Cinemark usa animação nacional para cumprir Cota de Tela – 06/05/2026 – Ilustrada
Um filme infantil está sendo usado de estrada pela rede Cinemark para executar mais rapidamente a Prestação de Tela, mecanismo voltado ao fomento do audiovisual brasílio que obriga exibidoras a reservar segmento da programação a produções nacionais. Trata-se de “Zuzubalândia – O Filme”, produção lançada nos cinemas originalmente há dois anos.
Só no estado de São Paulo, a rede programou 114 sessões do título nesta quarta-feira, quase metade delas às 11h, o restante entre o meio-dia e 14h45. Segmento de um concordância de exibição de exclusividade entre a Cinemark e sua criadora, “Zuzubalândia” estreou em setembro de 2024, ficou em edital até dezembro daquele ano e voltou à programação em outubro do ano pretérito. O filme também está no catálogo da HBO Max.
Procurada por email na semana passada, a Cinemark diz que não comenta a Prestação de Tela, e que exibe “Zuzubalândia” dezenas de vezes por dia por culpa do programa Projeto Escola. Nele, instituições de ensino podem reservar, mediante pagamento, salas inteiras para grupos de estudantes.
A rede não explicou, porém, até a publicação deste texto, a relação do filme com a ação. Segundo o regulamento, o projeto vale para qualquer filme, desde que tenha liberação de sua distribuidora.
Um gerente da Cinemark afirmou à reportagem que todos os filmes da grade entram no programa se a sua classificação indicativa corresponder à idade dos estudantes —uma vez que os americanos “Super Mario Galaxy: O Filme” e até “O Diabo Veste Prada 2”, hoje em edital.
Embora a empresa, por meio de sua assessoria de prelo, não tenha respondido se está usando “Zuzubalândia” para desancar a Prestação de Tela, funcionários de uma unidade da Cinemark afirmaram à reportagem que, internamente, a diretriz é que o filme seja programado no primórdio do dia para conseguir as metas estabelecidas pela regra.
Alguns complexos, inclusive, são orientados a transfixar às 10h30, exibir “Zuzubalândia” entre 11h e meio-dia, fechar as portas em seguida e só retomar as operações por volta de 14h.
A Folha visitou sessões da animação na quarta-feira passada, em uma unidade em São Paulo que a exibia em quatro salas, simultaneamente, ao meio-dia. Nenhuma delas tinha público. O cinema ainda estava em processo de orifício, e uma funcionária que limpava uma das salas se mostrou surpresa com a presença da reportagem. Ela imediatamente apagou as luzes da sala, que estavam acesas, apesar do projetor já ligado.
No Observatório Brasiliano do Cinema e do Audiovisual, plataforma da Ancine, a Dependência Vernáculo do Cinema, que compila dados de bilheteria e de obras audiovisuais em exibição no país, não há registros das sessões de “Zuzubalândia” por uma questão técnica. O filme é considerado um média-metragem por ter somente uma hora de duração, dez minutos a menos do que o definido para longas, o que deveria impedi-lo de ser contabilizado para a Prestação de Tela.
Mas a Cinemark encontrou aí uma brecha. O texto define que a programação deve ser “formada, predominantemente, por obra de longa-metragem”.
Leandro Mendes, secretário de regulação da Ancine, diz que o órgão está avaliando o caso e que considera admitir a inclusão de “Zuzubalândia” nas metas estabelecidas para a Cinemark no ano pretérito por culpa da pouca diferença no tamanho do filme.
A curta duração ainda ajuda a explicar por que a Cinemark escolheu exibir tantas vezes leste título em vez de outras produções nacionais. Rápida, ela dá maior rotatividade às salas em que é exibida —ou seja, interfere menos na programação, e libera espaço para obras de maior apelo mercantil.
A pedido da Folha, a Ancine compilou os dados de “Zuzubalândia”, que mostram que neste ano foram programadas 17.237 sessões do filme em complexos da Cinemark de todo o país. Elas foram vistas por somente 1.882 pessoas, numa média de 0,1 testemunha por exibição.
Ainda que se aproveite de uma brecha da Prestação de Tela, a estratégia da Cinemark não viola a legislação. A norma, em vigor desde junho de 2024, estabelece um número mínimo de sessões de filmes brasileiros ao longo do ano —no caso da Cinemark, 16% do totalidade de sessões—, mas não proíbe a repetição de um mesmo título. Na prática, exibidoras têm liberdade para definir quais obras exibir, quantas vezes, em que horários e em quais salas.
Assim, as redes podem concentrar dezenas de sessões de um mesmo filme vernáculo num só período do ano, batendo a meta com antecedência e se desobrigando de exibir produções brasileiras em meses nos quais há muitos blockbusters estrangeiros em edital. Em dezembro, o novo “Vingadores” e o terceiro capítulo de “Duna” prometem monopolizar as salas.
