Como as novelas verticais e curtas tomaram o mercado

Como as novelas verticais e curtas tomaram o mercado – 02/10/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

No pretérito, quem quisesse ver a uma romance tinha que permanecer parado por uma hora diante da televisão no mesmo horário, todos os dias, por meses. Com a revolução do streaming, deu para matar vários capítulos deslizando o dedo pela tela do celular, a qualquer hora e em qualquer lugar.

Agora, há os microdramas, novelas gravadas no formato vertical de telefones. Importadas de países porquê China e Estados Unidos, as produções se alastraram pelas redes sociais e, no Brasil, chamam a atenção de canais porquê a Mundo, que acaba de anunciar seus primeiros projetos do tipo.

Chamadas também de novelas verticais, elas condensam o bom e velho folhetim em capítulos curtíssimos. Um dos maiores sucessos nacionais do gênero, “A Vida Secreta do Meu Marido Bilionário”, tem 68 episódios com dois minutos cada. Isso tudo dá pouco mais do que dois capítulos de “Vale Tudo”, a principal romance da Mundo hoje, no ar na tira das nove.

Nos microdramas, quem piscou perdeu. É uma lógica oposta à das novelas tradicionais, que repetem acontecimentos e diálogos para contextualizar o testemunha que possa não ter visto qualquer capítulo. Mas na tela do celular é preciso disputar a atenção do público com muitas distrações.

As novelas verticais são feitas de tramas acessíveis e com ganchos irresistíveis. No caso de “A Vida Secreta do Meu Marido Bilionário”, em poucos segundos o testemunha é apresentado ao dilema de Nathalia Queiroz, pequena pobre que pede verba ao pai. Numa trama que lembra a de “Cinderela”, ela enfrenta uma madrasta má e a meia-irmã mesquinha e ainda é forçada a admitir um enlace restaurado.

A obra, criada pelo parelha de brasileiros Katharine Albuquerque e Iury Pinto, está na plataforma americana Reel Short, especializada nesse formato, e soma muro de 480 milhões de visualizações. É uma audiência expressiva para um investimento que, diz Albuquerque, foi pequeno —saiu mais barato fazer a micronovela do que um filme de plebeu orçamento, ela diz, sem narrar o valor. Em confrontação, novelas porquê as da Mundo podem custar mais de R$ 1 milhão por capítulo e são filmadas por meses.

O negócio fez fragor no mercado e gerou interesse na concorrência. O TikTok, por exemplo, vai lançar duas novelas verticais. A teoria é competir com o Kwai, outra rede social de vídeos curtos, também vinda da China, que produz obras do tipo no Brasil há três anos. A empresa diz ter investido muro de R$ 1,4 bilhão nas mais de século produções nacionais que tem no catálogo.

Claudine Bayma, diretora do Kwai no Brasil, diz que os microdramas se saem muito sobretudo pelo formato vertical. “Não é só uma questão de enquadramento. Traz uma estética intimista, põe o testemunha dentro da cena e cria uma cumplicidade que só o envolvente do dedo oferece.”

O TikTok, em paralelo, se tornou um espaço para pessoas que sonhavam em trabalhar com novelas, mas nunca chegaram à TV, caso do influenciador Reeh Augusto, de 22 anos, que gastou muro de R$ 65 milénio para fazer o microdrama “Dois Pedaços”.

A Mundo também quer surfar essa vaga. O via anunciou, nesta terça-feira, o microdrama “Tudo por uma Segunda Chance”, dirigido por Adriano Melo, que já fez “Malhação”. A obra de 50 capítulos vai rodear nas redes sociais da emissora, e alguns trechos serão exibidos na atual romance das sete, “Dona de Mim”, de Rosane Svartman.

A autora viu alguma coisa parecido sobrevir com seu sucesso “Vai na Fé”, há dois anos, que fisgou a geração Z, superpopular na internet. “O público se apropria dos trechos de novelas que publicamos. Mas reforçamos a exibição na TV para que exista um ciclo virtuoso”, disse a executiva Leonora Bardini quando “Vai na Fé” estava no ar. Hoje ela é diretora-executiva do via.

