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Com três álbuns, Drake segue o rapper que todos amam
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Com três álbuns, Drake segue o rapper que todos amam odiar – 16/05/2026 – Ilustrada

Quanto maior o voo, maior a queda. Apesar da quantidade de rappers internacionais de sucesso na dez passada que caíram em desgraça nos últimos anos –Nicki Minaj e Ye, o Kanye West, são os exemplos mais extremos– talvez ninguém tenha sentido esse baque tão publicamente quanto Drake.

Há dez anos, ele lançava “Views”, seu quarto álbum de estúdio, de onde saíram os enormes hits “Hotline Bling” e “One Dance”. Naquele ponto, era difícil descobrir um nome que rivalizasse com o canadense pelo posto de rapper mais popular do mundo.

Mas os anos seguintes trouxeram uma sequência de trabalhos imemoráveis e brigas públicas que mancharam sua reputação –a principal, com Kendrick Lamar, rendeu um megahit ao californiano em 2024, “Not Like Us”.

Nesta sexta, Drake retorna com não um, não dois, mas três álbuns de estúdio —seus primeiros trabalhos solo desde “For All the Dogs”, de 2023, e a infame pendência com Lamar. “Maid of Honour” e “Habibti” são álbuns mais curtos, dançantes e descontraídos; a estrela do show é “Iceman”, álbum que o artista promete desde 2024 e que toca em temas mais pessoais e contemporâneos. A referência da capote a Michael Jackson é um toque zero sutil.

Mesmo em seus períodos de sucesso extremo, Drake sempre foi uma espécie de saco de pancadas para o público de rap. Primeiro, por sua origem suburbana —nascido em Toronto, o rapper foi, antes de sua curso músico, uma estrela de série juvenil— e, em segundo, pela facilidade com que punha suas vulnerabilidades em sua música. Às vezes, de forma tão sincera que beirava o ridículo numa cultura que, por muitos anos, condecorou a hombridade viril.

Mas a ridicularização não impediu, ou talvez tenha até contribuído, para que o rapper se tornasse um dos mais influentes da dez passada. Seu hip-hop com toques de R&B e soul foi um dos pontos de partida de artistas de trap que passaram a fazer um som mais suave e sentimental. Porquê escreveu o filósofo e crítico músico Mark Fisher em seu blog K-Punk sobre “Take Care”, álbum de 2010, a capote é perfeitamente descritiva da fórmula de Drake —o varão que tinha tudo, mas a quem ainda faltava alguma coisa real.

O problema que mais diretamente atinge “Iceman”, e que atingiu muitos lançamentos do canadense antes deste, é que Drake parece completamente alheio a esse vista de sensibilidade que torna a sua música atrativa em primeiro lugar.

Em muitas faixas do álbum –que tem desnecessários 68 minutos de duração—, Drake parece mais preocupado em fazer pose do que em mostrar o que ele realmente sente. Faixas porquê “Janice STFU” e “What Did I Miss?” passam derrotado por esse exato motivo. (Esta segunda, ele começa dizendo “não ligo se você me governanta/ não ligo se você gosta de mim”. Será mesmo, Drake?)

Sua maior fraqueza é seu maior poder. Quando Drake mostra susto, mágoa e fragilidade, sua música ganha força. Um exemplo é o quarteto de faixas irmãs “Make Them Cry”, “Make Them Pay”, “Make Them Remember” e “Make Them Know”. Rimando sobre o diagnóstico de cancro de seu pai, a preocupação com sua imagem na prensa e as paranoias que se instalaram em sua cabeça depois a guerra pública com Kendrick Lamar, o rapper tira da manga suas melhores qualidades —a voz suave cantada, o flow descompromissado, as escolhas de instrumentais cheios de psique.

O rapper também volta a expor seu ótimo ouvido para “beats”, vista que fez falta em lançamentos mais recentes. Com suas múltiplas trocas de batida numa única música e um uso nobre de “samples” de R&B, o álbum chega a lembrar alguns dos melhores momentos de Drake em trabalhos porquê o clássico “Nothing Was the Same”, de 2013, e “Scorpion”, de 2018. A incorporação de batidas de pista, presente também nos álbuns adjacentes a “Iceman”, também é interessante –destaque para o electro de “2 Hard for the Radio”.

No universal, “Iceman” é um álbum inflado, que poderia usar de um bom golpe em seu repertório, mas com bons momentos. A temporada que ele –e, logo, também “Maid of Honour” e “Habibti”– representa na curso de Drake só vai permanecer mais clara com o passar dos anos. No agora, os álbuns foram uma tentativa de virar a página de sua disputa com Lamar, que foi claramente perdida pelo canadense. Serviram, também, ao que tudo indica, para livrar Drake de seu contrato com a UMG, gravadora dos dois rappers, com a qual ele está insatisfeito desde o sucesso de “Not Like Us”.

É difícil saber para onde ele vai daqui, mas uma coisa é certa —Drake seguirá sendo o rapper que todos amam odiar e seguirá alcançando o sucesso mercantil que sempre teve. O varão que tem tudo — principalmente a falta.

Folha

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