A Folha reuniu profissionais que participaram de sua cobertura literária neste ano para selecionar alguns dos melhores livros que leram em 2025.
Cada pessoa foi convidada a indicar cinco títulos, divididos nas seções de ficção e não ficção, sem maiores restrições.
O resultado são 40 obas que formam um quadro diverso de leituras, dialogando com temas que atravessam a atualidade e refletem o trabalho de diversos autores e editoras.
Segmento das obras ainda não chegou às livrarias brasileiras e, nesses casos, foi discriminado o preço de toga na editora original.
Confira, a seguir, as recomendações dos jornalistas e críticos convidados pela Folha:
Não Ficção
Reinaldo José Lopes
Repórter de ciência e colunista da Folha, responsável de “Homo Ferox” e “1499: O Brasil Antes de Cabral”
‘Estudo’
Vera Iaconelli, ed.: Zahar, R$ 69,90 (208 págs.), R$ 29,90 (ebook)
Nem o inimigo mais renhido das extravagâncias interpretativas da psicanálise é capaz de permanecer indiferente à prosa da autora. Pode ser que as relações que a psicanalista tenta traçar entre sua história pessoal e o pensamento de sua extensão de trabalho sejam o calcanhar de Aquiles da obra. Ainda assim, a profundidade de introspecção que ela traz para seu autorretrato faz valer cada página.
‘Determinados’
Robert M. Sapolsky, ed.: Companhia das Letras, trad.: Berilo Vargas, R$ 119,90 (544 págs.), R$ 49,90 (ebook)
Os que esperam um tom mais sisudo num livro que se propõe a responder de uma vez por todas, com base em dados científicos, a velha questão sobre a existência ou inexistência do livre-arbítrio provavelmente vão se irritar com a irreverência autodepreciativa do neurocientista e primatólogo. Por trás das piadas, porém, temos uma cabeça intelectualmente rigorosa, iconoclasta e compassiva. Não é preciso concordar com a tese medial do livro para apreciá-la.
‘Para Entender (Quase) Tudo Sobre o Clima’
Anne Brès, Thomas Wagner/BonPote, Claire Marc (org.), ed.: Edições Sesc, trad.: Andréia Manfrin Alves, R$ 60 (136 págs.)
É impressionante uma vez que um tanto conceitualmente tão simples —uma coletânea de infográficos originalmente publicados numa rede social, produzidos pela colaboração de duas pesquisadoras e um influenciador— consegue reunir tanto do que sabemos sobre a atual emergência climática, com pouco texto e muita informação. Os autores decidiram também, acertadamente, usar o formato “perguntas e respostas” e abordar as primeiras teorias da conspiração sobre o tema. Presente ideal para tios negacionistas.
‘Proto’
Laura Spinney, ed.: Bloomsbury Publishing, U$ 29,99 (352 págs.), U$ 20,99 (ebook)
A família linguística indo-europeia —a mesma que abrange tanto o português quanto o armênio, tanto o teuto quanto o pérsico e o hindi— é de longe a mais estudada pelos pesquisadores que buscam reconstruir a evolução dos idiomas, mas ainda há muito a se aprender sobre suas origens. O livro faz uma síntese soberba dos dados mais confiáveis sobre essa história e apresenta uma re construção muito mais nuançada da expansão indo-europeia, deixando de lado estereótipos belicistas em voga no século 19.
‘O que os Psiquiatras Não te Contam’
Juliana Belo Diniz, ed.: Fósforo, R$ 89,90 (256 págs.), R$ 62,90 (ebook)
A essa profundidade, quase todo mundo deve ter percebido que o tremendo progressão do conhecimento sobre a estrutura e o funcionamento do cérebro não tem sido suficiente para enfrentar a atual pandemia de transtornos mentais. O livro de Diniz mostra por que medicamentos, por mais úteis que sejam, não são balas de prata contra a depressão, a sofreguidão e outros males, e uma vez que aspectos que vão além dos neurotransmissores ainda são cruciais para a saúde mental.
