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Como Moacir Santos, 100, criou um universo musical próprio
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Como Moacir Santos, 100, criou um universo musical próprio – 25/07/2026 – Ilustrada

Quando Mario Adnet estava recriando as partituras de “Coisa Nº 3”, do maestro Moacir Santos, ele se deparou com um problema. “Parecia uma música em três [tempos por compasso], mas era um quatro com um três dentro. Não era fácil entender a matemática dela”, diz o violonista, que regravou secção da obra do gênio pernambucano no projeto “Ouro Preto”, de 2001, ao lado do saxofonista Zé Nogueira, morto em 2024.

As partituras originais do disco “Coisas”, de Moacir, se perderam. O próprio álbum, de 1965, passou décadas fora de catálogo e, de tão vasqueiro, seu vinil original chegou a custar mais de R$ 3.000. Adnet e Nogueira desvendaram algumas engrenagens musicais das “coisas”, mas o esfinge por trás do maestro que criou um jeito próprio, altamente sofisticado, de fazer música brasileira, ainda não foi totalmente desvendado.

Neste domingo, quando Moacir faria centena anos, segue pertinente a reparo do produtor Roberto Quartin em texto-manifesto publicado no encarte de “Coisas”. “Esse seu disco pode ser um grito de desespero contra tudo isso que está inverídico, contra tudo que impediu que fosse ele reconhecido mais cedo. Posso, porém, asseverar: Moacir deu um grito de desespero rectificado.”

O reconhecimento a Moacir veio em parcelas, e não parece contemplar a magnitude de sua obra. Menino prodígio nas bandinhas militares do sertão nordestino, ele passou a juventude peregrinando, tocando por um prato de comida, até se estabelecer no Rio de Janeiro. Foi o primeiro e único maestro preto da Rádio Vernáculo, deu aulas para a nata da bossa novidade e se tornou um nome respeitado nos círculos de jazz dos Estados Unidos, onde morou desde 1967 até a sua morte, em 2006.

Hoje seu “Coisas” é tido porquê um dos grandes discos da música brasileira —na lista da revista Rolling Stone Brasil, ocupa a posição 23. O maestro é quase uma unanimidade entre os instrumentistas —virou o “músico dos músicos”. Muitos o colocam num panteão que inclui Tom Jobim e Heitor Villa-Lobos. Milton Promanação, Djavan, Gilberto Gil, João Bosco e Ed Motta cantaram suas músicas em “Ouro Preto”.

São credenciais que contrastam com uma produção autoral curta, de cinco discos —quatro deles “americanos”— e uma vida marcada por fugas. Não explicam porquê o Brasil perdeu um de seus maiores talentos, que passou boa secção da curso adaptando suas criações para o mercado dos Estados Unidos. E nem por que seu nome é tão pouco divulgado fora de uma bolha “cult”, de músicos ou aficionados por música.

Há pistas em sua biografia. A flautista Andrea Ernest Dias, que tocou em “Ouro Preto”, investigou as andanças de Moacir em seu livro “Moacir Santos, ou Os Caminhos de um Músico Brasílio”, fundamentado em escritos do próprio artista. A obra, de pegada acadêmica e com análises musicológicas, saiu em 2014 e ganha reedição no centenário do maestro, pela editora Folha Seca.

Moacir nasceu numa tapera entre Serra Talhada, Flores, São José do Belmonte e Bom Nome, no sertão pernambucano. Sua mãe morreu quando ele tinha três anos. O pai o deixou para se juntar às forças volantes no combate ao cangaço. O menino e seus irmãos foram distribuídos em famílias da região —a de Moacir era branca e proporcionou a ele uma instrução privilegiada.

Mas não sem um dispêndio. “Ele era um menino meio mandado”, afirma Ernest Dias. “Uma tia falava, ‘vai lá buscar chuva’, ‘faz isso’, ‘faz aquilo’. É uma coisa muito típica brasileira, de famílias brancas com um rapazinho preto.”

