Cinema brasileiro está em crise por não pensar no público – 26/03/2026 – Ilustrada
Falar em crise do cinema brasílio deve toar estranho à maioria, pois poucos dias detrás estávamos celebrando a curso de “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Rebento.
Um filme autoral que levou quase 3 milhões de espectadores às salas de cinema e teve quatro indicações ao Oscar. E, pouco mais de um ano detrás, “Ainda Estou Cá”, de Walter Salles, levou perto de 6 milhões de espectadores aos cinemas, além de ter ganhado um Oscar.
Tanto “O Agente Secreto” quanto “Ainda Estou Cá” são exceções à regra em uma cinematografia desequilibrada e com potente crise de público.
No Brasil, uma quantidade considerável de filmes é produzida anualmente. Dados levantados pelo FilmeB apontam que, em 2025, 203 longas foram lançados no rotação mercantil. Murado de 55% dos longas que entraram no rotação mercantil não foram vistos nem por milénio pessoas em salas de cinema.
A maior secção dos filmes produzidos e lançados no país não foi apreciada. Trata-se de um mercado de tapume de R$ 3 bilhões, que acaba sendo desprezado pelo cinema brasílio.
Para piorar, dada a grande quantidade de filmes produzidos —mais de 400 em 2025, ainda porquê resultado direto da Lei Paulo Gustavo e também do Projecto Vernáculo Aldir Blanc—, muitos deles não se encaixam nem mesmo em festivais de cinema. Ou seja, muitos longas não são vistos por absolutamente ninguém.
Em tese, o quantia investido pelo poder público na produção dos filmes, via Fundo Setorial do Audiovisual, o FSA, deveria ser devolvido. Mas poucos conseguem ser rentáveis e o valor investido não retorna porquê deveria ao fundo.
São números ruins e que fragilizam o nosso desenvolvimento econômico e cinematográfico. Cineastas, produtores e distribuidores ficam frustrados com tais números do nosso cinema, mas não amargam prejuízo, pois a maioria dos filmes é 100% subsidiada.
Quem paga a conta das salas vazias para o filme vernáculo são os exibidores que, historicamente, foram negligenciados com relação às políticas estruturais do audiovisual vernáculo. Já fragilizadas, as salas de cinema não se recuperaram depois a pandemia.
Caso as políticas públicas para a exibição tivessem sido pensadas junto à geração do FSA, nós estaríamos, neste momento, lutando em pé de paridade com os streamings.
Um tanto foi desenhado na gestão Manoel Rangel, o PAR —Programa Suplementar de Renda—, o RECINE e o Cinema Perto de Você, mas zero que pensasse e combatesse, de forma eficiente, os vazios nas salas para o cinema vernáculo.
No Brasil, não faltam bons filmes, cineastas, produtores, distribuidores e as salas de cinema estão espalhadas pelo país. Temos as condições de fortalecimento e mesmo geração de uma rede voltada ao cinema brasílio com as salas já existentes. Falta seduzir o testemunha, levá-lo ao cinema.
A política pública do audiovisual vernáculo está concentrada na produção e não na audiência (exibição). Falta um pensamento que organize todos os setores, criando uma política de desenvolvimento equilibrado para a indústria.
Fazer filmes sem pensar no público é um verdadeiro tiro no pé.
Sou favorável ao investimento público em cinema. Sou em prol de financiamento a filmes autorais que não necessariamente serão apreciados por públicos grandes. Sou em prol de que alguns filmes possam ter curso em festivais, exclusivamente, e não sejam necessariamente rentáveis no rotação mercantil. Mas não dá mais para produzir tantos filmes para poucas pessoas verem.
É necessário que produtoras e distribuidoras participem do risco do negócio junto com os exibidores. Acredito ser importante que alguém —não o exibidor— pague a conta das salas vazias quando existe a obrigação de exibir filmes nacionais —quota de tela. Nesse sentido, o retorno do PAR para a exibição é urgente.
É preciso gerar metas e definir onde queremos estar daqui a cinco, dez anos. Produzir, produzir, produzir sem uma lógica estruturada não nos levará a lugar qualquer. É importante gerar um pensamento de desenvolvimento sustentado para que os investimentos do estado façam sentido.
Países distintos desenvolveram modelos diferentes e bem-sucedidos. Na Coreia do Sul e na França, há um misto de investimento público e privado. Índia e Indonésia possuem modelos predominantemente privados de investimento. Em todos esses países, existe uma força do cinema sítio com uma participação significativa no market share.
É preciso encontrar uma forma de conquistarmos o nosso mercado e criarmos um audiovisual independente e fortalecido, sem que se perda o interesse pelo desenvolvimento artístico.
É necessário desenvolver grandes campanhas pelo filme vernáculo em salas de cinema, além de uma uniforme formação de público que passa pela alfabetização cinematográfica de professores e alunos. Cinema é uma forma de ver a vida por si só e não deve ser utilizado exclusivamente para dar atenção às demais ciências e saberes.
É preciso encarar nossas fragilidades de frente. Antes que o pior aconteça e mais um ciclo do cinema vernáculo seja abruptamente encerrado.