Patrícia Campos Mello
Repórter privativo vencedora do prêmio Maria Moors Cabot e autora de “A Máquina do Ódio”
‘Empire of AI’
Karen Hao, ed.: Penguin Press, U$ 32 (496 págs.), U$ 16,99 (ebook)
O livro de Karen Hao, que sairá no Brasil pela Rocco em 2026, é forçoso para desmistificar a perceptibilidade sintético, que está longe de ser a panaceia alardeada por barões da tecnologia. Por trás do fascinante progressão tecnológico e das promessas de prosperidade futura, estão danos muito concretos no mundo de hoje. Porquê mostra Hao, as empresas de IA são uma vez que os “impérios da estação do colonialismo europeu” que “extraem recursos preciosos para cevar sua visão da perceptibilidade sintético”.
‘Enshittification: Why Everything Suddenly Got Worse and What to Do About It’
Cory Doctorow, ed.: Farrar, Straus and Giroux, U$ 20 (352 págs.), U$ 15,99 (ebook)
Não, não é sentimento sua. A internet está realmente ficando pior. E o responsável canadense, um dos mais respeitados especialistas em tecnologia, mostra o porquê em seu livro, de nome traduzível uma vez que “merdificação: por que tudo piorou de repente e o que fazer a reverência”. O termo popularizado pelo responsável descreve a piora gradual nos serviços prestados pelas plataformas de internet à medida que as empresas se tornam mais poderosas. Ele explica o que possibilita essa “merdificação”, quais suas consequências e uma vez que podemos combatê-la.
‘1461 Dias na Trincheira’
Eduardo Scolese, ed.: Autêntica, R$ 79,80 (256 págs.), R$ 55,90 (ebook)
Ao retratar o dia a dia da Redação da Folha durante as coberturas da pandemia de Covid e do governo Bolsonaro, Scolese mostra uma vez que os jornalistas encararam um dos trabalhos mais difíceis de suas vidas. Mesmo sob ataque do ex-presidente e enfrentando os perigos do vírus, os jornalistas tentavam trabalhar da melhor maneira verosímil e buscavam manter o processo jornalístico inviolado diante de um governo que ameaçava a democracia. Com riqueza de detalhes e farta documentação, a obra transporta o leitor para a traço de frente da procura da notícia.
‘Patriota’
Alexei Navalni, ed.: Rocco, trad.: Clóvis Marques, R$ 119,90 (464 págs.), R$ 49,90 (ebook)
Tanto para os aficionados pelo noticiário internacional uma vez que para os neófitos em geopolítica, as memórias de Navalni, publicadas postumamente, são uma lição de história recente da Rússia. Apesar de todas as dificuldades que enfrentou, entre elas diversas prisões, o responsável consegue manter o bom humor nos relatos do livro. Ao narrar sua “quase morte” em um avião por intoxicação e os meses de solitária a uma temperatura de 35 graus negativos, ele agrega detalhes que ajudam a tornar levante livro imperdível.
‘Ucrânia: Quotidiano de uma Guerra’
Andrei Kurkov, ed.: Carambaia, trad.: Marcia Vinha e Renato Marques, R$ 139,90 (392 págs.), R$ 97,90 (ebook)
Em uma guerra supostamente tecnológica, dominada por drones e robôs, o livro de Kurkov é um banho de veras ao mostrar uma vez que a invasão russa subverteu a vida dos ucranianos. Um dos mais reconhecidos escritores do país, ele consegue nos transportar para o cotidiano dos ucranianos ao mesmo tempo em que analisa a política e a história dos dois países, tudo isso em uma escrita cativante. É um privilégio ter Kurkov uma vez que guia para entender uma vez que uma guerra desfigura a existência das pessoas tão distantes do front.
Gabriel Trigueiro
Crítico cultural e doutor em história comparada, é responsável de ‘Cinéfilo Nem É Gente’
‘Chuva Escura: Vozes de Dentro do Véu’
W.E.B. Du Bois, ed.: Fósforo, trad.: Floresta, Nina Rizzi e André Capilé, R$ 104,90 (384 págs.), R$ 73,40 (ebook)
Publicado em 1920, ganhou em 2025 sua primeira edição em português. É complicado não usar o clichê de que é a obra ainda é atual. A força retórica de Du Bois, ao misturar ensaios e antigas canções religiosas, tudo salpicado com tempero autobiográfico, é difícil de ser imitada. Mas inaugurou, ou pelo menos popularizou, uma tradição intelectual antirracista da qual sentimos o repercussão até hoje. É religiosa no tom, mas segura e lúcida na resguardo de valores seculares fundacionais: liberdade e paridade.
