Como guillermo del toro modernizou 'frankenstein' 22/10/2025 ilustrada

Como Guillermo del Toro modernizou ‘Frankenstein’ – 22/10/2025 – Ilustrada

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Não foram poucas as vezes em que “Frankenstein”, o clássico gótico da inglesa Mary Shelley, inspirou cineastas a conciliar o romance para as telas. Em universal, a história do observador que sonha gerar um varão imortal, mas acaba gerando um monstro, costuma compreensivelmente render filmes de horror.

Mas não parece ter sido o caso do diretor mexicano Guillermo del Toro, cuja versão fílmica de “Frankenstein” estreia nesta semana nas salas de cinema e, no dia 7 de novembro, na Netflix. O cineasta prefere referir-se ao longa porquê um “filme de família”.

“Eu o vejo assim: uma história sobre ser pai e ser fruto”, disse o cineasta, no último Festival de Veneza, em setembro, quando apresentou o longa a jornalistas. “Por definição de gênero, seria de vestimenta um filme de terror ou ficção científica. Eu adoro e produzo obras assim, não tenho problemas com isso, mas o que tento fazer é tornar essas histórias muito pessoais e biográficas.”

Del Toro diz que sua versão para a trama de Shelley tem muitos traços de sua própria vida. Na história que ele apresenta, Victor Frankenstein foi criado por um pai severo e se torna um observador obcecado com a teoria de gerar um ser humano em laboratório. Junta pedaços de pessoas mortas, aplica a eles um tipo de força vital e consegue o impossível: faz surgir uma indivíduo quase humana, embora com traços de monstruosidade.

Mas o “pai” do novo ser logo o renega, achando que suas imperfeições eram maiores do que suas virtudes. O “fruto” entra em conflito com quem o trouxe ao mundo, reproduzindo a relação que o próprio observador havia tido com seu pai.

“Se eu tivesse realizado o filme quando tinha menos de 40 anos, teria feito uma obra sobre a relação entre mim e meu pai, de certa forma. Aí teria sido o filme de um ‘fruto’. Mas meus próprios filhos nasceram, logo fui parando de me comportar porquê o ‘fruto do meu pai’ e passando a ser ‘o pai dos meus filhos’. Portanto foi melhor fazer agora”, diz Del Toro, que já tinha a teoria de conciliar a obra havia décadas.

Sua versão faz várias alterações no texto que Shelley publicou em 1818. A iniciar pelo pai de Victor, que no livro era um varão aprazível e bondoso, mas que no longa é bastante violento e exigente. Isso explica uma espécie de jogo de espelhos entre pai, fruto e a indivíduo.

“Esse é um livro e um mito que está enraizado em mim desde que eu era muchacho. Ele define quem eu sou. Quanto mais você sabe sobre Mary Shelley, mais percebe que o romance é profundamente autobiográfico, logo pensei que o único compromisso que poderia ter assumido é o de tornar o filme profundamente autobiográfico”, afirma Del Toro.

“Na minha vida, eu disse que seria um varão muito dissemelhante de meu pai, mas lá pelos 40 me olhei no espelho e lá estava ele. Isso acontece com quase todo mundo, e pensei que essa era a história que eu queria relatar.”

O observador é vivido por Oscar Isaac, que faz um personagem menos amargurado e um mica mais perverso do que o do livro. “Ele sentiu esse traumatismo com o pai, pela geração que recebeu. Foi o que o conduziu a esse lugar de retribuição, a ponto de ser capaz de perder a empatia pelos outros, porque ele sente a crueldade que foi cometida contra ele e acha que a única maneira de transbordar isso é se permitir ser tão cruel quanto foram com ele”, diz Isaac.

A produção andava a todo vapor quando o planeta que interpretaria o monstro, Andrew Garfield, abandonou o projeto, priorizando outro compromisso. O papel ficou com Jacob Elordi, que mal podia imaginar a trabalheira que teria em suas poucas semanas de preparo.

