‘Cidade dos Sonhos’: de série rejeitada a filme do século – 15/08/2026 – Ilustríssima
[RESUMO] “Cidade dos Sonhos”, obra-prima do diretor David Lynch, completa 25 anos consolidado uma vez que um dos maiores filmes da história —para muitos críticos, o melhor até agora do século 21. Zero em seu processo de produção, todavia, prenunciava essa reputação gloriosa. Criado originalmente uma vez que série de TV, foi rejeitado por emissora e por pouco não ficou perdido para sempre, trajetória que espelha o tom exaltado do filme. Em entrevista, produtor e montadora comentam o trabalho com Lynch.
Vinte e cinco anos posteriormente seu lançamento, “Cidade dos Sonhos” continua hipnotizando plateias e intrigando o público com seus mistérios. Hoje obra incontornável na curso do diretor David Lynch, a produção com Naomi Watts estreou com fragor em 2001 e cravou espaço no cânone do cinema mundial.
Lançado em Cannes naquele ano, o filme foi um furacão desde as primeiras sessões. Saiu com o prêmio de direção no festival e, no ano seguinte, recebeu uma indicação ao Oscar na mesma categoria. Nas salas de cinema, o público reagia impulsivo à trama enigmática, enxurro de situações inusitadas e com uma reviravolta que rompia a lógica da premissa.
Na Folha, a sátira chegou a levantar Lynch uma vez que novo rabino supremo do mistério, no nível de Hitchcock e Buñuel. “Que nome dar a isso que vemos: alucinação, sonho, verdade, filme?”, escreveu Inácio Araujo na ocasião. “Lynch parece imaterializar o material, devolvê-lo ao estágio de teoria, o que consegue ao nos envolver na suposição de estarmos diante de uma ficção tradicional (com a segurança e o conforto de sabermos que vemos uma história).”
Passadas duas décadas, o longa se mantém possante no imaginário. Em 2022, na tradicional votação da revista britânica Sight and Sound, “Cidade dos Sonhos” foi eleito o oitavo melhor filme da história do cinema. Era o único representante do século 21 no top 10.
O exaltado filme de Lynch ficou adiante de clássicos uma vez que “Cantando na Chuva” (1952, 10º lugar), “Aurora” (1927, 11º), “O Poderoso Chefão” (1972, 12º) e “Rastros de Ódio” (1956, 15º). Prova de sua crescente reputação é que na sondagem anterior, de 2012, ele ficou em 28º lugar.
Desde seu lançamento, tornou-se também um dos filmes mais escarafunchados da história do cinema, revirado em seus mínimos detalhes por legiões de críticos de cinema, filósofos, psicanalistas, artistas plásticos e cinéfilos pelo mundo.
Outro exemplo, agora sítio, do fascínio provocado pelo filme é que ele retorna, de tempos em tempos, aos cinemas brasileiros, em sessões especiais de todo tipo.
Só no volta mercantil foram três lançamentos: em abril de 2002, quando estreou oficialmente no país; em 2017, quando foi reexibido pela Zeta Filmes; e no ano pretérito, quando a Retrato Filmes distribuiu a remasterização em 4K da produção, poucos meses depois da morte de Lynch.
Esta recorrência nas telonas ajuda a explicar uma vez que a produção se tornou a principal porta de ingresso para novos fãs do diretor, ao lado da cultuada série “Twin Peaks” (1990-1991).
Rogério Ferraraz, professor do programa de pós-graduação em informação da Anhembi Morumbi e responsável de tese de doutorado sobre o cinema de David Lynch, comenta que o filme também conquista gerações mais novas pela lógica de quebra-cabeça, que desafia a percepção do público. “Quando parece que o público preencheu o quebra-cabeça da trama, ele descobre que existem mais peças do que as necessárias. Peças importantes, que abrem o jogo novamente e o arremessam para um lado completamente dissemelhante e inesperado.”
Essa imagem sugerida por Ferraraz faz muito sentido quando se leva em conta o histórico tortuoso da produção, quase tão improvável quanto seu próprio enredo.
O filme foi um dos projetos de Lynch que correram risco de não chegar às telas, passando por contratempos que forçaram o cineasta a repensar a lógica da premissa —da mesma forma que ocorre com os fãs, quando assistem ao longa pela primeira vez e são surpreendidos pelos rumos dos personagens.
“Cidade dos Sonhos” nasceu uma vez que incidente piloto de uma série, bancada pelo conduto ABC em 1998. Na quadra, o projeto pretendia ser uma tentativa de retorno triunfal à TV americana e à emissora, posteriormente o impacto de “Twin Peaks”.