Moço, Moacir já tirava sons de garrafas, comandava bandinhas infantis e fazia pífanos com bambu. Integrou a Filarmônica de Flores, onde aprendeu a tocar, antes de fugir de morada aos 14 anos, cansado de ser maltratado. Inspirou-se no aventureiro protagonista do cordel “A Vida de Melodia de Queimada e Seu Testamento”, de Leandro Gomes de Barros.

O menino rodou o Nordeste de carona, andando ou no estilo morcego —pendurado em caminhões. Passou por cidades maiores, porquê Serra Talhada, em Pernambuco, e Crato, no Ceará, além de vários pequenos municípios. Foi diretor músico de um circo, trabalhou em fábrica, arrecadação, carpintaria e feira. Vez ou outra passava inópia.

O roteiro era parecido. Moacir procurava a orquestra da cidade, impressionava músicos e autoridades com suas habilidades e conseguia comida, teto e trabalho por um tempo. Invariavelmente se aborrecia com alguma injustiça ou vexação praticada por um patrão e botava novamente o pé na estrada.

Dois momentos desse período são marcantes. Em Salvador, ele trabalhava porquê entregador de pães quando conheceu —e se impressionou— com músicos americanos de jazz que tocavam em um cassino. Também se sentiu desafiado quando foi chamado para tocar em uma orquestra e não saber ler partituras. Situações porquê essa foram recorrentes na vida do maestro, que se voltava aos estudos quando seus dotes musicais eram postos à prova.

Sem moeda, Moacir tentou voltar a Pernambuco, mas não conseguiu pegar o embarcação porque não tinha registro de promanação. Só botou as mãos no documento na dezena de 1960, quando voltou ao sertão para resgatar sua origem e tirar o visto americano. Essa procura por uma identidade sempre mexeu com Moacir e motivou a música “What’s My Name?”, de 1974, que depois virou “Oduduá”, com letra original em português escrita por Nei Lopes.

Moacir Santos não entrou na Orquestra da Aviação de Recife porque só brancos eram contratados. Anos depois, quase não ingressou no conjunto da Polícia Militar de João Pessoa pela mesma razão.

O livro de Andrea Ernest Dias traz um diálogo entre o tenente que era rabi da orquestra e o comandante da polícia, que disse em seguida o teste de Moacir: “Mas ele é preto!”. O tenente respondeu: “Há alguns pretos na orquestra que eu não trocaria por muitos brancos da mesma orquestra”.

Roberto Quartin definiu “Coisas” porquê um grito de desespero contra “tudo isso que está inverídico”, em que se subentende o racismo. Mas o próprio Moacir pouco se queixou dessas situações. Para Nei Lopes, pesquisador da cultura afro-brasileira, questões de etnicidade não se discutiam no Brasil. “A gente era discriminado e não podia reclamar. Na minha família aconteceu isso. Era ‘você não tem que estar preocupado com isso, tem que estudar para vencer’.”

Apesar disso, Ernest Dias se lembra de que Moacir dizia ser “um africano nascido no Brasil”. Ele disse no encarte de “Ouro Preto” que a música “Bluishmen”, lançada em 1972, retratava “negros que, de tão retintos, chegam a ser azulados”. “São de uma tribo africana que fica na costa, na mesma direção do Ceará. Deve ter sido o mesmo lugar, na estação em que os continentes eram uma coisa só.”

Em João Pessoa, Moacir conheceu e se casou com Cleonice, sua mulher até o término da vida. Mesmo sem dominar técnicas de emendo, foi nomeado maestro da rádio Tabajara, onde ficou até se mudar para o Rio, em 1948, aos 22 anos.

Moacir chegou à Rádio Vernáculo, meca dos músicos numa era pré-TV, com uma indicação do prefeito da capital paraibana. Posteriormente sua audição, afirma o livro de Dias, o maestro Chiquinho disse aos diretores da rádio: “Colocamos umas músicas para o rapaz e ele tocou tudo. Entretanto, ele colocou umas músicas para nós e nós não as tocamos.”

Estudioso compulsivo, Moacir definiu um período de cinco anos para se tornar um músico mais completo. Em três, já havia obtido o objetivo —se tornou maestro da Rádio Vernáculo.

Nesse período, aprendeu teorias de vanguarda da música erudita europeia, porquê o dodecafonismo, com gente porquê Cláudio Santoro, Paulo Silva, Guerra Peixe, o boche Hans-Joachim Koellreutter e o austríaco Ernst Krenek.