‘Dead and Alive: Essays’
Zadie Smith, ed.: Penguin Press, £22.17 (352 págs.), £11.99 (ebook)
Smith é mais conhecida por seus romances do que por sua obra de não ficção. Mas, a exemplo de Martin Amis, um de seus heróis literários, é na segunda em que brilha, não na primeira. Suas observações políticas nem sempre são corretas ou precisas, mas certamente são afiadas e animadas por um princípio rígido de honestidade intelectual. Poucas coisas são mais saborosas do que ler o que diz sobre escritoras de gerações anteriores (Didion, Morrison etc.) ou sobre suas cidades amadas: Londres e Novidade York.
‘Para John’
Joan Didion, ed.: HarperCollins, trad.: Marina Vargas, R$ 89,90 (224 págs.), R$ 29,90 (ebook)
O livro é um apanhado das transcrições das sessões de Didion com seu psiquiatra, Roger MacKinnon, durante três anos, e endereçadas ao seu marido, o repórter John Dunne. A obra é meio que o material bruto que culminou em dois de seus livros mais famosos: “O Ano do Pensamento Mágico”, de 2005, e “Noites Azuis”, de 2011. Em “Para John”, assuntos complexos e delicados uma vez que luto e alcoolismo são abordados sem um pingo de sentimentalismo, com precisão analítica quase judicial.
‘O Projeto’
David A. Graham, ed.: Zahar, trad.: Berilo Vargas, R$ 79,90 (176 págs.), R$ 39,90 (ebook)
É um magnífico planta da subida do trumpismo nos Estados Unidos. Ele disseca o “Projeto 2025”, documento elaborado pela Instalação Heritage e outras organizações conservadoras com diretrizes de governo para o redesenho do Poder Executivo. É um livro que demonstra que até um movimento anti-intelectual, uma vez que o populismo de direita, necessita de intelectuais e ideias, gostemos delas ou não, para permanecer de pé.
‘Selected Letters of John Updike’
John Updike, org.: James Schiff, ed.: Knopf, U$ 55 (912 págs.), U$ 19,99 (ebook)
Updike escreveu romances, contos, poemas e foi crítico literário da revista The New Yorker. Jogou nas 11. Oriente livro funciona em pelo menos três níveis distintos: uma vez que natividade saborosa de fofocas literárias; uma vez que via de aproximação ao pensamento vivo do sujeito que inventou nosso imaginário sobre o subúrbio americano; e uma vez que romance epistolar experimental, que cobre não só sete décadas do maior historiógrafo dos Estados Unidos, mas do país mesmo, com todas suas enormes contradições.
Walter Porto
Editor de Livros e colunista do Quadro das Letras
‘Autobiografia do Algodão’
Cristina Rivera Garza, ed.: Autêntica Contemporânea, trad.: Silvia Massimini Felix, R$ 89,80 (336 págs.), R$ 62,90 (ebook)
Cada vez mais sedimentada uma vez que uma das principais escritoras do nosso tempo, a mexicana apareceu até em lista de cotados para o Nobel. E é justo. Se “O Invencível Verão de Liliana” é seu livro que reverbera mais no peito e “Os Mortos Indóceis” é onde ela destrincha sua teoria mais técnica, cá Rivera Garza produz um equilibro de obra-prima. Tente não se emocionar com a maneira uma vez que ela elabora as vidas de familiares mortos; tente não se maravilhar com a destreza com que usa cada vocábulo para modular o tom de sua narrativa pessoal.
‘A Máquina que Pensa’
Stephen Witt, ed.: Intrínseca, trad.: André Fontenelle, R$ 59,90 (272 págs.), R$ 39,90 (ebook)
Se a perceptibilidade sintético é o grande tema do ano, essa é uma bela narrativa de uma vez que chegamos até cá. Osco de biografia de Jensen Huang, empresário taiwanês-americano que fundou a Nvidia, o livro retraça os avanços científicos e as tretas corporativas que possibilitaram o desenvolvimento da IA generativa baseada no treinamento de modelos de linguagem —uma história vertiginosa temperada com brigas de bastidores, vaidades de bilionários e apostas quase ensandecidas.
‘Mercadores da Incerteza’
Naomi Oreskes e Erik Conway, ed.: Quina, trad.: Fernando Santos, R$ 89,90 (512 págs.)
