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Como foi feito Caruá, disco raro da psicodelia nordestina
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Como foi feito Caruá, disco raro da psicodelia nordestina – 06/07/2026 – Ilustrada

Na segunda metade da dezena de 1970, Paulo Rafael (1955-2021) e Zé da Flauta viviam anos mágicos. O guitarrista e o flautista, ambos pernambucanos, integravam a orquestra de Alceu Valença e moravam no Rio de Janeiro. Pela primeira vez, eram tratados porquê profissionais, músicos de verdade.

Em 1982, com o álbum “Cavalo de Pau” e a música “Tropicana”, as vendas de discos de Alceu foram dos milhares aos milhões. Sua agenda de shows lotou. Paulo e Zé ainda tinham qualquer tempo sobrando quando fizeram o álbum “Caruá”, dois anos antes, uma pérola da psicodelia nordestina que acaba de entrar no streaming, quase 50 anos em seguida o lançamento.

Os próprios músicos bancaram as milénio cópias originais do disco. Mais ou menos metade eles venderam nos shows de Alceu, e o resto foi oferecido a jornalistas e amigos. “Ainda levamos um para o George Pompidou, em Paris, e outro para a Mansão da Música, em Portugal”, diz Zé da Flauta. Esta é a primeira vez que a obra alcança o grande público.

Antes, o álbum estava atingível exclusivamente em arquivos piratas de baixa qualidade na internet e nos raros LPs de 1980 ainda preservados. A versão atual de “Caruá”, remixada e remasterizada, também foi prensada novamente em vinil pela Três Selos/Rocinante.

É o único disco assinado pela dupla. Paulo foi guitarrista e leal escudeiro de Alceu até morrer, em 2021. Zé integrou o Quinteto Violado, a SpokFrevo Orquestra e tocou em quase todos os álbuns da cena psicodélica do Recife. Quando se conheceram, eles eram exclusivamente adolescentes.

Com o cartunista Lailson Cavalcanti (1952-2021), Paulo e Zé formaram a orquestra Phetus, em que misturavam rock com música medieval, em 1972. O grupo só durou uns meses, mas foi a porta de ingressão da dupla no “udigrudi” da capital pernambucana.

Batizada depois com esse nome —um abrasileiramento de “underground”—, a cena rendeu discos psicodélicos porquê “Paêbirú”, de Zé Ramalho e Lula Côrtes, e a orquestra Ave Sangria, entre outros. Também influenciou diretamente os três primeiros álbuns de Alceu.

No término de 1974, Zé da Flauta tocava com o guitarrista Robertinho do Recife, enquanto Paulo Rafael integrava o Ave Sangria. O grupo, anistiado há três meses pelo governo federalista, havia completado de ter seu primeiro e histórico disco retirado das lojas pela ditadura militar.

Quando Alceu foi chamado para tocar no festival Lisura, no Rio, ele montou uma seleção do “udigrudi” para acompanhá-lo. Além de Paulo e Zé, vieram Lula Côrtes, Zé Ramalho e todos os instrumentistas do Ave Sangria.

“Ele tinha sido contratado pela Som Livre e ia a um festival da Orbe —uma máquina poderosa”, diz Zé da Flauta. “Formou uma orquestra inédita, com o que tinha de melhor em cada um. Alceu sempre soube escolher com quem tocar, tem essa vocação.”

Dali, o cantor partiu para sua tempo roqueira e psicodélica, ainda que recuse esses rótulos. São dessa era os álbuns “Molhado de Suor”, “Espelho Cristalino” e a temporada de shows “Vou Danado pra Catende”, no teatro Tereza Rachel, registrada no disco “Vivo!”.

Para Zé da Flauta, Alceu é “o maior e mais original roqueiro do Brasil”. “Porquê pode o rosto ter cabelo de roqueiro e não ser roqueiro? Fazer trova porquê roqueiro, se vestir, ter postura, atitude de roqueiro, e não ser roqueiro? Os discos dele dos anos 1970 são rock puro.”

O saxofonista Beto Saroldi viu um show no Tereza Rachel e, diz Zé da Flauta, “gostou tanto que ia todo dia”. Fã de jazz, virou colega da dupla de “Caruá”.

Paulo e Zé batiam ponto no apartamento de Saroldi na Tijuca. “A gente ficava lá inventando coisas, gravando no cassete, ouvindo John Coltrane e Jethro Tull”, diz o flautista. A dieta músico tinha Miles Davis, Joe Farrell, Hermeto Pascoal, Airto Moreira, Quarteto Novo e os discos de jazz da CTI Records, selo do dinamarquês Creed Taylor.