O seriado de 1990, criado em parceria com o roteirista Mark Frost, transformou para sempre a TV e a curso do cineasta, mas também virou um tormento. Com a interferência e a pressão da ABC sobre os rumos da trama, Lynch e Frost abandonaram a produção na metade da segunda temporada, uma decisão que derrubou a audiência e, depois, causou o término do programa.
Lynch revisitou “Twin Peaks” algumas vezes nos anos seguintes, por filmes e uma minissérie, mas no término dos anos 1990 estava determinado a nunca mais trabalhar na TV.
Ele ainda era perseguido pelos cancelamentos de “On the Air”, de 1992, e de “Quarto de Hotel”, de 1993, duas séries que produziu e que naufragaram na audiência.
O projeto de um novo programa só andou por esforço de Tony Krantz, executivo que costurou o retorno do diretor à ABC. Logo adiante da repartição de TV da Imagine Entertainment, produtora fundada por Ron Howard e Brian Grazer, ele tinha concluído de firmar um consonância com a emissora para a concepção de novos pilotos, e nisso viu uma oportunidade para Lynch.
A escolha foi de caso pensado. Krantz trabalhou uma vez que agente do cineasta na quadra de “Twin Peaks”, sendo um dos responsáveis pelo consonância com a própria ABC.
Convencer Lynch foi um passo difícil. Krantz se uniu a Neal Edelstein, jovem produtor colega de Lynch, e ambos passaram semanas discutindo o projeto com o diretor. Eles fecharam negócio em um jantar no Orso, um restaurante italiano que havia logo na região oeste de Los Angeles.
“Lynch topou porque o Tony [Krantz] tinha uma posição com a ABC que o permitia autenticar roteiros sem interferências deles, desde que o orçamento não ultrapassasse US$ 7 milhões”, relembra Edelstein à Folha. O valor citado pelo produtor era superior para os padrões da quadra —somente séries populares uma vez que “Friends” e “Plantão Médico” alcançavam uma tira maior que essa, por volta de US$ 10 milhões.
“David [Lynch] sempre precisou de controle totalidade do que dirigia, ele se recusava a comprometer a sua originalidade ou a ver outras pessoas dizendo a ele uma vez que trinchar os seus filmes. Tony garantiu a ele estas condições, e isso o incentivou a ortografar o roteiro.”
O cineasta logo propôs à dupla uma teoria que teve ainda durante as filmagens da primeira temporada de “Twin Peaks”. Naquele tempo, o projeto, já batizado de “Mulholland Drive”, título original do porvir filme, foi pensado uma vez que derivado da série com foco em uma das personagens, Audrey Horne, que se mudaria para Los Angeles no término da segunda temporada.
Ao apresentar a história a Krantz e Edelstein, porém, Lynch já havia desassociado os vínculos com seu sucesso anterior. “Ele disse naquele jantar que a trama era uma teoria antiga dele, mas uma que nunca tinha parado para organizar”, diz Edelstein. “Era uma homenagem a ‘Lusco-fusco dos Deuses’ [de 1950, dirigido por Billy Wilder], um filme que ele amava profundamente.”
É um tanto inútil tentar descrever o enredo de “Cidade dos Sonhos”, diante das múltiplas camadas de versão que o filme oferece, uma vez que uma caixa em do qual interno há outra caixa (pensemos na famosa caixinha azul da trama), e mais uma outra caixa, e assim sucessivamente.
Em linhas gerais, e muito gerais mesmo, podemos expressar que conta a história de Betty (Naomi Watts), uma aspirante a atriz que se muda para Los Angeles e encontra Rita (Laura Harring), que perdeu a memória em um acidente de coche.
Pela tela também passarão um cineasta, Adam Kesher (Justin Theroux), que luta para finalizar seu filme, um homúnculo poderoso, produtores de cinema que mais parecem mafiosos, um caubói lacônico e minaz, um sem-teto teratológico, um par de idosos medonhamente simpático.
As filmagens do piloto começaram em fevereiro de 1999, de forma concomitante com a pós-produção do longa “Uma História Real” (lançado também naquele ano). Lynch já negociava a direção dos próximos episódios com nomes badalados do mercado americano.
Segundo Edelstein, o cineasta chegou a um consonância com Tim Hunter, do filme “Juventude Assassina” (1986), entrevistou Bryan Singer, em evidência com “Os Suspeitos” (1996), e até mesmo cogitou invitar Quentin Tarantino.