Que negacionistas existem, nós sabemos. O que Oreskes e Conway revelam nesse livro de 2010, que chega ao Brasil já com status de clássico, é uma vez que funcionam as engrenagens lucrativas do negacionismo. Indo do lobby pró-cigarro dos anos 1950 até os influenciadores que rejeitam o aquecimento global hoje, os dois historiadores da ciência mostram, em nível excruciante de pormenor, quem são as pessoas pagas para fazer com que você duvide que a verdade é verdade.
‘Monstros’
Claire Dederer, ed.: Amarcord, trad.: Joca Reiners Terron, R$ 74,90 (384 págs.), R$ 33,73 (ebook)
A discussão sobre “separar a obra do responsável” é quase tão insuportavelmente saturada quanto a do “limite do humor”. Por isso é surpreendente o prazer com que se lê essa série de ensaios em que a sátira cultural americana aborda o desconforto —seu, meu, do público— com obras criadas por pessoas horríveis, muito mais por um processo de autoanálise que de julgamento de terceiros. Ao final, é um preconização emocionante à maneira uma vez que a arte nos toca em lugares que não conseguimos controlar nem explicar.
‘Pensar com as Mãos’
Marília Garcia, ed.: WMF Martins Fontes, R$ 64,90 (256 págs.)
Se as máquinas parecem prestes a pensar, Garcia lembra que pensar —e redigir— não é zero sem sangue pulsando no peito, sem paixão à arte que formou nossas lembranças, sem o risco calculado de se expor em cada página, sem as águas da memória viva agitando o presente.
Ficção
Anna Virginia Balloussier
Repórter privativo da Folha e autora de ‘O Púlpito’
‘A Astromância de Liv Strömquist’
Liv Strömquist, ed.: Quadrinhos na Cia, R$ 99,90 (184 págs.)
A quadrinista não pretende provar ou rejeitar crenças esotéricas: quer revelar uma vez que a astromância funciona uma vez que espelho do nosso tempo. Com humor ácido e repertório pop-cabeçudo, que vai de Kim Kardashian a Theodor Adorno, ela posiciona o horóscopo no meio de uma conversa sobre identidade, libido e mercado de atenção.
‘A Boba da Namoro’
Tati Bernardi, ed.: Fósforo, R$ 69,90 (104 págs.), R$ 48,90 (ebook)
Um “plágio”, vamos lá, um empréstimo: Tati quebra o barraco, uma vez que sintetiza tão muito o título da resenha de Ligia Gonçalves Diniz na revista QuatroCincoUm. A autora escreve um romance de atrito, em que ironia e fragilidade caminham juntas. Ao assumir o ponto de vista da “boba”, figura historicamente subestimada, ri da mesma joeira intelectual paulistana que faz sua vida remoinhar. Ao jogar os tomates no espelho, de boba ela não tem zero.
‘O Desabamento’
Édouard Louis, ed.: Todavia, R$ 69,90 (168 págs.), R$ 54,90 (ebook)
Ao narrar a morte do irmão alcoólico e sua modorra diante dela, o responsável desmonta a teoria de tragédia individual para expor um colapso social. Escreve para perdoar e também para ser perdoado. Embora não seja sua melhor obra, ainda é um livraço que o confirma uma vez que um dos grandes autores da atualidade, corajoso em dissecar seus dramas familiares na maca sociológica, sem deixar de questionar sua pretensa superioridade moral nesse processo.
‘Meridiana’
Eliana Alves Cruz, ed.: Companhia das Letras, R$ 69,90 (184 págs.), R$ 34,90 (ebook)
Ao narrar a subida econômica de uma família negra, a autora desloca o foco do “chegar lá” para o que se perde no caminho. A troca da favela por um condomínio de classe média não dissolve tensões, somente as reorganiza. Com múltiplas vozes e atenção a nuances, o romance mostra que mobilidade social, no Brasil, é também um tirocínio permanente de desenraizamento.
‘Um Milhão de Ruas: Crônicas 2010-2015’
Fabrício Corsaletti, ed.: 34, R$ 92 (416 págs.)
Craque na trova, Corsaletti mostra malemolência também neste formato que Rubem Braga resumia uma vez que “se não é aguda, é crônica”. A prosa desce uma vez que uma cerveja geladinha no cume verão, acompanhada de petiscos fotográficos —retratos que ele tirou de ruas que o inspiraram nestas quase 200 crônicas.
