Chay Suede estrela peça sobre fama e identidade 21/04/2026

Chay Suede estrela peça sobre fama e identidade – 21/04/2026 – Mise-en-scène

Celebridades Cultura

O teatro, por vezes, é o lugar onde um rosto familiar se torna um esfinge. Em “A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Roobertchay”, o que vemos não é a celebração de um ídolo da televisão, mas sua metódica desconstrução. Sob a direção de Felipe Hirsch, Chay Suede entra em cena para sabotar a própria imagem pública em uma operação de subida precisão intelectual e estética.

A peça marca o reencontro de um trio que é a espinha dorsal da renovação cênica brasileira: Hirsch, a cenógrafa Daniela Thomas e o produtor Luque Daltrozo. Juntos, eles transformam a biografia de Suede em um “pseudo-documentário” fragmentado, onde a verdade é exclusivamente uma das muitas possibilidades da invenção. O título, um meneamento elegante ao Tristram Shandy de Laurence Sterne, já anuncia o tom: uma narrativa que se perde em digressões, que prefere a interrupção ao fluxo e o vazio à completude.

No palco, a risco dramatúrgica — lapidada pelo tradutor e noticiarista Caetano W. Galindo — organiza-se em doze fragmentos, uma vez que os Trabalhos de Hércules de um herói improvável. A puerícia capixaba, os negócios excêntricos do pai, os shows vestidos de estrangeiro em shoppings: tudo é proeminente a uma linguagem formal, quase aristocrática, que cria um curto-circuito delicioso com a natureza popular dos relatos. É cá que Hirsch e Galindo tocam a legado de Machado de Assis; há um Brás Cubas latente na ironia com que Roobertchay narra as próprias lacunas.

A cenografia de Daniela Thomas e Felipe Tassara é, por si só, um personagem. Uma plataforma vertical recebe projeções do Estúdio Radiográfico, mas o que vemos é um quebra-cabeça incompleto, com peças faltando. É a tradução visual perfeita para a memória: um território de falhas e borrões. Nesse espaço, o figurino de Eliana Liu faz o ator oscilar entre o terno sóbrio do narrador e uma fantasia de tubarão, lembrando-nos que a identidade, para o varão público, é uma performance ininterrupta.

O que mais surpreende, no entanto, é a contenção de Suede. Publicado pela viveza física nas telas, cá ele é mantido em uma imobilidade quase estatuária. Hirsch obriga o ator a incumbir exclusivamente na termo e no domínio vocal. Suede responde com uma maturidade vocal impressionante, manejando o texto denso de Galindo com uma economia interpretativa que só se rompe no final. Ele não interpreta a si mesmo; ele interpreta o “duplo” que a renome construiu, confrontando o narcisismo e a mercantilização da imagem com uma lucidez cortante.

“A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Roobertchay” é um espetáculo que oferece um espelho para o nosso tempo, onde a autenticidade tornou-se uma moeda volátil. Ao declarar que “tudo é patranha, menos o que parece patranha”, a peça nos convida a duvidar do relato enquanto nos maravilhamos com a venustidade de sua construção. É um teatro de ideias que, ao usar a cultura de tamanho uma vez que matéria-prima, consegue produzir uma sátira sofisticada e profundamente política sobre o que significa ser visto no século 21.

Três perguntas para…

… Caetano W. Galindo

Existe um contraste linguístico entre o tom erudito do texto e as experiências populares narradas. Uma vez que você trabalhou essa tensão para que a linguagem não soasse uma vez que um adorno, mas uma vez que uma utensílio de estranhamento?

A linguagem rebuscada, meio antiquada e sintético da peça foi uma teoria do diretor Felipe Hirsch na qual embarcamos desde cedo. Ancoramos essa embocadura no livro “A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy” de Laurence Sterne, que nos serviu para evadir da tendência confessional, hoje muito possante no teatro e na literatura.

Usamos esse “mascaramento de lantejoula” para gerar um humor que deriva exclusivamente do contraste: fazer uma piada de quinta série enquanto se fala um português do século 18 ou 19 ganha um efeito totalmente novo. Acabou sendo uma saída produtiva que nos permitiu aventurar coisas que não faríamos em uma linguagem direta, pois soariam óbvias demais.

A peça é descrita uma vez que um “pseudo-documentário”. Em que medida a sua dramaturgia se preocupa com a verdade histórica de Chay Suede e onde ela se torna deliberadamente uma “patranha verdadeira”?

Entrevistamos o Chay por oito horas, ouvindo toda a sua trajetória, e decidimos nos concentrar na vida dele antes do sucesso. Pegamos elementos coloridos da biografia e, embora muitas passagens pareçam improváveis, elas são reais. Ao mesmo tempo, misturamos elementos do livro de Sterne e invenções próprias. Chegou um momento em que já não distinguíamos o relato original da nossa memória ou do libido de confiar em certas coisas.

Esse descolamento da verdade documental era o que nos interessava. Uma vez que se trata de uma notoriedade, pareceu interessante fingir que entregamos a verdade, mas de forma tão descaradamente exagerada que soa uma vez que patranha. No entanto, estamos fornecendo muita informação real, protegida por esse véu do barroco e do ridículo.

Felipe Hirsch é espargido por uma encenação visualmente rigorosa. Uma vez que é o processo de escrita sabendo que o texto será “atropelado” ou amplificado pela cenografia ativa de Daniela Thomas?

Eu venho do mundo dos livros e das letras, onde você concebe, executa e publica uma obra, e a colaboração de terceiros — uma vez que editores e revisores — funciona exclusivamente uma vez que “adjetivos” para o que você já pretendia fazer. No teatro, o processo é fascinante justamente porque as coisas não funcionam assim. O texto escrito é exclusivamente o primórdio, um substância da sopa.

Enquanto na literatura os outros temperam o seu trabalho, no teatro é você que se torna um substância. O diretor, os atores, a cenografia, a iluminação e a performance de cada noite transformam a peça, fazendo com que todos se dissolvam um pouco nesse caldo ou, uma vez que diz o Felipe, passem a inventar um mosaico onde as peças formam alguma coisa maior do que cada um individualmente.

Nesse caso específico, houve dados a mais: o texto não é integralmente meu. Ele surgiu de uma longa série de conversas com o Chay e com o Felipe, onde fomos elaborando e decidindo o caminho. Só depois escrevi uma primeira versão, que o Felipe passou a ler, comentar e modificar. Sabíamos que esse resultado final seria multiplicado pelas intervenções da Daniela Thomas e do pessoal do Radiográfico, que produziram o material em vídeo a partir de ideias que circulavam entre toda a equipe — do Chay aos assistentes de direção.

É um somatório de competências e criatividades onde o trabalho individual é potencializado pelo grupo. Essa felicidade de jogar em um time com esse intensidade de conhecimento, onde o resultado final não pertence nem deriva exclusivamente de ninguém, é o que torna o processo realmente possante e bonito.

Teatro Cultura Artística – rua Nestor Pestana, 196 – Consolação, região mediano. Sábado, 21h30. Domingo, 19h30. Até 3/5. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: 14 anos (menores de 14 anos exclusivamente acompanhados dos responsáveis legais). Ingressos: R$ 110 (plateia mediano) em ticketmaster.com.br

Folha

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