“Nós estávamos detrás dos principais nomes de Hollywood para os episódios”, afirma o produtor. “Simples que David dirigia outros capítulos, mas queríamos malparar mais com o lado criativo da série.” Edelstein lembra-se ainda de que Lynch tinha bolado novas partes da história, incluindo um jardineiro de origem asiática que se tornaria um “sensei místico” e daria orientações místicas às protagonistas.
“O David nunca expressava os seus planos previamente. Ele gostava de encontrar as emoções da história e soprar vida nelas, encontrando o sentimento enquanto progredia”, explica o produtor. “Ele nunca tinha as coisas perfeitamente mapeadas, mas escrevia linhas de pensamento que gostaria de explorar nas filmagens.”
Mas eis que, de repente, uma vez que na assombrosa viradela de “Cidade dos Sonhos”, o sonho virou pesadelo. Depois de seis semanas de gravações e um incidente pronto, a ABC desistiu do consonância. A empresa detestou o incidente entregue por Lynch: implicou com a duração (duas horas), com a escolha das protagonistas, com o tom soturno.
Montadora e produtora do projeto, Mary Sweeney afirma que o tempo estourava os padrões estabelecidos pela emissora. “Eles não gostaram da duração e nem do ritmo do incidente, e nos pediram para trinchar fora uma determinada quantidade de tempo”, lembra-se ela, hoje professora da Universidade do Sul da Califórnia.
Segundo Edelstein, os executivos da ABC ficaram incomodados com certos trechos do piloto. “Fizemos uma reunião na quadra com dezenas de pessoas presentes, e todas elas tinham uma opinião própria sobre o incidente. Eles não gostavam de percorrer riscos e queriam proteger o seu moeda, logo ficaram ofendidos com elementos pequenos, que talvez não entendessem. Digo, eles chegaram ao ponto de ver um estereótipo no jardineiro da trama.”
O conflito criativo se arrastou por semanas. Sweeney conta que Lynch reduziu a contragosto a duração do piloto, entregando uma versão que não o agradava. Edelstein afirma que essa segunda edição do incidente, com 90 minutos, levou o cineasta a entrar em conflito direto com Tony Krantz.
“David não atendeu a todos os pedidos da emissora, ele não queria ajustar o incidente mesmo que contratualmente fosse obrigado. Ele e Tony brigaram, e Tony chegou a ameaçar um processo por quebra de contrato. Os dois não se falaram por um tempo depois disso.”
A série foi cancelada de vez em maio de 1999, quando a ABC arquivou o piloto, recusando até mesmo a proposta de exibi-lo uma vez que um próprio. “Nós recebemos a má notícia do Tony Krantz no dia que viajamos para Cannes, onde seria exibido ‘Uma História Real’”, relembra Mary Sweeney. Ela e Lynch, na quadra namorados e parceiros criativos, passaram os próximos meses divulgando o novo filme, conformados com o triste término de “Cidade dos Sonhos”.
Até que o projeto voltou à vida com o produtor galicismo Pierre Edelman. Ele trabalhou com Lynch no financiamento de “Uma História Real” e, a certa profundidade da turnê de lançamento do filme, perguntou ao diretor o que aconteceu com a novidade série dele. Informado do imbróglio, resolveu viabilizar o projeto, propondo a Lynch e à produtora francesa StudioCanal que transformassem o incidente em um longa-metragem.
A empresa comprou da ABC os negativos do piloto de “Cidade dos Sonhos” no início do ano 2000, em uma negociação rápida. A emissora só queria tombar fora do que via uma vez que uma grande furada.
Em outubro, novas cenas foram filmadas para fechar a trama, sobretudo a partir da famosa cena no Clube Silencio, quando o que se viu até ali fica de cabeça para ordinário. Tapume de 40 minutos foram acrescentados ao piloto, compondo o filme tal uma vez que o conhecemos.
“David escreveu um pouco em torno de 20 páginas e nós tivemos duas semanas para filmar tudo”, lembra-se Mary Sweeney. “Depois disso, nós dois voltamos ao piloto e começamos a remover cenas, movimentar outras e avultar o material novo. Foi um processo orgânico: precisávamos varar algumas tramas abertas e personagens, além de dar um ponto final à história.”
A montadora descreve o trabalho com Lynch uma vez que bastante intuitivo, sobretudo na integração do material novo com o piloto original. Ela assume a autoria das sobreposições de imagem que rondam “Cidade dos Sonhos”, incluindo aquela que contrapõe o rosto de Naomi Watts com as célebres palmeiras das ruas de Los Angeles.
