Uma frase de Clarice Lispector, escritora nascida na Ucrânia e criada no Brasil, serve de título para o romance de Kaveh Akbar, um responsável que nasceu no Irã e se formou nos Estados Unidos. “Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre.”
Zero atesta melhor porquê esse assombro é universal —e se todo mundo pensa às vezes na “indesejada das gentes”, porquê dizia o poeta Manuel Bandeira, Akbar viveu boa secção da juventude angustiado com a teoria de que sua vida um dia teria término.
“É porquê se eu estivesse numa viagem de trem margeada por dois infinitos, que seguem para sempre em duas direções, e ninguém sabe me expor zero sobre nenhum dos lados”, afirma o plumitivo de 37 anos. “Quer expor, não é normal permanecer curioso sobre aonde você está indo?”
Acabou escrevendo um livro inteiro sobre essa preocupação. “Vítima!”, primeira invasão do poeta em um grande romance, tem um protagonista que espelha não só suas agonias porquê seu processo atropelado de escrita. Esse aparente projeto de nicho acabou se tornando um inesperado best-seller em 2024, alçado à lista de melhores do ano do jornal The New York Times e da revista Time.
O livro chega agora ao Brasil pela Rocco apresentando Cyrus, iraniano que migra ainda garoto para o estado americano de Indiana em seguida perder a mãe num acidente de avião. Seu pai emenda empregos precários até sua saúde sucumbir de vez, quando o rebento já é um universitário com psique de artista.
Lidando com o alcoolismo —outro traço emprestado do responsável—, o órfão sem rumo começa a se fissurar pela teoria de que sua morte precisa ter qualquer propósito, provocar qualquer impacto, já que ele não consegue se livrar da sensação de que a passagem de seus pais pelo mundo foi em vão.
“Quando comecei a ortografar, me sentia muito próximo a essa maneira de pensar”, diz Akbar, jovem barbado, gula e vivaz que também é editor de verso e dá aulas na Universidade de Iowa.
“Há apocalipses convergindo na Terreno. Estamos à cercadura de um colapso ecológico. Há genocídios acontecendo simultaneamente. Há o prolongamento do fascismo global, a proliferação nuclear, há apocalipse para todo lugar que você olha. Com a magnitude desses problemas, qualquer quidam pode sentir que precisa buscar uma solução similarmente grandiosa.”
Era com pensamentos logo que o próprio plumitivo se atormentava. Já poeta festejado em círculos restritos, viu seus versos irem se transformando em prosa conforme trocava rascunhos com um grande companheiro e romancista célebre, Tommy Orange, responsável do premiado “Lá Não Existe Lá”.
Cyrus foi se tornando uma pessoa concreta, e não mais uma coleção de pensamentos difusos de Akbar, principalmente a partir de seus encontros com outra personagem fundamental do romance, uma artista plástica também iraniana chamada Orkideh.
Com diagnóstico de cancro terminal, a mulher decide transfixar uma última instalação no Museu do Brooklyn, em Novidade York, convidando visitantes para conversar com ela sobre a morte iminente enquanto passa dias sentada numa sala vazia, à la Marina Abramovic.
Para Akbar, gerar essa personagem foi porquê gerar uma interlocutora para seus próprios diálogos internos. É alguém que “não consegue comprar nem mais uma hora de vida com uma barganha de Fausto”, diz ele, em referência à mito alemã consagrada por Goethe.
A perspectiva dessa mulher que se despede do mundo contra sua vontade, segundo o responsável, demonstra porquê Cyrus é singelo ao tratar a vida porquê uma inércia que precisa de uma grande disrupção. “Cyrus pensa em fazer um livro perfeito para oferecer de legado ao mundo e se tornar um vítima a partir disso. E ela é alguém que, de forma dissemelhante, oferece sua vida à arte depois que não pode mais fazer zero.”
Assim, a percepção do protagonista sobre o valor da vida e o significado do sacrifício vai mudando —em vez de um invitação à melancolia, “Vítima!” evolui para um retrato do deslumbre de se conectar com o mundo e com outras pessoas.
“Quando um infeliz que odeia a vida se suicida, do que está abrindo mão?”, pergunta o romance. “Era muito mais significativo, pensava Cyrus, se retirar de uma vida que você aprecia —o chá ainda quente, o mel ainda gula.”
Esse tema paira sobre o romance, mas não resume toda sua construção de quebra-cabeça. Intercalados com a narrativa do protagonista, há capítulos com o ponto de vista de outros personagens do presente e do pretérito, elegias históricas escritas para o projeto de “livro de mártires” de Cyrus e até sonhos em que interage com gente porquê o músico Beethoven, o desportista Kareem Abdul-Jabbar e Donald Trump —inconfundível, mas citado somente porquê “presidente insolente”.
Evidente que não escapa a Akbar o acirramento da tensão entre o país onde nasceu e aquele onde vive. “Sinto muita raiva de ambos os governos”, diz ele. “O Irã e os Estados Unidos são necro-teocracias, uma mascarada de república islâmica e outra, de república secular. Mas as duas só têm interesse em morte e verba.”
“Os iranianos têm vivido sob tirania durante toda a minha vida e a da geração dos meus pais”, diz o plumitivo. “Meus familiares e amigos que estão lá se sentem mortalmente aterrorizados todos os dias. E, da perspectiva do terror deles, minha raiva é muito confortável. É um luxo.”
A própria realização de “Vítima!” foi uma maneira de o responsável mourejar com o horror real da morte enquanto lançava uma obra à imortalidade. Ao falar disso, ele lembra as antigas pinturas rupestres, em que homens e mulheres desenhavam seus predadores e as pragas que tomavam suas plantações, estendendo aquilo que os estava matando porquê um recado para o porvir.
“O que minha arte quer é ser útil na vida de pessoas que eu nunca vou saber”, diz o responsável. “Quer expor, a Rocco está levando esse livro aos brasileiros enquanto eu nem falo português. Posso compreender pessoas com que eu não teria modo qualquer de me conectar de outra maneira.”
É uma certeza comprovada, no sentido inverso, por sua paixão por Clarice Lispector, intensa a ponto de ele levar a autora à título de seu primeiro romance. E ela não é a única —no meio da conversa entre duas personagens, aparece outra brasileira que Akbar diz ao repórter ser, talvez, sua “poeta viva favorita”.
“É por isso que investimos tudo nas nossas histórias. Porque história é excremento do tempo”, diz uma das personagens, que não lembra exatamente quem falou isso. Mas a outra sabe de cor. “Adélia Prado.”
