Criolo prova que seu rap não envelheceu no Coala Festival – 13/09/2026 – Ilustrada
Se o primeiro dia da edição 2026 do Coala Festival, no sábado, trouxe ao público Maria Bethânia, uma figura superlativa da MPB mas um tanto incomum em eventos do tipo, o domingo teve porquê grande artista um artista que é a rosto do festival, Criolo.
Apesar do reconhecimento pátrio e até fora do Brasil, o rapper construiu sua identidade nos palcos paulistanos. A plateia que encarou muito insensível e chuva no Memorial da América Latina não era exatamente composta por fãs. Criolo tem seguidores, verdadeiros devotos, que sabiam de cor seus versos contundentes.
Na maior segmento do show, esses versos eram das canções de “Nó na Ouvido”, seu segundo álbum, lançado em 2011, cinco anos depois da estreia com “Ainda Há Tempo”. Foi com esse disco que Criolo, até portanto com uma notabilidade restrita ao rodeio do rap paulistano, se transformou em um dos artistas mais importantes de sua geração.
Criolo e os produtores Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral entregaram um disco que cruzou os limites do hip-hop, colocando num caldeirão músico o rap já estruturado ao lado de samba, soul, reggae e, pasmem, até bolero. O mais incrível é que tanta mistura nunca descaracterizou a música de Criolo enquanto protesto raivoso.
O show devotado a comemorar os 15 anos desse álbum que ele apresentou no Coala não deixou em nenhum momento a crônica social de lado. Porquê sempre, Criolo não precisou de uma performance exagerada, explosiva. Mostrou a figura serena que, numa postura de um Buda periférico, fala de desencanto, colocando dedos em feridas profundas.
Músicas porquê “Grajauex”, “Freguês da Meia-Noite”, “Subiruosdoistiozin” e “Risca de Frente” não envelheceram uma ruga sequer nesses 15 anos. E impressionam porque desenvolvem rimas com um vocabulário vasto e um oração incisivo, características que faltam a uma imensa parcela do rap produzido em 2026.
Mas, evidente, zero supera a sociedade da plateia com “Não Existe Paixão em SP”, sátira à ganância da grande cidade que se transformou em um hino do hip-hop pátrio. São Paulo ganha contornos poéticos que transformam a metrópole em personagem de uma história de solidão. Criolo recebeu Seu Jorge no palco e encerrou a noite com a plateia em êxtase.
No palco principal, o show de Criolo foi antecedido por apresentações de vozes muito poderosas. No desabar da tarde, João Gomes conduziu uma roda de forró e piseiro na plateia. É verosímil pedir desculpa pelo clichê, mas foi realmente impossível alguém permanecer parado.
Impressiona muito João Gomes ter somente 24 anos. Ele tem uma formosa voz de velho, disparou uma mulher na plateia. E ela acertou em referto nessa definição. Não somente pelo timbre ou pelo alcance, o cantor tem uma projeção de voz segura, canta muito sem parecer fazer o mínimo esforço.
Depois do pernambucano, foi a vez do carioca Seu Jorge entreter o público, sob chuva intensa. Ele, sem incerteza, sabe porquê fazer isso. O vozeirão é marca registrada, assim porquê a maleabilidade de encaixar essa potência vocal em vários gêneros.
Seu Jorge misturou canções de vários discos, e distribuiu as faixas no setlist para não deixar nenhuma chance de respiro para o público. Ele tem experiência para sentir a plateia e encadear as canções de modo a crescerem durante a apresentação. Quando encerra com covers de Tim Maia, o público está entusiasmado e rendido. Um show feito para levantar a povo molhada.
As apresentações preliminares do segundo dia seguiram a tradição do Coal, de reunir atrações emergentes e nomes mais alternativos. A programação abriu com Sophia Chablau e Felipe Vaqueiro, Duquesa e Luedji Luna, com participação do veterano grupo dançante Fat Family.
Embora baiano, a relação de Tom Zé com a cidade de São Paulo também é arrebatadora. E o responsável de “São Paulo, Meu Paixão” completará 90 anos no próximo dia 11, o que só tornou sua apresentação no Auditório Simón Bolívar, dentro do multíplice do memorial, em pura celebração. Ainda cantando, compondo e fazendo shows, Tom Zé é de uma longevidade que os fãs comemoram.
A escolha de Criolo para fechar a edição deste ano fez muito sentido. O cantor reformatou no palco o disco que o tornou mais publicado, e ele passou a lucrar mais público justamente quando o festival começava a se organizar. São trajetórias contemporâneas e entrelaçadas. Esta foi a terceira participação de Criolo no Coala.
Assim, o festival segue repercutindo a cena paulistana, seja com artistas locais ou recebendo gente de todo o Brasil. Um pouco porquê é a cidade de São Paulo todos os dias.