Ligia Gonçalves Diniz
Sátira literária e professora da Universidade Federalista de Minas Gerais, é autora de ‘O Varão Não Existe’
‘Cantagalo’
Fernanda Teixeira Ribeiro, ed.: Todavia, R$ 89,90 (288 págs.), R$ 63,90 (ebook)
A autora se esquiva de lições fáceis e do ímpeto tão frequente de reescrever o pretérito neste novelão familiar que atravessa três gerações em uma herdade mineira no período pós-abolição. A história de Praxedes e suas filhas, enxurro de aventuras e twists, revela violências físicas e simbólicas, acordos tortos e estratégias de sobrevivência carregadas de ambivalência. Estreando com segurança, Ribeiro constrói um mundo palpável, por meio de uma vocábulo própria que nos transporta a um período a um só tempo próximo e distante.
‘Eleutéria’
Allegra Hyde, ed.: Buzz, trad.: Cássia Zanon, R$ 69,90 (304 págs.), R$ 49,90 (ebook)
A protagonista desse romance de término de mundo —catástrofe climática, desigualdades, pós-verdade— se define, aos 22 anos, uma vez que sábia demais para ser cínica. É uma autodescrição irônica, mas nem tanto, e se aplica ao romance uma vez que um todo: “Eleutéria” é a história de uma ideólogo, de um tipo que nos acostumamos a desprezar uma vez que ingênuo, mas que se apresenta com um frescor muito bem-vindo. Basta de distopia, e Hyde mostra, em um romance bonito e muito atado, que a esperança pode toar inteligente e que vale a pena imaginar mundos alternativos.
‘O Imperador da Felicidade’
Ocean Vuong, ed.: Rocco, trad.: Rogério W. Galindo, R$ 79,90 (400 págs.)
“Alegria” seria uma tradução melhor para “Gladness”, nome da cidade da Novidade Inglaterra em que vivem o protagonista Hai e seus amigos e familiares. A alegria é mais frágil, mais efêmero, mas também mais comovente e extraordinária, e assim são as possibilidades desses personagens, que vão vivendo com salário mínimo, vício em opioides ou mesmo demência, uma vez que é o caso da adorável Grazina, a idosa lituana sob cuidados de Hai. Parece deprê e até cafona, e o romance é ambas as coisas, mas esse é um preço baixinho a se remunerar quando ele nos entrega tanta formosura —e também um mica de risadas.
‘O Polonês’
J.M. Coetzee, ed.: Companhia das Letras, trad.: José Rubens Siqueira, R$ 79,90 (144 págs.), R$ 39,90 (ebook)
A perspectiva e a experiência da decadência, as contradições do libido e a precariedade da tradução —entre línguas, entre sujeitos— são temas de Coetzee que aparecem cá em ração concentrada. Um velho pianista em término de curso encontra uma mulher de 40 e poucos anos em uma vida confortável e insípida; e o Nobel sul-africano já tem o suficiente para conceber uma pequena obra-prima a reverência das frágeis possibilidades de encontrarmos o outro e de uma vez que é quase inevitável apostarmos nelas.
‘Só um Pouco Cá’
María Ospina Pizano, ed.: Momento, trad.: Silvia Massimini Felix, R$ 74,90 (176 págs.)
A escritora colombiana faz um preconização da atenção neste romance um acerca dos movimentos que bichos, humanos ou não, se veem forçados a fazer nas Américas do presente. Uma narração em terceira pessoa nos faz trotar por ruas e estradas, cavar buracos na terreno e nos lastrar no ar, ao tentar imaginar —sem impor certezas— o que pensam ou sentem duas cadelas, um porco-espinho bebê, um passarinho e um besouro. O resultado é uma viagem sem um pingo de impudência, carregada de uma ternura de que estamos todos precisando.
Luiz Maurício Azevedo
Crítico literário e pesquisador na Unicamp, é responsável de “Estética e Raça: Ensaios sobre a Literatura Negra”
‘Jacarandá’
Gaël Faye, ed.: 34, trad.: Mirella Botaro e Raquel Camargo, R$ 72 (240 págs.)
Em um ano em que a diplomacia não foi capaz de interromper as guerras que a tirania construiu, “Jacarandá” nos ajudou a compreender os muitos e doloridos significados da vocábulo genocídio.