A reportagem analisou a programação de outras redes em São Paulo, uma vez que Cinépolis, UCI e Kinoplex, e não encontrou casos flagrantes uma vez que o de “Zuzubalândia”, ainda que os filmes nacionais sigam, em maioria, programados em horários menos nobres, antes das 17h.
O cumprimento da regra é fiscalizado pela Ancine, que afirma estar cônscio da prática da Cinemark, mas não prevê punições à exibidora. Leandro Mendes diz que a intenção é gerar mecanismos para incentivar a presença de filmes brasileiros na fita sublime das exibidoras, ou seja, a partir do término da tarde. Em instrução normativa publicada nesta quarta-feira, a filial passa a prever bonificações para sessões exibidas posteriormente as 17h.
“Notamos essa fragilidade na norma, e precisamos fazer adaptações para regular, mas a venda de ingressos está menor se comparada ao período pré-pandemia”, afirma Mendes. “A gente também não pode obrigar o exibidor a quebrar o seu cinema. Pedimos para dialogar com a Cinemark, mas não me parece que eles estão fazendo isso de má-fé”, diz ele sobre a multinacional sediada no Texas, líder de mercado no Brasil.
A repetição de “Zuzubalândia” na grade pode ser justificada também pelo concordância de exibição exclusiva firmado entre a Cinemark e a produtora, diretora e roteirista da animação Mariana Caltabiano.
A diretora diz que o contrato prevê que 70% da bilheteria líquida seja direcionada à rede, enquanto ela retém os 30% restantes. O protótipo é dissemelhante do adotado tradicionalmente pelo mercado, em que as exibidoras, uma vez que a Cinemark, ficam somente com metade da receita. Essa segmento é dividida entre distribuidoras e produtoras, e custos com marketing acabam diluindo ainda mais o valor repassado aos criadores das obras.
Caltabiano diz que não gostou da experiência que teve ao lançar filmes anteriores com intermédio de distribuidoras, e que, por isso, vê benefícios no concordância. “Minha sugestão é que outros produtores infantis brasileiros comecem a fechar diretamente com a Cinemark, sem intermediários. Isso aumenta as chances de bilheteria”, diz ela, que não detalha valores.
A diretora afirma que não sabia que seu filme virou instrumento de Prestação de Tela, mas que não vê problema nisso já que, ao menos, seu filme está sendo exibido.
Mesmo com tantas sessões vazias, o concordância é potencialmente mais vantajoso para a Cinemark do que os traçados para outros lançamentos brasileiros.
No caso do recente “Velhos Bandidos”, comédia de possante apelo mercantil com Fernanda Montenegro, são 44 sessões nesta quarta-feira, tapume de 60% a menos do que a animação de dois anos detrás. Mais limitadas ainda são as exibições de “Rio de Sangue”, com 22, e de “O Jurisconsulto de Deus”, com 18. Para efeito de verificação, a biografia de Michael Jackson que acaba de entrar em sua terceira semana de exibição, tem mais de 250 sessões na rede Cinemark nesta quarta.
Desde que entrou em vigor, a Prestação de Tela foi criticada por não instaurar faixas de horário sublime para os filmes nacionais —mais do que uma garantia de exibição, o mecanismo deveria servir para formação de público, defendem nomes do setor. Mas se não há gente vendo “Zuzubalândia”, o objetivo nunca é conseguido.
“A prestação deveria pensar na pluralidade do cinema brasílio, e está longe de fazer isso”, diz Daniel Queiroz, que foi programador de cinema e é diretor da Embaúba Filmes, que distribui filmes independentes uma vez que “No Coração do Mundo”.
De olho nas críticas, a Ancine decidiu mexer nas regras para tentar gerar mais interesse das grandes exibidoras em produções de menor apelo mercantil. Na instrução normativa publicada nesta quarta, a filial define que vão narrar mais pontos na meta as sessões de longas premiados em festivais selecionados. A novidade é que, além da categoria de melhor filme, agora valem também as de melhor ator, atriz, diretor e roteiro.
“É complicado isso de serem só os premiados. Poderia valer para os filmes que foram exibidos nos festivais, somente”, diz Queiroz, que integrou a percentagem consultiva para elaboração das medidas da Ancine.
Adhemar Oliveira, possuinte do Espaço Petrobras de Cinema, um dos mais tradicionais cinemas de rua de São Paulo, diz que não tem sentido dificuldade em desancar a meta da Prestação de Tela. “Sou padroeiro não da prestação, mas do resultado brasílio. E o resultado brasílio não difere dos outros em termos de qualidade.”