Em sua última entrevista, ao jornalista Rogério Medeiros, do livro “Valsa dos Cogumelos”, Paulo comentou o período. “Tínhamos uma afinidade músico muito grande, curtimos as mesmas coisas. E vivíamos nos divertindo, porque Zé é um piadista de primeira e eu era seguidor das piadas dele.”

“Caruá” foi criado entre um show e outro de Alceu, em jams na lar de Saroldi ou com a dupla brincando em violão e flauta. Também foi gravado em parcelas, no estúdio Clave, que Zé abriu no Recife, na quadra ainda em obras.

O flautista diz que o engenheiro de som —seu primo João— fez milagres. “Gravou voz no galeria e amplificador de guitarra dentro do banheiro. Usou colchão de palha porquê biombo para secar o som. Era malucão.”

As gambiarras incluíram uma tampa de lata de leite no bumbo da bateria, “para dar impacto”. O pedal do instrumento, diz Zé, era, na verdade “uma cabeça de marcha de fusquinha”. O objetivo era atingir os graves da disco music. “Era tudo era precário, logo tinha que inventar.”

Vários músicos estão no disco. Lula Côrtes toca seu tricórdio em “Amanhecer” e “Gôta Serena”. Dos três bateristas, Israel Semente Proibida, ex-Ave Sangria, é quem mais aparece, com quatro músicas. O alagoano João Lyra, que tocou com o jovem Djavan na orquestra LSD, gravou guitarra em três faixas.

Paulo e Zé aproveitaram amigos que foram a Olinda para o Carnaval e os levaram ao estúdio. Antônio Sant’Anna, que tocava com Tim Maia, gravou inferior em quatro músicas. Beto Saroldi fez o sax de “Baião da Barca” e David Ganc tocou flauta em “Zé Piaba”.

Duas participações são curiosas. Um iniciante Lenine, que trabalhava no estúdio fazendo jingles, gravou percussão em várias faixas e cantou na única do álbum com vocais, “Zé Piaba”. Ele fez um dueto com Alceu, que teve sua voz cortada da obra em seguida um pedido da gravadora.

“Ele já tinha cantado e tocado no disco de muita gente. Não queriam que fizesse participação no de mais ninguém”, afirma o flautista. “Só que quando soubemos disso, o disco já estava mixado. Tivemos que voltar ao estúdio e fazer aquelas mixagens na correria que nunca dão patente. Só agora demos uma corrigida, mas na quadra a voz ficou muito subida. Lenine cantou sozinho.”

A mistura de rock e jazz com os ritmos locais, porquê baião, frevo e maracatu, para Zé da Flauta, não era um projecto elaborado. “O que a gente fazia era na maior naturalidade. Não tinha ‘vamos botar um baiãozinho cá, um jazzinho cá’. Era tão puro que a gente sequer sabia que estava participando de um movimento.”

Para o jornalista José Teles, responsável do livro “Do Frevo ao Manguebeat”, “Caruá” é segmento do ciclo de discos independentes pernambucanos daquela dezena, mas já não integraria o movimento “udigrudi” ou a psicodelia nordestina. Para ele, é um “projeto de música nordestina progressiva”. Em seu site Teles Toques, afirmou que Paulo e Zé “já estavam muito além da tempo bicho grilo”.

“A gente não passou a tempo bicho grilo, só mostrou que bicho grilo podia evoluir também”, diz o flautista. “Continuamos tendo a cabeça de bicho grilo, mas evoluímos na organização das coisas, no noção músico e de vida. A gente se casou, constituiu família. Bicho grilo também pode educar seus filhos.”

Aos 71 anos, Zé da Flauta se emociona ao se lembrar de quando descobriu “toda uma geração cá do Recife” fazendo música porquê ele —ou seja, fundindo naturalmente o som de Pernambuco com o rock. E derrama lágrimas ao comentar os anos lisérgicos com Paulo e Alceu.

“Alceu tinha uma ancestralidade formosa, verdadeira. Não tem zero falso ali. E isso nos inspirava. Quando você ouve a flauta naquelas músicas, não era eu, era a minha espírito toda, sabe? Vejo flautistas hoje terem dificuldade em interpretar aquilo que toquei. Tocam as notas direitinho, mas interpretar a frase é difícil —devido a toda a fardo emotiva.”



Folha

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