No bairro de Santa Teresa, no meio do Rio, uma portinha discreta revela um espaço pouco divulgado pelos amantes da literatura. Trata-se da sede da Ateneu Brasileira de Literatura de Cordel, que abriga muro de 150 milénio folhetos e 12 milénio títulos de autores de todo o país, resgatando um importante movimento cultural brasílio.
Os milhares de folhetos coloridos ilustrados com xilogravuras trazem temas diversos: história, ciência, filosofia e as famosas pelejas, duelos em que dois ou mais cordelistas competem mostrando habilidades poéticas por meio de versos e rimas.
A história da origem do espaço começa em outro bairro, na zona setentrião da cidade. Era no Núcleo Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, em São Cristóvão, onde, no século pretérito, os repentistas vendiam suas obras.
Entre os vendedores estava Gonçalo Ferreira da Silva, que morreu em 2022 aos 84 anos e foi um dos principais nomes da literatura de cordel no Brasil.
Nascido em Itu, no Ceará, ele chegou ao Rio na dezena de 1950, com unicamente 13 anos. Na capital fluminense, conheceu a esposa, Maria do Livramento Lima da Silva ou “Madrinha Mena”, porquê passou a ser conhecida pelos cordelistas.
Os dois iam diariamente à Feira de São Cristóvão vender os cordéis escritos por Gonçalo, que serviam porquê principal manadeira de renda da família. “Era uma quadra muito difícil. Tinha que pegar dois ônibus para ir à feira, chegava às 6h da manhã e ficava vendendo os cordéis”, lembra Madrinha Mena.
Aos 74 anos, ela é facilmente encontrada na porta da sede da ABLC, tocando violão enquanto recita versos rimados aos visitantes do lugar.
No final da dezena de 1980, inspirado nos moldes de academias de outros gêneros literários, Gonçalo começou a proferir a geração da Ateneu Brasileira de Literatura de Cordel.
“Ninguém acreditava que pudesse dar notório. Muitos autores são semi-analfabetos, mas Gonçalo acreditou que os poetas poderiam estudar, poderiam fazer curso superior, poderiam usar o português correto”, explica Almir Gusmão, atual presidente da entidade.
Em seguida reunir 40 acadêmicos, a ABLC foi fundada em 1988. Mas a inauguração da sede em Santa Teresa ocorreu unicamente cinco anos depois, com a doação do espaço pelo general Humberto Pelegrino.
O militar era um grande apreciador do gênero e, observando as dificuldades dos cordelistas em fazer suas reuniões, a cada dia em um lugar dissemelhante e de forma precária, resolveu doar o espaço.
“Foi uma espécie de divisor de águas para o folheteiro de bancada que não tinha nenhum base para vender suas obras em estações de trem, feiras e pontos de ônibus. Com a Ateneu, eles passaram a ter um fundamento, inclusive, para resistir ao preconceito”, explica Marlon de Herval, fruto de Gonçalo e curador da ABLC.
Ainda hoje, a Ateneu realiza plenárias mensais, com o intuito de manter viva a tradição da literatura de cordel. Ela também é responsável pela edição de títulos de autores de todo o país e por fomentar às cordeltecas, bibliotecas especializadas na literatura do gênero.
Em um levantamento ainda em curso, a Ateneu Brasileira de Literatura de Cordel mapeou 22 cordeltecas em todo o país, a maior segmento delas na região Nordeste. Segundo o presidente Almir Gusmão, o número é maior. “O Gonçalo falava em 36 cordeltecas no Brasil, mas ele nunca deixou isso por escrito. Sabia tudo de cor”.
Ao menos três delas levam os nomes do fundador ou de Madrinha Mena porquê forma de homenagem. É o caso da Cordelteca Gonçalo Ferreira da Silva, criada por um menino de 13 anos, em Bauru, no interno de São Paulo.
Para Joseilda Souza Diniz, pesquisadora de literatura de cordel e curadora do Museu dos Três Pandeiros, em Varga Grande, na Paraíba, os espaços fortalecem a tradição de saberes orais.
“Hoje o cordel entra na escola, é visto porquê cultura e ensino e está até fora do país, mas ainda há preconceito. As cordeltecas são primordiais para que a tradição chegue às novas gerações que não são mais as de Gonçalo.”
Em 2018, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico Artístico e Pátrio) reconheceu a literatura de cordel porquê patrimônio cultural brasílio.