Ela também define a originalidade do diretor uma vez que uma vara de adivinhação, afirmando que os dois mal discutiam cenas durante a montagem dos filmes —além de “Cidade dos Sonhos” e “Uma História Real”, trabalhou ainda nos longas “Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer” (1992) e “A Estrada Perdida” (1997).
“Com David, eu construía uma montagem solta de cenas durante a produção, aí víamos e fazíamos anotações juntos algumas poucas semanas depois do término das filmagens”, ela relembra.
“Depois disso, ele ia trabalhar em outras obras e eu começava a fazer mudanças; ao terminar, ele voltava e recomeçávamos o ciclo. A conversa nessas sessões nunca era sobre o que as coisas significavam, qual era o propósito da cena ou os sentimentos que provocavam. Era um processo compartilhado e intuitivo. Quando trabalhamos juntos, estávamos em nosso próprio sonho sincronizado.”
Morto em janeiro do ano pretérito, Lynch chegou a comentar essa remontagem de “Cidade dos Sonhos” com Rogério Ferraraz. Na entrevista, conduzida em 2002 e publicada na revista “Processos de Geração e Reflexões Teóricas no Cinema”, o diretor definiu uma vez que um tremor sísmico a transformação do piloto em filme.
“Essa mudança [de formato] causou uma espécie de terremoto na mente e, quando ele acabou, novas ideias surgiram”, disse o cineasta na ocasião. “Isso foi uma das coisas mais belas, porque precisávamos matrimoniar essas novas ideias com o que veio antes.”
Em 2013, em um festival de cinema, Lynch explicou o processo de desenvolvimento de um final para a história inacabada. “Chegou o dia em que recebi sinal verdejante para transformar o incidente em um longa, e eu não tinha nenhuma teoria. Eu simplesmente não tinha pensado nisso. Logo chegou o dia em que eu precisava ter essas ideias, e naquela noite, sentei-me durante minha reflexão e lá, uma vez que um grudar de pérolas, todas as ideias vieram, todas de uma vez.”
“Agora, olhando para trás, percebo que [o filme] sempre quis ser assim. Só precisou desse início estranho para se tornar o que é”, disse em 2001. Perguntado se, no término das contas, ficou feliz por a série não ter sido aprovada, ele respondeu à revista Salon: “Eu… eu… eu estou… quase eufórico!”
O filme não é muito dissemelhante do piloto de série rejeitado. O programa original de duas horas nunca veio a público, mas a versão revisada, com 90 minutos, circula em fóruns online a partir de uma traslado tirada de um VHS.
Esse incidente tem pouquíssimas mudanças em relação à história do filme, todavia algumas cenas foram montadas de forma dissemelhante, estendidas o suficiente para revelar mudanças em relação ao que seria a série.
Os executivos de estúdio que entram em conflito com o diretor de cinema interpretado pelo ator Justin Theroux, por exemplo, aparecem juntos em mais dois momentos, ambos fora da sala de reuniões mostrada no longa.
Já o detetive interpretado por Robert Forster, figura pontual do filme, surge em mais cenas no incidente, conduzindo uma investigação sobre o acidente do início da trama.
Ainda que “Cidade dos Sonhos” siga vivo na memória, ninguém sabe se qualquer dia o piloto original desenvolvido por Lynch poderá ser visto. Neal Edelstein torce para que uma traslado esteja perdida em sua moradia. “Eu preciso encontrá-lo, devo ter um VHS em alguma caixa. Se achá-lo, eu subo o material no YouTube”, afirma o produtor.
Mary Sweeney diz estar contente com o legado da produção. “Eu não consigo explicar o lindo mistério de uma vez que levante filme desperta uma paixão tão duradoura, logo só posso permanecer feliz”, comenta a montadora.
Ela encerra a conversa com uma ponderação quase lynchiana: “‘Cidade dos Sonhos’, muito uma vez que o seu caminho tortuoso para o cinema, vive uma vez que estava talhado a ser.”
Onde ver ‘Cidade dos Sonhos’
Mídia física
O filme foi lançado pela distribuidora Versátil, em versão restaurada em blu-ray, na caixa “Lynch Importante”. A edição traz mais de quatro horas de material extra sobre o filme, incluindo entrevistas com o diretor e as atrizes, além de dois outros filmes de Lynch, “O Varão Elefante” (1980) e “História Real” (1999).
Streaming
Disponível para compra ou aluguel na Simples TV, no YouTube, no Google Play e na Apple TV





