Chatbots colocam travessão sob suspeita na escrita 14/07/2025

Chatbots colocam travessão sob suspeita na escrita – 14/07/2025 – Tec

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É bom já avisar, esta reportagem usa travessões —e não, não foi escrita por um robô. Com a popularização dos modelos de perceptibilidade sintético, tem se disseminado a crença de que essa pontuação seria um sinal —sem trocadilhos— de que um texto foi escrito por um chatbot.

Qualquer pesquisa na internet mostra rapidamente usuários que julgam ter desvelado a marca da besta deixada pelos robôs. E o travessão não está sob suspeita só na língua portuguesa. Uma procura simples mostra debates semelhantes em espaços em inglês, espanhol ou galicismo.

No Linkedin, onde é verosímil medir o pulso do mundo corporativo, o tema tem tomado as conversas. Há implicações práticas, enfim: um recrutador, por exemplo, precisa saber se um candidato a certa vaga escreveu mesmo sua missiva de apresentação. Um professor também não pode autenticar um aluno que fez o responsabilidade de vivenda no ChatGPT.

“Essa história está me fazendo mudar minha forma de ortografar, estou trocando travessão por parênteses, que eu nem paladar tanto; não quero parecer um robô”, ri o professor Evandro L.T.P. Cunha, coordenador do Núcleo de Linguística Computacional da Universidade Federalista de Minas Gerais (UFMG).

O dilema tem feito surgirem diversas ferramentas que prometem detectar a mão invisível dos bots por trás dos textos; a plataforma Grammarly, por exemplo, famosa por facilitar na escrita e revisão de textos em inglês, lançou uma delas. Mesmo assim, não é tão simples identificar um texto feito por IA.

“Há ainda muita margem de erro nessas ferramentas”, diz Cunha. “Se eu coloco na instrumento século textos meus, século textos seus e depois peço para identificar de quem é um novo texto, a chance é boa de ela assestar. Mas perguntar de maneira universal se um texto veio do ChatGPT já não funciona tão muito.”

A dificuldade já tem levado professores a mudar a rotina de avaliações dos alunos.

“Está todo mundo desistindo de trabalhos para serem feitos em vivenda, muitos estão migrando para avaliações orais”, diz o tradutor e noticiarista Caetano Galindo, que ensina história da língua portuguesa na Universidade Federalista do Paraná e publicou o livro “Latim em Pó” (Companhia das Letras).

“Conseguimos perceber algumas marcas [dos robôs], inclusive aquilo que estão chamando de alucinações: o texto de repente vai em direções estranhas, faz concatenações esquisitas. E isso denota também a precariedade dos modelos gratuitos de perceptibilidade sintético.”

Mas e o travessão? Muito, esse é sim um sinal de pontuação usado por humanos e, portanto, não é prova de autoria robótica. O professor Evanildo Bechara, morto em maio, lembra em sua “Moderna Gramática Portuguesa” que ele serve para substituir vírgulas, parênteses, colchetes, assinalar uma sentença intercalada, indicar uma mudança de interlocutor num diálogo —ou denotar uma pausa poderoso.

Porém, não é uma hipótese de todo disparatada ao menos permanecer de olho nos travessões. Porquê não estão facilmente disponíveis na maioria dos teclados de computador, que privilegiam outros sinais de pontuação, talvez tenham se tornado mais comuns em textos de quem escreve profissionalmente.

“Se você treina os robôs com textos de Machado de Assis, eles vão tentar ortografar uma vez que Machado. Porquê são treinados com textos profissionais, com enormes quantidades de textos jornalísticos, pode ser que tendam a certas características. E o travessão parece ser um pouco que caracteriza o texto profissional”, afirma Cunha, ressaltando que essa é somente uma hipótese.

As próprias empresas de IA já buscam soluções para estabelecer a autenticidade da escrita. A OpenAI, dona do ChatGPT, por exemplo, trabalha há anos em uma instrumento que deixaria nos textos um rastro invisível aos humanos, mas identificável por outros robôs. Seria um pouco semelhante a um protótipo criado por pesquisadores da Universidade de Maryland, que propuseram uma espécie de marca d’chuva “impressa” no vocabulário que os bots escolhem.

Enquanto esse dia não chega, o olhar de quem escreve por ofício ainda parece um bom filtro para identificar as pegadas de um chatbot. A escritora Noemi Jaffe, autora de “Escrita em Movimento” (Companhia das Letras), por exemplo, é uma usuária de perceptibilidade sintético —e já consegue indicar cacoetes de estilo desses robôs.

“A resposta do ChatGPT é sempre previsível. No texto literário você tem o contingência, a quebra de expectativa, a indecisão, o responsável se perde num pensamento… O robô faz um texto geralmente mediano; muito escrito, mas sem nenhuma perdão.”

Uma certa atitude servil dos bots também influenciaria a escrita deles. Porquê parecem querer deleitar, às vezes desenvolvem demais ideias, escrevem de jeito excessivo, diz Noemi, usuária principalmente do DeepSeek, protótipo chinês que mostra ao usuário uma vez que está pensando antes de responder.

“Presto atenção nos pensamentos dele. Às vezes ele não sabe o que expressar, mas não diz que não sabe. Nunca quer te decepcionar. E na literatura não é assim.”

Folha

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