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Cavalera: marca quer retomar lugar na moda com nova loja
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Cavalera: marca quer retomar lugar na moda com nova loja – 07/07/2026 – Ilustrada

Era uma visão generalidade nas ruas de São Paulo entre o final dos anos 1990 e meados da dezena de 2010 —uma águia de duas cabeças estampada em camisetas, moletons e bonés. O logotipo da Cavalera, à quadra a mais importante marca de tendência de rua brasileira, vestia jovens e recém-chegados à idade adulta ligados à pulsação da cidade.

Com uma pegada rock’n’roll e estampas irreverentes —a exemplo de uma mulher seminua numa camiseta da rua Augusta ou capas de discos em que o nome da filarmónica era substituído pelo da marca—, a Cavalera trouxe frescor para a tendência brasileira antes da explosão da internet e das redes sociais.

A grife cresceu bastante, teve lojas em diversos shoppings e uma na rua de luxo Oscar Freire, mas fechou todos os pontos de venda em 2021, num momento em que sua influência na tendência e sua preferência entre os consumidores estava em queda. Suas camisetas divertidas não interessavam mais aos jovens, que se voltaram para novas marcas nacionais de streetwear.

Agora, a Cavalera ensaia uma volta à cena com a lhaneza de uma loja no bairro de Pinheiros. Isto depois de desfilar uma vez em 2024 e, discretamente, manter uma arara de roupas dentro da barbearia da marca na Vila Madalena. Sim, dá para encontrar as camisetas que faziam a cabeça da galera no ponto de venda recém-inaugurado na rua Fernão Dias, mas o foco é outro.

Nos cabides estão peças com mais design, confeccionadas em tecidos encorpados, em cores sólidas uma vez que preto, branco e cinza, sem ou com pouca estampa. A atenção está no galanteio e no caimento das camisetas, moletons, jaquetas e calças de alfaiataria, todas com pegada minimalista. Sai a estridência do vestuário jovem, entra a vontade de se vestir com mais sobriedade.

Alberto Hiar, o possessor e diretor criativo da marca, diz que queria propor um pouco novo. “O varão é muito essencial, não tem tanta novidade. Você vai numa loja e parece que aquela camisa está há 300 anos na mesma vitrine. Ele tem temor de ser arrojado”, afirma, ao comentar por que criou a risca que labareda de caviar, feita com tecidos importados da Turquia e da China e preços que podem ultrapassar os três dígitos.

Uma vez que os tecidos da novidade coleção são grossos, as peças podem receber costuras e detalhes avantajados que malhas mais finas não aguentam, além de ficarem estruturadas no corpo. É um tipo de roupa que o mercado brasiliano ainda não consome tanto, argumenta Hiar, acrescentando que tem produzido uma tiragem baixa, entre dez e 20 unidades, de cada uma das peças novas.

Na coleção caviar a loja da Cavalera oferece, por exemplo, uma camiseta de manga curta com fechos nas mangas, um colete com dobraduras na segmento da frente e uma jaqueta de epiderme estilo motoqueiro de vista desgastada. A segmento mercantil —e de preços muito mais acessíveis— conta com calças jeans e camisetas estampadas da filarmónica Charlie Brown Jr., além de uma risca da Despensa do Mundo.

Se pode ser reptante vestir uma gramatura mais grossa no calor do Brasil, é indumento que o streetwear lugar tem se voltado, há alguns anos, para roupas mais pesadas, a exemplo das camisetas da Pace e da Carnan, que caíram no palato dos paulistanos antenados em tendência —e aparentemente não tão preocupados com o conforto térmico.

Afora a tendência descolada, a Cavalera fez história com suas apresentações em lugares incomuns, uma vez que uma em que os modelos desfilaram nas margens do poluído rio Tietê, vistos por convidados dentro de um paquete na chuva. “A tendência é o que você convive no seu dia a dia. Eu não tenho os museus, os castelos que têm na Europa. Eu tenho o rio Tietê, o museu do Ipiranga, o Minhocão”, diz Hiar, em referência a lugares emblemáticos de São Paulo. “Isso cá é um caos urbano.”

Pouco antes da pandemia, com muito menos relevância na tendência, a Cavalera passou a enfrentar dificuldades financeiras e, durante a Covid, teve de fechar todas as lojas. Foi obrigada a pedir recuperação judicial para se reorganizar. Segundo Hiar, o projecto de recuperação está em vias de ser cumprido e as dívidas, incluindo as trabalhistas, foram quase todas pagas.

Nesta novidade temporada, o repto é manter o interesse do público num cenário muito mais competitivo do que quando a marca surgiu, impulsionada pela cultura do skate e pelo sobrenome do ex-baterista do Sepultura, Iggor Cavalera, que foi sócio no prelúdios. Atualmente, o streetwear brasiliano tem nomes de peso, uma vez que a Piet, e etiquetas com clientela cativa, mas sem loja própria, a exemplo de Egho e Quadro Creations.

Quem compra Cavalera hoje? “O cliente é um fã da marca”, diz Hiar, lembrando que a águia de duas cabeças tem história e um público que a acompanha desde o prelúdios, há mais de três décadas. “Com 15, 20 anos, a pessoa quer mostrar a marca. Com 30, já casou e está trabalhando, não pode estar com uma estampa grande. Quer ter a marca, mas com um pouco mais simples. É o que acaba vendendo mais.”

Folha

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