A outra micronovela da emissora, programada para dezembro, é “Cinderela e o Sigilo do Pobre Milionário”, que terá no elenco o cantor sertanejo Gustavo Mioto. Será disponibilizada no Globoplay, e unicamente assinantes poderão ver à trama toda.

O SBT, por sua vez, lançou há duas semanas “Refollow”, misto de websérie e romance vertical, disponível no YouTube, em capítulos horizontais de até dez minutos, e no Instagram, em pílulas verticais com muro de 90 segundos.

São investidas que ilustram o libido dos grandes canais de renovar o folhetim, ainda uma paixão vernáculo, apesar da queda de audiência que o gênero enfrenta há anos. As iniciativas vêm na esteira do sucesso de “Venustidade Inevitável”, romance de 40 capítulos da HBO Max, muito menor do que as da TV ensejo.

Aguinaldo Silva, um dos maiores dramaturgos do país, que escreve a próxima romance das nove da Mundo, “Três Graças”, diz ver com bons olhos as novidades. “Seria bom para nós, autores, e para os atores, que as novelas fossem mais curtas. É bom para o público também, e até para o produtor, que gasta menos. Tenho visto histórias de três minutos contadas com sofisticação.”

O responsável Antonio Prata, que escreveu obras nesse formato para serem gravadas ainda nascente ano, diz se impressionar que o formato tenha demorado a chegar de vez ao país. Ele é um dos criadores do Tele Tele, aplicativo que será lançado no ano que vem com micronovelas nacionais escritas e dirigidas por nomes porquê Thiago Teitelroit, que comandou títulos porquê “Cordel Seduzido” e “Totalmente Demais” na Mundo.

A plataforma deve recorrer à perceptibilidade sintético para baratear a produção. A teoria, diz o diretor, é usar a tecnologia para fabricar efeitos especiais ou mudar o movimento da boca dos atores brasileiros na hora que eles forem dublados em outras línguas —mais ou menos porquê Disney e Dreamworks costumam fazer com as boquinhas dos seus personagens animados.

Ferramentas de IA devem ser aplicadas também nos microdramas do Noverama, site recém-lançado por Fábio Lima, presidente da agregadora de teor audiovisual Sofa Do dedo. “A IA permite mais audácia e histórias de fantasia e ação”, diz.

Eduardo Pradella, que escalou os elencos de “De Volta ao Jogo e “Minhas Versões do Paixão”, diz, porém, que a produção da romance vertical, apesar de mais barata, exige conhecimento técnico. “Na sala de vivenda você apaga uma luz que atrapalha a TV, no cinema a sala é toda escura. No celular, não. Você está em qualquer lugar. A tela tem reflexos que não dá para controlar. Logo a imagem precisa ser muito clara, não pode ser muito ‘cinemático’.”

O que também está sendo posto à prova são as formas de lucrar com esse tipo de obra. Por serem curtos, os microdramas não têm muito espaço para anúncios publicitários extensos, porquê na TV, que dedica minutos inteiros aos intervalos comerciais. O Kwai, que é gratuito, tenta monetizar com tramas criadas em parcerias com marcas —porquê fez com a Cheetos, que pagou por uma novelinha para vulgarizar um salgadinho.

Outra saída são as assinaturas e microtransações, porquê faz a Reel Short. A rede disponibiliza os primeiros capítulos gratuitamente e oferece tanto pacotes pagos que liberam todo o teor —caso da assinatura semanal, de R$ 45— porquê moedas próprias do serviço —vendidas a pacotes a partir de R$ 5,50.

Quem não quiser gastar R$ 70 para ver as duas horas de “A Vida Secreta do Meu Marido Bilionário”, pode lucrar essas moedas vendo uma quantidade limitada de anúncios por dia no aplicativo. No TikTok, porém, vários usuários pirateiam os capítulos dessa e de outras produções.

Folha

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