Numa passagem pelo Brasil há dez anos, Chimamanda Ngozi Adichie disse que o país tinha dificuldade em assumir sua identidade racial —via poucos negros nos lugares que frequentou uma vez que convidada.
Agora a nigeriana afirma ter notado um progressão na percepção do país sobre a própria identidade. Mas diz que “o racismo nunca deveria ter realizado, portanto você não ganha um biscoito por reduzi-lo”.
Uma das mais relevantes autoras da língua inglesa hoje, Chimamanda esteve no Brasil para vulgarizar o novo romance “A Narração dos Sonhos”, sua primeira ficção em mais de uma dezena.
A escritora teve uma rotina digna de maratonista ao longo da última semana, se deslocando entre Rio e São Paulo para participar de eventos uma vez que a Bienal do Livro e o ciclo Fronteiras do Pensamento, quando autografou livros até quase meia-noite da segunda-feira (16).
Ao se desculpar por parecer abatida na tarde do dia seguinte, durante a entrevista à Folha no hotel onde ficou hospedada, ela brincou que não bebia moca. “Logo não há zero para me ajudar [a despertar].”
No evento da última segunda, Chimamanda recusou o rótulo de escritora feminista, por confiar que ele atribui ideologia a suas obras, alguma coisa que “dilacera o sublime da literatura”. A nigeriana diz que é preciso possuir liberdade completa para o trabalho criativo, apontando que autores muitas vezes não escrevem os livros que realmente querem, hoje em dia, por temor de serem lidos uma vez que ofensivos ou preconceituosos.
“As pessoas não estão mais dizendo o que realmente pensam em assuntos uma vez que raça e imigração. Dizem o que acham que é o manifesto, depois se viram e votam no Trump.”
Um tanto enfatizado sobre ‘A Narração dos Sonhos’ é que a sra. começou a ortografar depois a morte de sua mãe e seu pai. Também é seu primeiro romance depois de se tornar mãe. O que mudou?
Minhas frases estão mais longas. A maternidade me mudou, muda qualquer mulher. Quando engravidei, senti que meu cérebro não estava funcionando, que me tornei uma estranha para mim mesma. Eu não conseguia ortografar e continuei sem conseguir por muito tempo. Não sabor da sentença “bloqueio criativo”, mas foi o que tive.
Depois, testar a perda dos meus pais me mudou drasticamente, e também meu trabalho. Logo, há um tipo de atraso. Eu não estou mais interessada em seguir regras, porque o luto faz você perceber que qualquer coisa pode sobrevir a qualquer momento.
Há um tipo de… Não é imprudência, mas disposição para fazer mais. Aliás, uma segmento de mim sempre amou o maximalismo, mas, porque fui para uma escola de escrita americana, segui por um tempo o minimalismo. Superei isso.
A sra. afirmou no Fronteiras do Pensamento que desumanizamos as pessoas quando as reduzimos a uma única coisa, mas é difícil desumanizar alguém cuja história é conhecida. Que indivíduos ou histórias quer humanizar com sua escrita?
Espero humanizar todos sobre os quais escrevo, mas neste romance espero que os leitores vejam a humanidade de uma mulher que foi abusada sexualmente, por meio da minha personagem Kadiatou. Ela foi inspirada em uma pessoa real [a guineense Nafissatou Diallo].
Quando mulheres passam por esse tipo de traumatismo e isso se torna público, as pessoas a veem unicamente uma vez que alguém que foi agredida sexualmente e esquecem que são seres humanos, que sonham e riem.
Fiquei impressionada com o quanto a cobertura midiática da agressão sexual que ela sofreu era carente de humanidade. Ela se tornou unicamente a pessoa agredida e todo o resto era negativo. Foi acusada de ser uma prostituta. Não lhe foi permitido ser humana.
Há um conclave no seu livro que impacta a vida das personagens, e sua obra foi lançada próximo a um conclave na vida real. O que acha da Igreja hoje?
Fui criada uma vez que católica e, quando era moçoila, amava a igreja, a missa, os dramas. Mas falar sobre religião requer dificuldade e nuances. Essa religião foi imposta às pessoas. Na África, veio de mãos dadas com o colonialismo. As pessoas tinham sido colonizadas e, se quisessem proceder no novo mundo, era melhor se transmutar. Meu avô foi da primeira geração Igbo a se tornar cristã.
