Mulheres que fazem pactos com o Diabo, transam depois de observarem animais copulando e têm partes do corpo faltando. As personagens inquietantes de Irene Solà convivem com seres fantásticos, uma vez que fantasistas e o próprio demônio, originários de fábulas do folclore de sua Catalunha natal.
É uma mito tradicional da região na Espanha que dá início a “Te Dei Olhos e Olhaste as Trevas”, o mais recente romance da escritora catalã, publicado pela editora Mundaréu, responsável também por trazer ao Brasil outro sucesso de Solà, “Esquina Eu e a Serra Dança”.
No novo livro, uma mulher que não consegue se matrimoniar promete sua psique ao demônio em troca de um varão. O trato é feito, mas ela consegue se safar da dívida porque o seu marido não tem o dedinho do pé, logo não é um varão inteiro. Revoltado com a astúcia da mulher, Satanás amaldiçoa sua família.
Dali em diante, todos os herdeiros dela nascem com a falta de alguma coisa —uma ouvido, a língua ou a capacidade de sentir dor. A narrativa se desdobra por 400 anos e acompanha quatro gerações de mulheres que vivem no mesmo casarão, solitário em meio às montanhas.
“As protagonistas do livro são aquelas que geralmente não são protagonistas, mulheres velhas, supostamente feias, abjetas, mortas”, diz Solà. Elas passam pela miséria e pela doença, pela caça às bruxas de séculos antigos até o assalto de milícias católicas nacionalistas durante a Guerra Social Espanhola.
A narrativa é repleta de episódios grotescos —as mulheres esvaziam animais de seus órgãos para se fomentar deles e velam maridos e filhos carcomidos pela violência de lobos e de inquisidores.
As personagens vivem em atrito umas com as outras. O papel de vítima não cabe muito a nenhuma delas, que não se paralisam nem diante do demônio —em notório momento, parece que é ele o mais impactado pelo progredir implacável do tempo.
“Essa história, escrita da perspectiva dessas mulheres, me permite explorar temas uma vez que liberdade, sexualidade, corpo, violência, maternidade ou a construção do paixão romântico, e refletir sobre uma vez que as personagens femininas têm sido tratadas e representadas tanto em contextos históricos quanto ficcionais”, diz Solà.
A narrativa aproxima a autora de 35 anos de um tipo de horror feminista de popularidade crescente entre escritoras contemporâneas. A tendência é particularmente possante na América Latina, com autoras uma vez que a argentina Mariana Enríquez e a equatoriana María Fernanda Ampuero. Em generalidade, as histórias usam um quê de misticismo, às vezes retomando culturas ancestrais, para exorcizar traumas geracionais e violências de gênero.
Em alguns momentos, “Te Dei Olhos e Olhaste as Trevas” parece um romance feito de contos, tamanho o interesse da autora em destrinchar as memórias de cada uma das personagens. “É de certa forma uma história de fantasmas”, diz ela sobre sua família amaldiçoada.
“Alguns fantasmas querem dominar o oração da história familiar, enquanto outros querem olvidar e deixar o pretérito para trás, alhear e se distrair. Outros olham para trás com contrição, com amargura ou com gratidão. O romance faz isso para refletir sobre uma vez que a história foi construída, quem decidiu o que era importante, o que valia a pena transmitir e preservar e o que não valia.”
Segundo Solà, o pretérito é sempre imaginado, e há sempre um pouco que não foi relatado. Nesses meandros, o folclore preserva o DNA de sociedades inteiras ao expressar uma vez que as pessoas tentaram, um dia, explicar o mundo. “Essas histórias podem nos fazer entender muitas coisas sobre o que herdamos. Sobre as pedras que carregamos”, diz.
Seu livro anterior, “Eu Esquina e a Serra Dança”, já mostrava sua profunda tendência para a fábula —e é até hoje o maior sucesso do catálogo da pequena editora Mundaréu, um humilde fenômeno de boca a boca desde que foi publicado no Brasil, em 2021.
No romance, a morte trágica de um rapaz e a reação de sua família, que habita os Pirineus na Catalunha, é narrada pela voz de vários personagens —desde animais selvagens até uma nuvem de tempestade.
As perspectivas multíplas são aliadas a uma escrita desprendida de convenções narrativas uma vez que a fidelidade ao tempo. A morte de um personagem pode, por exemplo, sobrevir antes de sua aparição na trama.
O procedimento inusitado se liga, segundo Solà, ao indumentária de que ela também é artista plástica. “A exploração e a experimentação são a chave da minha escrita. O processo é tão importante quanto o resultado”, afirma.
Quando “Eu Esquina e a Serra Dança” foi traduzido para o inglês, gerou burburinho com repercussão no Brasil. A Mundaréu resolveu publicar a obra no selo Mundo Afora, devotado a garimpar autores de escrita inusitada vindos de regiões que, em universal, não recebem tanta atenção das editoras. Outro exemplo é o romeno Mircea Cartarescu, responsável de “Solenoide” que hoje é um nome possante para o Nobel de Literatura.
“Não adiantaria irmos detrás de livros que estão na lista dos século melhores do New York Times. Isso as [editoras] grandes já vão fazer, com mais propaganda. Logo tentamos ressarcir com uma curadoria mais atenta e ousada, fora do radar principal”, diz Silvia Naschenveng, dona da Mundaréu.
A editora relaciona a tração da autora com sua capacidade de edificar uma trama de várias vozes, humanas ou não. “Quando nos contam uma história, fazemos um pacto implícito. Desligamos os avisos de descrença, aceitamos o que está sendo relatado”, diz Solà.
Esse entendimento, que borra o limite entre real e fantástico, é o que mais a interessa. “Acreditamos no incrível, mergulhamos no irreal. Construímos em nossas cabeças as coisas que nos contam.”