“Ele estudava o mesmo tópico com cada um, queria saber do mesmo tópico de cada ponto de vista”, diz Adnet. Para Dias, essas teorias ajudaram a organizar o pensamento músico de Moacir, que foi um dos primeiros a sistematizar os ritmos negros do Brasil.

Fez isso em seguida frequentar ensaios da Orquestra Afro-brasileira, de Abigail Moura, se inspirando na centralidade dos tambores ligados a umbanda e candomblé. Em 2022, o maestro Letieres Leite reestabeleceu a conexão de Moacir com os terreiros ao recriar sua obra em “Moacir de Todos os Santos”, lançado pela gravadora Três Selos Rocinante, com sua Orkestra Rumpilezz —e Caetano Veloso cantando “Nanã”.

A musicalidade africanizada de Moacir Santos aflora na trilha de “Ganga Zumba”, primeiro filme de Cacá Diegues e marco do cinema novo, de 1963. A experiência foi um laboratório para “Coisas”, também influenciado pela formação usada pelo jazzista Gerry Mulligan —com inferior, bateria e oito sopros. Foi por pretexto do americano, afirma Mario Adnet, que ele adotou o sax barítono.

Na dezena de 1960, o maestro foi professor de uma geração de músicos. A lista inclui Nara Leão, Sergio Mendes, João Donato, Roberto Menescal, Carlos Lyra e Dori Caymmi, além de cantores porquê Nelson Gonçalves, as integrantes do Quarteto em Cy e instrumentistas porquê Rabino Marçal e Raul de Souza e o parelha Airto Moreira e Flora Purim.

Mas Baden Powell foi seu maior pupilo. Disse que, na estação, os músicos profissionais iam estudar “música superior” com ele. “Era um professor sensacional, meio metafísico, explicava a simetria, os intervalos entre as notas, as dissonâncias, usando porquê exemplo as estrelas.”

Eles ficaram amigos, ao ponto de Moacir mostrar o que estava compondo. Baden gravou duas “coisas” em seu disco de 1963 com o baterista americano Jimmy Pratt. Mais que isso, aplicou os estudos na geração de “Os Afro-sambas”, que lançou em 1966 com Vinicius de Moraes. O álbum, aliás, teve o mesmo selo, Forma, e produtor, Quartin, de “Coisas”, além de descrever com um professor —Guerra Peixe, nos arranjos— e alunas —Quarteto em Cy— de Moacir.

O maestro também ficou próximo de Vinicius, com quem compôs músicas —porquê “Se Você Disser que Sim” e “Menino Travesso”— e arranjou discos.

“Me lembro de Vinicius, Baden e outras pessoas importantes lá em morada. Estava sempre enxurro com esse pessoal fazendo música. Talvez o ‘Samba da Bênção’ tenha sido feito lá”, afirma Moacir Santos Jr., fruto único do pernambucano.

É dessa melodia o famoso salve do poetinha ao maestro. “A bênção, maestro Moacir Santos/ Não és um só, és tantos porquê/ O meu Brasil de todos os santos.”

Moacir escreveu a “Coisa” mais famosa, a “Nº 5” ou “Nanã”, no apartamento de Vinicius, ao contemplar um lago no Parque Guinle, em Laranjeiras. A música foi inspirada em Cleonice, que tinha uma relação místico com o orixá. A melodia foi um sucesso na dezena de 1960, gravada por Wilson Simonal, Nara Leão e Sergio Mendes, entre outros.

Mesmo próximo da cena de bossa novidade e samba-jazz, Moacir fazia uma música substancialmente distinta. Quando lança o “Coisas”, diz Andrea Ernest Dias, ele se destaca naquele envolvente. “Traz um elemento polirrítmico e de contraponto. E melodias mais elaboradas, ainda que buscando uma simplicidade.”

A polirritmia, noção fundamental na música africana —e na brasileira que descende dela— é meão na obra de Moacir. Ele tinha uma apostila com células de polirritmia, que criou fundamentado nessa tradição. Chamou-as de “Ritmos MS”, cada uma com um número equivalente. Foi com essa linguagem que o maestro respondeu a Adnet, quando ele tentava reescrever suas “coisas”.