Ao mesmo tempo, as pessoas pegaram o catolicismo e fizeram com ele o que quiseram. Se você vai à missa em uma pequena vila na Nigéria e em outra vila na França, é muito dissemelhante.
Por isso tenho um tipo de reverência cético pela religião. Ela pode trazer conforto, mormente em um país sem aproximação a saúde e com uma instrução precária, uma vez que vejo na Nigéria.
Mas existem denominações que exploram as pessoas. Nunca acreditei que cristianismo e riqueza deveriam caminhar de mãos dadas, mas isso acontece. O verba se torna alguma coisa que Deus te dá, não importa se Jesus não era fã de verba.
Qual sua relação com a religião?
Agora me descrevo uma vez que uma pessoa que foi criada uma vez que católica. Vou à missa às vezes, estou criando meus filhos uma vez que católicos e estou feliz com o novo papa [Leão 14], porque ele parece ser humano.
Estava muito interessada em quem seria o papa e, quando ouvi pela primeira vez que ele era americano, fiquei horrorizada. Há alguma coisa muito bélico e autoindulgente no americanismo. Os americanos não acham que deveriam saber sobre o resto do mundo porque têm muito poder.
Minha preocupação era que o papa fosse assim, mas não é. É maravilhoso saber que ele parece estar consciente de que oriente é um empreendimento global. Ele passou tempo no Peru, é cidadão peruviano e em seu primeiro exposição não falou inglês. Adorei. É um bom sinal.
Nos últimos anos, a polarização política se acentuou e os Estados Unidos parecem estar mais violentos. Basta olhar para o homicídio de uma deputada estadual democrata há poucos dias. Uma vez que não sentir que a guerra pelo diálogo entre pessoas diferentes está perdida?
Não está. Há muitas pessoas nos Estados Unidos que não apoiam oriente governo, que não acham que isso é o que o país deveria ser. O presidente [Donald Trump] não venceu por uma grande margem. Não é uma vez que se os Estados Unidos coletivamente decidissem que oriente é o caminho que quer seguir.
Logo, não acredito na teoria de desistir. É importante manter a teoria de que o que importa é justiça, liberdade, autonomia e honra. Essa loucura vai passar.
No livro, a personagem Chia conta sobre uma editora que sugere mudar sua descrição de ‘escritora africana’ para ‘negra’. Ela sente que isso não reflete sua experiência uma vez que nigeriana. Uma vez que a sra. percebe a identificação racial em sua própria vida?
Sou uma mulher negra, mas não cresci com um tino racial. Uma vez que nigeriana, cresci com um tino étnico, pensando em mim uma vez que uma pessoa Igbo. Até ir para os Estados Unidos, não pensava em raça, em ser negra. Isso foi um aprendizagem.
Politicamente, acho importante ter candidatos ocupando cargos porque são negros e não me desculpo por isso, porque ao longo da história americana houve ação afirmativa para pessoas brancas.
Todos experimentamos o racismo, mas as histórias são diferentes. Chia está escrevendo um livro de viagem e tem um passaporte nigeriano. Se ela fosse afro-americana, não teria que mourejar com dificuldade em obter vistos ou ser tratada de forma insultante em aeroportos. A realce é uma forma de questionar essa teoria de que preto é uma coisa única nos Estados Unidos, porque não é.
Quando a sra. veio ao Brasil há tapume de dez anos, disse que estávamos negando nossa identidade racial porque não viu pessoas negras nos lugares onde esteve, mesmo que tenhamos a maior população negra do mundo depois da Nigéria. Sua percepção mudou?
Mudou um pouco, mas ainda há muita coisa não resolvida quando se trata da negritude no Brasil. Pensando objetivamente, é muito chocante que um país tenha uma população tão grande formada por pessoas de determinada raça e isso não se reflita nas imagens populares desse país.
A publicidade nos diz o que um país aspira. Há dez anos, eu via menos pessoas negras na publicidade brasileira. No aeroporto, olho as revistas, ligo a TV e vejo que há um pouco mais, o que suponho ser um progresso. Mas nunca acreditei em comemorar esse tipo de progresso.
Em “Americanah”, uma personagem minha diz que o racismo nunca deveria ter realizado, portanto você não ganha um biscoito por reduzi-lo. Concordo com ela.