Para iniciar, havia a complicação procedente do personagem, que traz uma subida ração de mel e inocência, mas também uma imensa revolta —ele precisa, ainda, passar por um processo de aprendizagem até de locomoção, de um ser que vem ao mundo com partes do corpo já calejadas, mas com falta de conhecimento sobre porquê articulá-las, porquê se fosse um bebê.

Nas filmagens, em certos dias o ator se submetia a seis horas exclusivamente para a emprego de próteses e da maquiagem. Foi com o auxílio de aulas de butô que Elordi se preparou para a complicada fisicalidade do personagem.

“A indivíduo traz em si dor, esperança, sofrimento e alegria extrema, tudo ao mesmo tempo. Tudo isso em cada pequeno músculo que tem nos dedos dos pés, detrás do orbe ocular, na psique. Porquê você transforma isso em alguma coisa físico? Eu trabalhei com um ótimo treinador de butô, que é uma espécie de dança dos mortos japonesa”, conta o ator.

Elordi também mostra que ver cinema mudo o ajudou bastante. “Prestei muita atenção aos gestos dos atores nesses filmes, porque eles tinham que relatar a história toda com seus movimentos. Teve ainda o casaco do personagem, a maneira porquê as próteses pesavam e puxavam para trás. De alguma forma, tudo meio que se encaixou.”

Quem observa as obras de Del Toro, porquê “O Labirinto do Fauno”, de 2006, e “A Forma da Chuva”, de 2017, percebe que abordar a vulnerabilidade de quem é dissemelhante, que é socialmente repelido só por não ser porquê os outros, é a grande tônica da obra do mexicano. Nesse sentido, “Frankenstein” não seria o mesmo filme de sempre, exclusivamente com outros personagens?

Del Toro diz confiar que há alguma diferença em sua novidade obra. “Eu antes fazia filmes que contavam fábulas que diziam ‘os monstros são bons’, ‘os humanos são maus’. Agora, acho que todos somos meio ruins, mas também somos meio bons.”

É uma percepção bastante moderna para uma galeria de personagens criados no século 19, mas que, de alguma forma, Del Toro quis trazer para o mundo de hoje. “Tentamos tornar o filme moderno. A maneira porquê Oscar Isaac se veste, se move e fala quando dá a palestra é porquê um show dos Rolling Stones”, diz, rindo. “Mas a personagem de Mia Goth é a mais moderna do filme. Ela é quem traz o ponto de vista do presente”, acrescenta.

Goth interpreta a altiva Elizabeth, que, se no livro de Shelley pendia para um romantismo que hoje soa enjoativo, agora traz em si a vitalidade de uma jovem do século 21. “Eu me lembro de a figurinista permanecer um pouco alarmada, me alertando de que havia um jeito de as mulheres vitorianas se moverem com todas essas camadas de roupa. Ela dizia: ‘Mia está se movendo rápido demais e de forma muito moderna’. Para mim, era ótimo. Quero que as pessoas não sintam que estão assistindo a um filme de idade”, diz o diretor.

A atriz confessa ter ficado irresoluto sobre porquê imaginar sua Elizabeth. “Às vezes pedia ajuda a Guillermo e dizia que estava com pânico de não fazer porquê ele esperava, mas ele me tranquilizava e dizia: ‘Eu a escrevi pensando em você, logo a maneira porquê você a interpretar vai ser a maneira certa’”, conta Goth, com certa timidez de uma atriz que está exclusivamente no primícias de uma trajetória provavelmente estelar —Veneza marcou sua primeira participação num grande festival de cinema.

Só quando nascente repórter comenta que, em alguns ângulos, ela se parece muito com a avó, a atriz brasileira Maria Gladys, Mia finalmente se descontrai. “Pareço mesmo! Os olhos, eu acho.” Em seguida, promete que vai “tentar ir ao Brasil no Natal”. “É o meu lugar preposto no mundo!”

Folha

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