ato de instauração da Associação Brasileira do CLC (Congresso pela Liberdade da Cultura) —contraponto americano/ocidental ao Recomendação Mundial da Silêncio, patrocinado pelos soviéticos—, em abril de 1958, e integrou o Recomendação Consultivo dos Cadernos Brasileiros, publicação da entidade.
Numa missiva enviada a um interlocutor identificado porquê Luderitz [possivelmente Ramos, parente de Cruz Alta], o repórter afirma, em março de 1965: “Continuo confiando no nosso Castelinho [Castello Branco, primeiro general-ditador], que tive o prazer de saber em Poços de Caldas, quando coronel. Mas às vezes acontecem coisas que me revoltam e eu tenho de soltar um protesto, muito embora sabendo —e porquê!— que já estaríamos todos mortos e enterrados se o Brizola tivesse proveito a paragem”.
Quatro anos depois, em abril de 1969, escreve ao mesmo destinatário que “seria muito pior se tivéssemos uma ditadura da esquerda extremista. Ou a volta do Jango e do Brizola, mas que diabo!, entre o preto e o branco existem muitas outras cores. O que mais me assusta é o ‘terror cultural’ (…). Mas se houvesse habilidade ou, melhor, justiça, bom tino, eles deixariam em sossego o setor cultural. É uma estupidez equiparar sátira construtiva com subversão. Estou desolado. Considero-me no exílio. Todo mundo anda assustado, sem saber o que lhe vai intercorrer amanhã”.
Para Ridenti, Erico “era um liberal muito crítico de Vargas e seus herdeiros, que considerava antidemocráticos”. “Não esperava que o golpe de 64 levaria a uma ditadura. Publicamente, creio que apareceu mais porquê crítico da ditadura, pois em diferentes momentos assinou manifestos contra a perseguição a intelectuais. E escreveu ‘Incidente em Antares’. Mas em privado aparece o suporte a Castello Branco”, comenta.
Na avaliação de Maria Gatti, “história é mudança no tempo. História intelectual também, simples, e caminha às vezes em compassos diferentes do resto dos ‘eventos históricos’ mais concretos. Fernand Braudel nos ensina isso… A geração do Erico, que vai de uma ditadura a outra, se remexe bastante naquelas duas décadas, quer manifestar, muda de teoria, com as mudanças do tempo. Pelo menos os mais inteligentes (e menos orgulhosos)”.
De trajo, a partir de 1970, Erico amplifica os sinais de repulsa à ditadura, assinando manifestos contra a increpação —o que o reaproxima do grande colega comunista Jorge Querido, tal qual viés não impediu uma troca afetiva e epistolar por décadas— e recusando o título de doutor honoris pretexto outorgado pela UFRGS em protesto a perseguição de alunos e professores.
Em vez do “liberal” usado por analistas porquê Ridenti, Erico definia-se porquê um “socialista democrático” ou alguém “dentro do campo do humanismo socialista, mas —note-se— voluntariamente, e não porquê um prisioneiro”.
Considerava que “Stálin e em certos casos até mesmo Lênin deturparam as teorias de Karl Marx” e que “a dialética marxista é inseparável de seu humanismo. Segundo Marx, uma sociedade não pode ser livre se todos os indivíduos que a compõem não forem também livres”.
Em conferência nos EUA em 1955, quando era diretor da União Pan-Americana, explicitou sua oposição ao capitalismo porquê padrão às nações pobres do continente. “Penso que seria um triste erro fazer nossos países seguirem a trilha dos Estados Unidos […]. Espero que um dia possamos inferir um tipo de socialismo cristão moderado, pleno de liberdade social. Para esse termo, é necessário que os raros felizes desistam daquilo que constitui luxo, para que a maioria possa ter o forçoso.”
E aconselhou: “A primeira coisa que devem entender é que precisam pensar duas vezes antes de invocar um varão de Vermelho. Muitos intelectuais em nossos países foram rotulados de comunistas porque desejam proporcionar uma vida melhor aos menos favorecidos, porque falaram ou escreveram contra a ditadura e a vexação em seus países ou contra a pressão de trustes estrangeiros. Os senhores precisam olvidar as vantagens imediatas e aprender quem são seus verdadeiros amigos”.
De todo modo, é quase manifesto que a temperança política tenha afetado a avaliação sátira da obra de Erico, assim porquê a requisito de best-seller e sua vocação de “contador de histórias”, frase que ele mesmo usava para se subestimar.
Considerava medíocres os romances da sua primeira temporada (“escritos unicamente em tarde de sábado”) e reconhecia que o que veio a partir de “O Tempo e O Vento/O Continente”, publicado em 1949, era “bastante melhor, mas, que diabo!, pouca gente […] se dá ao trabalho de revisar opiniões antigas e alheias”.
É quase unânime que a saga da família Terreno Cambará, uma das influências de García Márquez para redigir “Centena Anos de Solidão”, é a obra-prima de Erico. Antonio Candido, patrono dos críticos brasileiros, opinou que “O Continente” “é um dos grandes romances da literatura brasileira”.
