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Choros nº 10 de Villa Lobos vira ato político no Bixiga
Celebridades Cultura

Choros nº 10 de Villa-Lobos vira ato político no Bixiga – 19/05/2026 – Mise-en-scène

A reestreia de “Rasga Coração – Teatro Oficina devora Villa-Lobos” estabelece um acerto de contas estético e territorial. Ao centrar-se no centenário de “Choros nº 10”, a Companhia Uzyna Uzona utiliza a partitura de Heitor Villa-Lobos uma vez que um planta para velejar as tensões entre o Brasil arcaico e o contemporâneo, transformando a música em um ato de ocupação física e simbólica no bairro do Bixiga.

O concepção fundamental da montagem é a antropofagia praticada uma vez que tirocínio de sobrevivência. Villa-Lobos, que em 1926 deglutiu a modinha urbana e os sons da selva para projetar uma identidade pátrio, é agora o próprio maná do coro.

Sob a direção de Felipe Botelho e Roderick Himeros, a obra se torna organização vivo, onde o erro e a improvisação são tão estruturantes quanto a regência. A tamanho sonora ganha corpo físico: é sobreposição bruta de ritmos, lamentos e ruídos que definem a disputa permanente por espaço e existência no cenário brasiliano.

Dissemelhante do teatro convencional, onde a sonoridade ilustra o texto, cá a música de Villa-Lobos é o elemento que gera a ação cênica. A arquitetura de Lina Bo Bardi no Teatro Oficina atua uma vez que caixa de sonância onde a passarela estreita coloca o testemunha dentro de uma densidade acústica monumental.

O roteiro músico propõe um círculo que segmento da simplicidade do violão de rua no “Choros nº 1”, atravessa as onomatopeias do “Choros nº 3” e a introspecção das “Bachianas nº 5”, até desaguar no orgasmo ritualístico do “Choros nº 10”. O fecho com fragmentos de “Floresta do Amazonas” confere à peça uma urgência ecológica, tornando o palco um território de resguardo da biodiversidade.

A participação da artista indígena Lilly Baniwa promove uma ruptura necessária na leitura da obra lobiana, historicamente marcada pela estilização dos temas originários para o consumo das elites. Ao trazer vocalizações tradicionais que entram em fricção direta com a escrita erudita, o espetáculo permite que a natividade original da inspiração de Villa-Lobos retome sua sucursal política e místico.

Suas intervenções são uma força que tensiona a partitura, criando diálogo real entre o Brasil imaginado pelo modernismo e o Brasil vivido pelos povos indígenas hoje. É um encontro de devoração mútua, onde a ancestralidade Baniwa digere a estrutura clássica para libertar o som de suas amarras coloniais.

Oriente espetáculo também carrega o peso simbólico da conquista do Parque do Rio Bixiga. Posteriormente décadas de resistência liderada por Zé Celso contra a pressão imobiliária, a montagem celebra a transformação do terreno vizinho em espaço público e agrofloresta. “Rasga Coração” funciona uma vez que rito de instalação e purificação desse novo território urbano.

Três perguntas para…

… Felipe Botelho

Nesta montagem, a música é a geradora da ação cênica. Uma vez que você, e o Roderick , trabalham com o elenco para que eles não sejam somente cantores, mas “atuadores” que materializam a partitura no corpo?

Essa é uma questão mediano para nós dois no desenvolvimento de uma tradução de Villa-Lobos dentro desse universo do Teatro Oficina. Desde 2011 a música de Villa-Lobos está presente nas peças do Zé Celso, mas o “Rasga Coração” nasceu do caminho contrário, que é ter a música uma vez que o princípio gerador das cenas e portanto buscar a geração dos quadros a partir desses sons.

Um ponto importante para isso é que temos o privilégio de trabalhar com um elenco de cantores que são também atores com experiência no Teatro Oficina, portanto eles já possuem essa linguagem de atuação que incorpora a musicalidade. Ou por outra, a própria música do Villa-Lobos já tem esse caráter ritual e vertiginoso, é uma música que não pode ser interpretada somente pela lógica mental e racional, ela exige de nós uma dedicação profunda para incorporar essa rítmica, ela realmente leva os atuadores aos seus limites.

Só é verosímil trovar e tocar esse repertório se dando por inteiro, voz, corpo e espírito, para a música.

Uma vez que você conduz a regência para que os músicos, em vez de somente acompanharem a cena, atuem uma vez que uma força física que tensiona o espetáculo dentro da dinâmica da passarela?

Assim uma vez que com os atuadores, estamos trabalhando com músicos já com experiência no teatro, o que é necessário pois é um trabalho muito dissemelhante do trabalho de um músico para um show, já estão todos habituados com esse jogo com a cena. Sinto que o meu trabalho de regência é voltado a dar aos músicos as ferramentas para que no momento da peça eles estejam o mais livres o verosímil para contracenar com a pujança dos atuadores na pista.

Uma vez que já nos conhecemos faz bastante tempo, já temos um bom entrosamento, conseguimos modular toda a filarmónica juntos com uma simples troca de olhares. E acho que sobretudo o mais importante é que todos os músicos são criadores também neste trabalho, trazem idéias para os arranjos, sugerem a maneira de interpretar cada seção, portanto tudo isso contribui para esse resultado.

A escolha de peças uma vez que “Choros nº 3″ e “Floresta do Amazonas” sugere uma preocupação com o elemento silvestre e a ancestralidade. Uma vez que essas obras conversam com a arquitetura urbana e de concreto do Bixiga?

Existe uma confluência de temas muito grande entre Villa-Lobos e o trabalho do Teatro Oficina, portanto acho que esses elementos não vieram exatamente uma vez que uma preocupação do trabalho, mas sim uma vez que um ponto fundamental trazido por esses dois universos que estamos explorando.

Com as particularidades do pensamento de um varão de século anos detrás, Villa-Lobos toca em temas que hoje em dia fazem mais sentido do que nunca, uma vez que a valor da natureza em resposta a um mundo em guerra e também a multiplicidade de expressões culturais em face da massificação que vivemos.

O “Rasga Coração” começou a se desenvolver uma vez que projeto em 2021, quando o Parque do Rio Bixiga era ainda um movimento que não podíamos prever quando teria o seu desfecho, portanto as interpretações que na era nasceram de uma luta pela geração do parque agora em 2026 são de certa maneira também uma celebração.

Mas com certeza sem deixar o espírito guerreiro que existe na música do Villa pois a luta é permanente, já que na São Paulo de hoje dos teatros sendo fechados e demolidos, dos parques sendo transformados em polos gastronômicos, não existe luta ganha.

Teatro Oficina – rua Jaceguai, 520 – Bixiga, região mediano. Maio: 13 e 14, 20 e 29 a 31, às 20h. Junho: 5 a 8, às 20h Até 25/5. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: livre. A partir de R$ 40 (meia-entrada) em sympla.com.br

Folha

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