“Tive que vincular para o Moacir, eu precisava saber o que acontece na ‘Coisa Nº 3’”, afirma o violonista. “Ele falava assim: ‘Meu fruto, é o ritmo três’. Mas o que é isso? ‘Ritmo três.’ Eu fiquei: ‘Que diabo é isso?’. Só vim saber depois que ele tinha essa apostila de ritmos.”

O maestro afirmou certa vez que “quando estou embrenhado em música sinfônica, sinto falta daquele ritmo que é meu origem”. Chamava suas composições de coisas porque recusava a cognome “opus” da música clássica. “Quem sou eu para fazer um opus? Isso é uma coisa. Aí fui fazendo ‘Coisa Nº 1’, ‘Nº 2’. Até hoje, só faço coisas”, ele diz no registro audiovisual de “Ouro Preto”.

Ainda que se inspirassem na natureza, tivessem espiritualidade aflorada e explicassem música a partir das estrelas, as composições de Moacir eram matematicamente pensadas. Todos elementos travam um diálogo intrincado.

“Cada instrumento tem um papel na organização do Moacir”, diz Mario Adnet. “Ele escrevia piano com o violão complementando. Nunca tocavam juntos. Era sempre um perguntando, o outro respondendo e se encaixando nos espaços deixados pelo outro. Onde tinha pausa no inferior, um pouco acontecia no piano.”

A bossa novidade, ele afirma, não tinha isso. “Era aquele violão ali e o piano vinha porquê se fosse um instrumento de emendo —e não de base. E a bateria, sempre naquela vaga. Mas o Moacir, não. Tinha uma bateria que se desenhava a partir da traço de inferior ou vice-versa. Era um em frente ao outro. E ele construía esse prédio em cima disso.”

Com o golpe militar e o desmantelamento da Rádio Vernáculo, o maestro passou a trabalhar na TV Rio, onde convivia com atrasos constantes de salário. Chegou ao ponto de cogitar fazer bicos porquê taxista para remunerar as contas vencidas. Foi quando decidiu vender tudo e ir aos Estados Unidos com Cleonice em 1967. Ele tinha passagens para ir à estreia do filme americano “Paixão no Pacífico”, em que assina a trilha sonora.

Passou um tempo em Novidade York tocando porquê freelancer e chegou a gravar músicas que só seriam lançadas no álbum “Opus 3 Nº 1”, anos depois, em 1979. O empresário de jazz Albert Marx, escreve Moacir Santos no encarte do disco, não quis lançar as canções. “Pelo que pude compreender, devido aos ritmos muitos estranhos que eram componentes de minha música.”

Ele se estabeleceu na Califórnia por indicação de Sergio Mendes. Atuou porquê compositor fantasma na equipe de grandes autores de trilhas em Hollywood, porquê Henry Mancini e Lalo Schiffrin, sem receber créditos. Tocou em shows de todos os tipos, até na igreja. Até o término da vida, estudou música e foi professor, em sua morada, em Pasadena.

Também ganhou espanto dos jazzistas. Ficou colega de Clare Fischer, Gary Foster e Steve Huffsteter. Esse último conta que Herbie Hancock elogiou Moacir em gravação com o baterista João Palma de que ambos participaram. Wynton Marsalis chamou o pernambucano de “Duke Ellington brasílio” por sua capacidade de orquestração.

O trompetista americano inclusive gravou no disco “Choros e Alegria”, uma prosseguimento de “Ouro Preto”, idealizada por Adnet e Nogueira. O álbum de 2005 contemplou a obra logo inédita que Moacir compôs nos anos 1940.

Mas o grande feito do brasílio nos Estados Unidos foram os três álbuns lançados na dezena de 1970 pelo selo Blue Note, o mais importante do jazz. “Maestro”, de 1972, foi o mais bem-sucedido.