‘Mar de Palavras’
Jandeilsom, ed.: Urutau, R$ 49,90 (80 págs.)
Muito se fala sobre uma suposta supremacia do tema em detrimento dos méritos estéticos na produção contemporânea. Em “Mar de Palavras”, o responsável prova que é verosímil pensar no “uma vez que” sem se desleixar do “quê”. Por isso, Jandeilsom é a maior revelação literária do ano.
‘James’
Percival Everett, ed.: Todavia, trad.: André Czarnobai, R$ 89,90 (320 págs.), R$ 64,90 (ebook)
O modo uma vez que Everett fabrica seu mundo ficcional, tragando o espírito do tempo e o transformando em uma tradição literária infinitamente renovada, coloca-o uma vez que nome incontornável da literatura nas próximas décadas.
‘A Escrutinação dos Sonhos’
Chimamanda Ngozi Adichie, ed.: Companhia das Letras, trad.: Julia Romeu, R$ 89,90 (424 págs.), R$ 39,90 (ebook)
O retorno de Adichie à narrativa longa mostra que há batalhas que só podem ser travadas quando aceitamos a natureza provocativa da longa trilha dos empreendimentos criativos. Trata-se de um magistral romance, escrito por uma autora que fez da politonia narrativa sua religião.
‘Lulli, a Gata Aventureira’
Míriam Leitão, ed.: Rocco, R$ 69,90 (40 págs.), R$ 34,90 (ebook)
Uma comovente história sobre os poderes da linguagem e da empatia. Enfrentando um tema difícil, Leitão nos presenteia com uma economia simbólica de afetos que não se desmancham no ar.
Walter Porto
Editor de Livros e colunista do Quadro das Letras
‘Corsária’
Marilene Felinto, ed.: Fósforo e Ubu, R$ 79,90 (176 págs.), R$ 55,90 (ebook)
Quem dera mais gente escrevesse tão muito quanto Marilene Felinto, dona de literatura intensa e superabundante, dura e beligerante. Seus livros têm o impacto de uma porrada muito dada na ouvido e a dor de escoriações que demoram meses, anos, uma perpetuidade toda para passar.
‘Horas Azuis’
Bruna Dantas Lobato, ed.: Companhia das Letras, R$ 79,90 (144 págs.), R$ 39,90 (ebook)
Em seu romance de estreia repleto de voz da experiência, Bruna Dantas Lobato é capaz de invocar os sentimentos mais ancestrais —a relação umbilical com a mãe que está distante, a saudade desesperada de um tempo que escorre— de forma absolutamente afinada à sensibilidade de um mundo do dedo.
‘Vítima!’
Kaveh Akbar, ed.: Rocco, trad.: Layla Gabriel de Oliveira, R$ 84,90 (384 págs.), R$ 42,90 (ebook)
Akbar mete o pé na porta com a história de Cyrus Shams, um jovem iraniano alcoólico que fica obcecado em dar sentido à própria morte quando percebe que a de seus pais não teve nenhum. É uma discussão fascinante desmembrada num enredo surpreendente, com um dos protagonistas mais inesquecíveis da literatura recente.
‘Nossa Vingança É o Paixão’
Cristina Peri Rossi, ed.: 34, trad.: Ayelén Medail e Cide Piquet, R$ 98 (400 págs.)
Talvez a maior poeta viva da literatura latino-americana, a uruguaia precisou permanecer octogenária até ver uma grande selecta de seus textos editada no seu país vizinho. A poderoso repercussão da obra, com 50 anos de poemas de paixão insubmissa e voracidade libertária, já demonstra o quanto havia de demanda reprimida.
‘Orbital’
Samantha Harvey, ed.: DBA, trad.: Adriano Scandolara, R$ 79,90 (192 págs.), R$ 55,90 (ebook)
“O planeta Terreno é azul, e não tem zero que eu possa fazer”, cantou David Bowie sobre uma pessoa sentada dentro de uma lata no espaço —assim uma vez que os protagonistas deste romance arrebatador em sua delicadeza. Astronautas flutuam dentro de uma nave espacial, impotentes em toda a sua humanidade, por quase 200 páginas. Mas, consumada a leitura, as estrelas vão parecer muito diferentes hoje.
