Como o Festival de Joinville monta musical em uma semana – 26/07/2026 – Ilustrada
Sessenta e dois artistas vindos de diferentes regiões do Brasil têm somente uma semana para transformar partituras, marcações de palco, figurinos e cenários em um espetáculo completo. É esse duelo contra o relógio que faz da montagem de “Matilda Jr.”, que será apresentada na segunda-feira (27) no Festival de Dança de Joinville, uma das atrações mais aguardadas desta edição.
Antes de chegarem a Joinville, porém, os participantes passam por um processo seletivo que começa meses antes e mobiliza candidatos de todo o país. Interessados enviam vídeos e áudios em que cantam, interpretam e dançam. Os aprovados garantem uma vaga na montagem, mas ainda não sabem qual personagem irão interpretar. A definição do elenco acontece somente no primeiro dia do festival, quando a diretora Fernanda Chamma, o maestro Renan Encontrar e o coreógrafo Roberto Justino realizam uma novidade audição presencial para repartir os papéis.
É nesse encontro que decidem quem será a Matilda, a diretora Trunchbull, a professora Honey e os demais personagens. A partir daí, começa uma maratona de seis dias de ensaios para colocar de pé uma montagem oficialmente licenciada do músico inspirado na obra de Roald Dahl. As partituras, o roteiro e as trilhas chegam dos Estados Unidos, enviados pelos detentores dos direitos autorais.
“Eles não acreditam que a gente consiga montar um músico solene em tão pouco tempo. Mas a gente consegue”, afirma Fernanda Chamma, que coordena o Festival de Teatro Músico e dirige a montagem.
A rotina começa às 10h e termina às 18h. Enquanto segmento do elenco ensaia esquina, outro grupo trabalha versão, coreografias, figurinos e marcações de cenário. A estrutura é a mesma de uma produção profissional, condensada em somente uma semana.
Segundo o maestro Renan Encontrar, o primeiro duelo é identificar as vozes mais adequadas para os personagens principais. Mas, dissemelhante do mercado profissional, o objetivo não é somente encontrar os melhores intérpretes, e sim edificar um espetáculo em que todos participem.
“Num músico profissional você segmento de um elenco pronto. Cá a gente lapida durante o processo. Às vezes uma muchacho não consegue determinada música e recebe outra função. O importante é que todos façam segmento do espetáculo”, afirma. O coro ajuda a lastrar os diferentes níveis de experiência. Mesmo que algumas vozes ainda estejam em desenvolvimento, explica o maestro, o conjunto produz um resultado consistente.
Para o coreógrafo Roberto Justino, que começou a trabalhar com Fernanda Chamma ainda muchacho e hoje integra a equipe criativa das montagens, o maior objetivo vai além da apresentação final. “Quando eles voltam para moradia querendo pesquisar outros espetáculos, aprender novas coreografias ou estudar mais teatro músico, a gente percebe que despertou um interesse que continua depois do festival.”
A iniciativa acompanha um momento de expansão do teatro músico brasiliano. Segundo dados da FGV, encomendados pela Sociedade Brasileira de Teatro Músico (SBTM), o setor movimenta mais de R$ 1 bilhão por ano e consolidou São Paulo porquê principal polo vernáculo das grandes produções, impulsionado pela chegada de adaptações da Broadway e do West End e pela sinceridade de teatros dedicados ao gênero.
Para Fernanda Chamma, no entanto, esse desenvolvimento ainda acontece de forma desigual. Apesar do surgimento de escolas e grupos em diferentes estados, a cárcere produtiva continua concentrada no eixo Rio-São Paulo.
“Tem artistas excelentes no Nordeste, em Minas Gerais, no Rio Grande do Sul, em Goiás, no Pará. O que ainda falta é estrutura. Não só escolas para formar atores, mas equipes técnicas de iluminação, sonorização, cenografia e produção. Hoje ainda é muito Rio-São Paulo.”
Ela observa que essa concentração também se reflete nas grandes produções comerciais, frequentemente estreladas pelos mesmos nomes, porquê Fabi Bang e Myra Ruiz. Na avaliação da diretora, o fenômeno faz segmento da lógica do mercado, mas não pode impedir a renovação.
“Elas conquistaram esse espaço por préstimo. A Fabi, por exemplo, começou porquê bailarina e construiu essa curso. Só que, se a gente não furar espaço para novos artistas, nunca teremos as próximas Fabi Bang e Myra Ruiz.”
É essa renovação que o Festival de Dança pretende estimular. Além da montagem de “Matilda Jr.”, a programação inclui uma mostra competitiva dedicada exclusivamente ao teatro músico e, a partir do próximo ano, receberá representantes de uma universidade inglesa para selecionar artistas brasileiros para cursos e montagens profissionais em Londres, com bolsas integrais e contratos de trabalho.
O músico será apresentado no palco do Teatro Juarez Machado em duas sessões, às 14h e às 16h. A primeira já está com ingressos esgotados; para a segunda, ainda há entradas disponíveis.
A jornalista viajou a invitação do Instituto Festival de Dança de Joinville