João Bosco, fã de Moacir desde “Coisas”, lembra do choque ao ouvir um álbum que desconhecia. “Estou na morada da Elis Regina em São Paulo. Ela diz assim: ‘Você ouviu o disco novo do Moacir?’. Falei: ‘Nem sabia que tinha. Ele regravou ‘Coisas’?’. Ela disse: ‘Não, é álbum novo’. Aí me apresentou ‘April Child’. Fiquei deslumbrado com aquilo.”

“April Child”, que no “Ouro Preto” virou “Maracatu, País do Paixão”, com novidade letra de Nei Lopes e cantada por Gilberto Gil, mostrava porquê Moacir foi empacotado para o mercado americano. Suas músicas agora tinham letras em inglês e eram mais alinhadas ao jazz.

Há um visível viralatismo em tratar porquê auge o sucesso relativo de Moacir num país que, em suas palavras, “tem mais facilidade para ir à Lua do que para entender um samba”. Ele disse isso nos anos 1990 ao pianista Guilherme Vergueiro, que perguntou se os americanos entendiam o “molejo brasílio”. “Não, pelo contrário, têm muita dificuldade. Acho que eles aprendem desde cedo a coisa toda muito matematicamente, deixando pouco espaço para o espírito.”

Foi por isso que Moacir criou um ritmo batizado de “mojo”. “O americano não entendia o dois por quatro do samba, logo tinha que ortografar no dois por dois”, diz Adnet, citando os tempos por compasso. “Ele criou um ritmo intermediário entre [jazz] e um samba ou um baião quando viu que samba não ia tanger lícito. ‘Luanne’, por exemplo, é um samba dissemelhante —um ‘samba-mojo’.”

Moacir conquistou nos Estados Unidos prestígio e um cotidiano confortável, em que vivia da própria música. Mas não fez secção da escol do jazz. Quando morreu, o The New York Times o definiu porquê “compositor brasílio de jazz cuja obra de seis décadas foi redescoberta e celebrada no Brasil e nos EUA exclusivamente nos últimos cinco anos”.

Vítima de um acidente vascular cerebral, um AVC, que o impossibilitou de tocar em 1995, Moacir veio pouco ao Brasil. João Bosco o visitou em Pasadena, assim porquê Djavan, que teve o maestro porquê arranjador da música “Capim”, do disco “Luz”, de 1982.

Até os anos 2000, “Coisas” ficou inacessível, sem reedições. E mesmo relançado em CD e vinil neste século, ainda hoje não está no streaming. Os álbuns americanos sequer saíram no Brasil.

Em 2001, “Ouro Preto” foi fundamental para a redescoberta de Moacir em seu país de origem, assim porquê as letras de Nei Lopes. “Ele ficou muito feliz. Disse que nunca tinha se visto daquele jeito. As músicas gravadas no exterior não tinham a origem da negritude.”

Esse trabalho, ele diz, foi um dos grandes momentos de sua vida. “Não só da curso porquê também do meu envolvimento místico. Essas coisas vieram de maneira oriundo. Tem qualquer mistério aí —e isso eu prezo muito.”

Moacir não era aderente das religiões de matriz africana —Cleonice era mais ligada—, mas tinha potente espiritualidade. Seguia a teosofia, filosofia que mistura conceitos de ciência e religião, e era leitor voraz dos livros da russa Helena Blavatsky, que foram traduzidos para o português por Fernando Pessoa.

Para Adnet, Moacir encontrou silêncio nesse universo místico. “Evidente que ele sofreu racismo”, diz. “Ele falou para mim: ‘Eu precisava emendar um mundo para viver, um outro mundo que não fosse esse. Para conseguir viver nesse mundo, tenho que ter outro. Se eu não tiver, não consigo viver nesse’.”

Talvez esse outro mundo fosse porquê a arte de Moacir —tão privado que não cabe nesta Terreno. A sensação é de que até hoje a obra do maestro ainda procura um lugar de pertencimento —entre a África e o Brasil, o Brasil e os Estados Unidos, a matemática e as sensações, a ciência e a religião, o popular e o erudito. Uma vez que escreveu Roberto Quartin em “Coisas”: “Não sei até hoje se Moacir Santos é de extrema direita ou de extrema esquerda, mas sei que ele é de extrema musicalidade e de extrema honestidade consigo mesmo.”

Folha

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