A sra. conversou com Taís Araujo na Bienal e conheceu Conceição Evaristo. Viu a possante reação da povo quando Conceição foi apontada [ela estava na primeira fileira da mesa de abertura com as duas]. Isso diz alguma coisa sobre a evolução de nosso entendimento sobre nossa identidade também?
Não tenho nenhum biscoito na minha bolsa [risos].
Suponho que sim. Estou quase terminando de ler “Ponciá Vicêncio” e me perguntei uma vez que eu não sabia zero sobre Conceição Evaristo, porque quando vim há dez anos ninguém me disse para lê-la. Suponho que isso seja progresso, mas às vezes nos parabenizamos pelos pequenos passos que demos e esquecemos que ainda há um longo caminho a percorrer. Isso também acontece nos Estados Unidos.
Os brasileiros não negros parecem estar muito mais conscientes sobre o quão importante é falar sobre a injustiça que os negros enfrentam no Brasil. Todo movimento de justiça precisa racontar com os membros do grupo que se beneficia do sistema, isso é importante para que o progresso real aconteça.
E o que achou do livro?
É tão bonito. Eu achei muito comovente. Senhor sua linguagem, alguma coisa que está se tornando mais importante para mim. Ficção para mim é cada vez mais linguagem e psicologia, e achei a dela muito formosa.
A sra. disse em uma entrevista que os homens no livro são idiotas, mas que nem todos os homens são idiotas. Sua narrativa traz uma masculinidade humanizada. Um varão pode ser idiota sem intenção?
Eu disse isso? Talvez não tivesse dormido muito [risos]. A questão é que vemos esses personagens através do ponto de vista das mulheres. E me inspiro em diversas pessoas para edificar meus personagens, portanto são familiares.
Mas acho que sim, os homens frequentemente são idiotas sem saber que são. Não digo isso para desculpá-los. As mulheres são sortudas, tanto na biologia quanto na maneira uma vez que são criadas, por terem mais empatia e serem sensíveis. Em muitas culturas homens são chamados de “maricas” se forem sensíveis. Isso razão problemas.
Uma vez que interessada nos direitos das mulheres e meninas, acredito que também devemos pensar sobre os homens e meninos. Não basta manifestar a eles o que não fazer e o que é incorrecto, é importante falar sobre o que podem fazer. Falar sobre isso em determinados círculos liberais é pedir para ser ignorado e silenciado.
A sra. disse que muitos jovens não estão escrevendo os romances que querem porque têm temor das repercussões e de talvez ofender alguém. Pode ser lido uma vez que uma espécie de aprovação de que os escritores são livres para serem intolerantes ou preconceituosos em sua ficção.
O problema em manifestar que você não deveria ortografar alguma coisa porque é preconceituoso é que precisamos questionar quem está definindo “preconceito”. Se um americano preto fala sobre racismo, a direita dirá: “você que é racista”. Porque para eles falar sobre racismo é preconceituoso.
Logo, deve possuir liberdade completa para o trabalho criativo. A resposta para uma pessoa que escreve alguma coisa preconceituoso é que outras pessoas escrevam outras coisas.
Quando começamos a repreender porque queremos repreender o ruim, no processo vamos repreender o bom e perdemos coletivamente. A gente lê livros publicados em 1950, se depara com coisas ali e pensa, “isso realmente não é muito bom.” Mas você está vendo o mundo uma vez que realmente era. Eu aprecio a verdade.
Ando muito desconfiada. Não acredito em ninguém. Porque acho que as pessoas não estão dizendo o que realmente pensam, mormente em assuntos uma vez que raça e imigração. Elas dizem o que acham que é o manifesto a manifestar, aí depois se viram e votam no Trump. Uma sociedade que encoraja a repreensão não é saudável para ninguém.
Relâmpago-X | Chimamanda Ngozi Adichie, 47
Nigéria, 1977. Estudou medicina e farmácia na Nigéria até se mudar para os Estados Unidos aos 19 anos para cursar informação e ciência política. Fez mestrado em escrita criativa na Universidade Johns Hopkins e recebeu o título de rabino de artes em estudos africanos pela Universidade de Yale. Autora dos romances “Hibisco Roxo” (2003), “Meio Sol Amarelo” (2006) e “Americanah” (2013), também escreveu o livro de contos “No Seu Pescoço” (2017) e o manifesto “Sejamos Todos Feministas” (2015), adaptação de seu exposição na plataforma TED que inspirou “Flawless”, de Beyoncé.