As novidades quanto a Luis Fernando começam com o lançamento, até o final do ano, de uma crestomatia das “Comédias da Vida Privada”, com crônicas selecionadas de três volumes anteriores, dois deles hoje fora de catálogo.
No prefácio à novidade edição, o cineasta Jorge Furtado, que em 1994 adaptou algumas dessas histórias para uma série de TV e criou o nome hoje consagrado, escreve que Luis Fernando é seu repórter brasiliano predilecto, pois nenhum outro (“incluindo Machado de Assis, Guimarães Rosa ou Drummond”) lhe proporcionou tanto prazer na leitura e o elogia porquê “um dos maiores dialoguistas” que conhece, “ao lado de Harold Pinter, Nelson Rodrigues, Rubem Fonseca, Millôr, Billy Wilder, Domingos Oliveira, Tennessee Williams”.
Leitor do historiador desde a meninice em Porto Jubiloso, quando Luis Fernando escrevia na prensa gaúcha, Furtado se perguntava (ainda nos anos 1970): “Porquê alguém podia ser, ao mesmo tempo, tão profundo e tão engraçado? Porquê alguém podia redigir tão muito todos os dias?”.
Para o ano que vem, está programada uma seleção das crônicas mais recentes do repórter, entre o final da dezena passada e o início desta —ele publicou nos jornais O Orbe e O Estado de S.Paulo até janeiro de 2021, quando teve o AVC. A incumbência da missão, o fruto Pedro também cataloga material para uma novidade edição de “As Cobras”, ainda sem data de publicação.
É um trabalho de formiguinha. Embora ainda haja muita coisa na mansão da família, a maior secção do montão de Luis Fernando foi transferida à Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos, no RS). Mas, segundo a família, o material está desorganizado, diferentemente do que ocorre com o de Erico no IMS.
A falta de catalogação atrapalha saber, por exemplo, se há inéditos do responsável. A filha Fernanda menciona uma verosímil peça (uma comédia) que o pai escreveu para o ator Paulo Autran. Lúcia, a esposa, também cita uma peça, mas que teria sido escrita para Tônia Carrero (“se passava num spa, na idade em que começou a voga dos spas”). Elas não sabem se são o mesmo texto nem onde estaria o original.
Seja porquê for, é quase manifesto que a peça (ou as peças) sumida(s) nasceu/nasceram na mansão da rua Felipe de Oliveira. Mais do que somente o lugar onde foi escrita a maior secção da obra de Erico e Luis Fernando, a mansão se constituiu, ao longo do tempo, em espaço de sociabilidade, formação e troca intelectual.
Dois dos principais estudiosos da obra do patriarca da família, Maria da Glória Bordini —primeira organizadora do Pilha Literário Erico Verissimo—, e Flavio Loureiro Chaves —que coordenou o segundo volume, póstumo, de “Solo de Clarineta”, as memórias do romancista— chegaram a ele meio por façanha, porquê leitores fazem até hoje.
“Durante a minha graduação [em letras em meados dos anos 60], eu visitava a mansão do Erico com um grupo de colegas e professores que tinham relações com ele”, diz Bordini, professora aposentada da UFRGS e ex-professora titular da PUC-RS.
“São coisas que a gente faz quando tem 20 anos, e numa Porto Jubiloso dos anos 60. Eu fui lá e bati na porta: ‘Palato muito de sua literatura e queria conhecê-lo’. E aí nos entendemos muito muito. Naquele dia saí de lá com um réplica de ‘Ana Terreno’ autografado por ele”, contou Chaves, professor titular reformado da UFRGS.
Os dois concordam que Erico aproveitava a interação porquê material de geração literária. “Ele não falava demais, mas observava muito os seus visitantes. Acho que, de certa maneira, se nutria da assombro que as pessoas tinham por ele e isso redundava em novos personagens, em detalhes das obras”, observa Bordini.
“Eu ficava horrorizado com aquilo, porque não sou um espécime muito sociável. [Ele dizia] ‘Ah, conversar, saber pessoas’. Depois eu entendi que esse desfile da fauna humana alimentava a imaginação, a ficção dele”, acrescenta Chaves.
Numa entrevista de Erico à sua amiga e comadre Clarice Lispector em 1967, a autora de “A Hora da Estrela” —que considerava o colega “uma das pessoas mais gostáveis” que conheceu na vida— lhe perguntou: “Porquê é que você se dá com a glória? Eu soube que o ônibus de turistas em Porto Jubiloso tem porquê secção do programa mostrar sua mansão”.
“Essa história do ônibus me encabula muito. Mas eu cultivo a virtude da paciência. E detesto decepcionar os que me procuram”, respondeu Erico.
“Minha mansão vive de portas abertas. Há noites em que temos de 10 a 20 visitantes inesperados. Todas as semanas recebo dezenas de estudantes que querem entrevistar-me […]. Pessoas com casos sentimentais me procuram para desafogar. Empresto-lhes o ouvido, o olho, e não vasqueiro uma afetuosa atenção. Frequentemente consigo ajudar realmente um ou outro ‘paciente’. E isso me alegra.”
